Precisamos de mais mulheres em posições de liderança, diz Sharron McPherson

Por Carla Matsu*
05 de fevereiro de 2018 - 12h39
Diretora-fundadora do Women in Infrastructure Development & Energy, Sharron convoca jovens empreendedoras a 'hackearem' problemas sociais

Sharron McPherson já tinha uma carreira sólida como advogada e investidora em Wall Street quando começou a refletir sobre alguns porquês. Tais questionamentos a levaram a uma jornada que há 22 anos a fez fixar residência na África do Sul. “Eu me perguntava quem eu realmente sou?”, diz ela durante palestra dada na 11a edição da Campus Party, evento de tecnologia e empreendedorismo que aconteceu na última semana em São Paulo. "Acho que a gente tem que se manter fazendo as perguntas certas, como é que podemos continuar impactando nossas comunidades?", completa.

Com Doutorado em Direito pela Universidade de Columbia, e diploma honorário em Finanças pela Universidade de Toulon, na França, Sharron foi a primeira mulher afro-americana a se formar na Singularity University. Segundo ela, seu objetivo é impactar positivamente a vida de 1 bilhão de pessoas. E para isso, ela conta com algumas iniciativas, entre elas o fundo Women in Infrastructure Development & Energy (WINDE). Lançado há 15 anos, o fundo visa acelerar pequenas e médias empresas e projetos de impacto social comandado por mulheres. 

Para empoderar uma nova geração de mulheres é preciso ter exemplos para garotas se espelharem. "Precisamos de mais mulheres em cargos de liderança, mas não só isso. Essas mulheres também precisam fazer algo pelas outras. Porque não adianta de nada eu chegar nessa posição onde estou e me dar vencida por isso. Não fazer nada. Precisamos nos perguntar em como podemos impactar o nosso redor", diz Sharron em entrevista ao IDG Now!. 

A falta de diversidade no Vale do Silício ganha manchetes recorrentes na imprensa, com denúncias de assédio dentro de gigantes de tecnologia, falta de políticas de diversidade ou ainda o caso de um engenheiro de software do Google que argumentou que a divisão de gêneros na indústria seria justificada por diferenças biológicas entre homens e mulheres. 

"Temos uma questão muito séria de diversidade nas empresas do Vale do Silício. Eu nunca vi alguém no Vale que tivesse a mesma aparência que eu. Então, se você é uma pessoa jovem e tem ideais e quer fazer algo com isso, mas todo mundo a sua volta é diferente, isso manda uma mensagem de que pessoas como você não inventam. Não trabalham com tecnologia", argumenta Sharron. "É cansativo. Você sempre tem que lidar com esses preconceitos, as premissas que as pessoas têm de você. Mas também temos que nos fazer essas perguntas, de como trazer mais diversidade para esse universo. Caso contrário, sempre teremos resultados questionáveis". 

Inovação entre fronteiras

Sharron defende que a tecnologia precisa ser usada e desenvolvida com uma pergunta em mente: como melhorar a vida das pessoas? "Não queremos lançar um aplicativo, um algoritmo que tenha 1 milhão de usuários, não é para isso que trabalhamos", resume.

O consórcio WINDE atua em 14 mercados na África subsariana. Para serem acelerados, os projetos devem apresentar inovações que envolvam e possam contribuir com suas comunidades. 

Ao falar das deficiências, características, desafios e oportunidades do continente para onde atua, Sharron aproxima a África do Brasil. "Temos uma das populações mais jovens do mundo, com maior penetração de celulares, uma área geográfica imensa como o Brasil", compara. Tendo esse contexto à disposição, ela elenca áreas como a da educação, da saúde, de inclusão financeira e de abastecimento de água como prioritárias para abraçar soluções de tecnologia. 

Em um mundo em acelerado crescimento, ela diz, não podemos nos dar ao luxo de discriminar pessoas. "Precisamos de todos os cérebros para resolver os problemas. Hackeiem esses problemas", convoca Sharron. "Nós passamos muito tempo pensando em como desenvolver as melhores soluções tecnológicas, mas não estamos hackeando a consciência humana. Como vamos endereçar esses mesmos desafios quando não pensamos também com o coração?".