O que o Wi-Fi mesh tem a ver com o futuro da sua casa conectada?

Por Carla Matsu
11 de junho de 2018 - 08h00
Tecnologia garantirá o pleno funcionamento dos objetos que conversam entre si; Entretanto, indústria precisa de um padrão para que a IoT não se torne uma dor de cabeça para o usuário

Há alguns anos a indústria de tecnologia vem vendendo um futuro onde a maioria dos objetos ao nosso redor será conectado para entregar algo que a gente busca desde que aprende a dar os primeiros passos: conveniência. Um universo doméstico onde TVs, lâmpadas, geladeiras, lavadoras, cafeteiras, câmeras de segurança e, quem sabe a sua cama, possa ser controlado pelo seu smartphone pode soar confortável. Mas talvez, por enquanto, passe longe da sua lista de prioridades. Entretanto, segundo estudos da indústria, esse cenário descrito será norma até 2020, pelo menos, no que diz respeito ao mercado americano e europeu. A expectativa é que uma casa tenha, em média, 50 objetos conectados, segundo relatório "O impacto da Internet das Coisas", da GMSA.

Talvez você leia tais linhas e reaja com certo ceticismo. Afinal, como a cafeteira na cozinha dará conta de preparar um espresso ao clique de um aplicativo se sequer a sua rede Wi-Fi funciona no cômodo anexo a sala - onde fica o roteador, certo? A resposta para entregar a infraestrutura necessária para um mundo de objetos conectados parece residir no que se chama Wi-Fi mesh ou Wi-Fi distribuído. 

Os aparelhos que oferecem a tecnologia não são tão populares ainda e eles têm o seu preço. No Brasil, por enquanto só há a opção do TP-Link Deco M5, que chegou em setembro do ano passado e hoje pode ser comprado por cerca de R$ 1.000. Dispositivos Wi-Fi mesh são parecidos com roteadores, mas vêm geralmente em kits com dois ou três deles idênticos. Pense neles como um sistema de vários extensores de Wi-Fi, porém um que permite configurá-lo em 15 minutos e não exige da sua criatividade para criar vários nomes da rede. Só é preciso ligar as unidades e seguir alguns passos simples no aplicativo que o acompanha. No final do dia, os aparelhos dividem o mesmo ponto de acesso e trabalham em conjunto para distribuir o sinal pela área, sendo uma boa opção para casas grandes.

Dada a descrição, o Wi-Fi mesh parece ser uma alternativa mais cara para os mais acessíveis repetidores de Wi-Fi. Então, quais seriam as vantagens aqui? Enquanto os repetidores simplesmente estendem o sinal do seu roteador principal, os sistemas mesh criam uma nova rede Wi-Fi, separada daquela do seu roteador atual. Ele consegue criar um nível de redundância, com múltiplos "nós" de conectividade, entregando mais estabilidade. Pode soar um preciosismo tecnológico por ora, mas a medida que casas são mobiliadas com objetos inteligentes e assistentes pessoais como a Alexa, Siri e Google Home, esse tipo de "malha" de internet é que permitirá fazer tais aparelhos funcionarem e, ao mesmo tempo, se interligarem um com os outros. Pode soar cômico, ou provavelmente mais irritante, você gritando “Alexa" casa e ela não responder porque a sua internet não lida bem com os chamados pontos cegos de conectividade. Outra vantagem dos sistemas mesh é que eles conseguem detectar e corrigir problemas na conexão de forma automática, além de identificar ameaças de segurança - estas em plena ascensão. 

A IoT que funciona é invisível as preocupações do usuário

Em seu escritório em São Paulo, a Qualcomm Technologies apresentou recentemente para jornalistas sua visão para as casas conectadas do futuro, onde elas poderão ser facilmente controladas por uma assistente de voz. No exemplo, a Qualcomm recorreu a um protótipo que fez da Alexa da Amazon “a mestre da IoT doméstica” para ligar desde lâmpadas a um ventilador. A ideia é que ela pudesse fazer o mesmo com qualquer eletrodoméstico habilitado para “escutá-la”.

Ao demonstrar que uma casa consiga responder aos chamados de seu dono e mesmo à distância, a Qualcomm chama atenção para alguns desafios que este cenário futurista colocará diante de nossas exigências com conectividade. Em resumo, a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês) só será algo, de fato, descolada e funcional se ela realmente funcionar - o que pode parecer óbvio. Mas para isso o usuário deverá entender que o Wi-Fi tradicional que ele possui em casa não dará conta desse admirável mundo novo. Entra aí o Wi-Fi mesh, reforça a Qualcomm.

Atentos a demanda por coisas conectadas, fabricantes já preparam uma segunda onda de sistemas de rede distribuídos tendo no horizonte a Internet das Coisas e assistentes de voz. Dois exemplos recentes são da Asus com o projeto Wi-Fi Lyra (com a Alexa integrada) e a Samsung com o Connected Home. Apresentados neste ano e no passado, respectivamente, os aparelhos são plataformas convergentes que aguardam lançamento.

As tecnologias da Qualcomm para Mesh, incluindo ai WiFi SON (Self Organizing Networks), já são usadas por fabricantes como a TP Link, Google Wi-Fi, Netgear e Eero. A geração de produtos mais recentes utilizam um chipset IPQ (Internet Processor Qualcomm) 4018 ou 4019.

"A gente busca um projeto de uma rede que para o usuário funciona. Porque a rede é ótima quando o usuário não sabe que ela existe”, ressalta Hamilton Mattias, diretor de produto Qualcomm Latam, ao falar sobre a interoperabilidade dos objetos conectados.

Em busca de um padrão: o Easy Mesh

A disputa para conseguir um lugar cativo na casa dos usuários tem ficado cada vez mais acirrada. Até então, Amazon e o Google tem se mantido na linha de frente (com a Apple atrás) para conseguir o maior número de parceiros que interoperam com suas assistentes. Durante a última edição da CES, em Las Vegas, foi difícil definir qual das duas gigantes saiu na frente com maior número de objetos “falando o mesmo idioma” que elas.

“Enquanto o mundo celular evoluiu lindamente, o mundo da casa ficou conectado sem fio por Wi-Fi por muitos anos. A grande revolução chega quando nós implementamos na casa a mesma tecnologia que desenvolvemos para o mundo celular”, sinaliza Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm Brasil. 

Hamilton Mathias chama atenção para a complexidade que a Internet das Coisas está criando, aos poucos, às redes. Isso porque ao comprar novos dispositivos conectados para a casa, o usuário não pensará, em um primeiro momento, se eles serão compatíveis entre si. "Hoje, se você compra um equipamento de um fabricante, é melhor manter o mesmo fabricante para os outros para que eles sejam interoperáveis”, ressalta Mathias. 

Para escalar a IoT a saída é a adoção de uma padronização. A WFA (Wi-Fi Alliance) anunciou em maio a certificação Easy Mesh. "É importante ter uma rede homogênea também dos fabricantes”, diz Mathias. Segundo a Qualcomm, um padrão deve ser adotado em maior escala já em 2019. 

Nesse horizonte, as operadoras devem se atentar para aproveitar a oportunidade de “reconquistar" o seu local cativo na casa de clientes, diz Steinhauser. 

"A grande chance do Mesh de integrar IoT e assistentes inteligentes é a grande chance das operadoras voltarem a ser as donas da casa, se elas conseguirem se colocar no ponto de acesso”, aconselha. Segundo o executivo, a Qualcomm tem conversado com operadoras para disponibilizar a tecnologia, incluindo no Brasil.

E as operadoras precisam correr. Pois especialistas alertam que se as provedoras de internet (ISPs) não ofertarem um serviço de qualidade aqui para usuários, há a chance de eles migrarem e confiarem a infraestrutura de suas casas conectadas para um servidor de nuvem - quem sabe o Google?