Empresas recorrem a robôs para inovar o setor de serviços e o da educação

Por Carla Matsu
29/01/2018 - 12h00
Há desde robôs que estimulam o aprendizado de crianças a aqueles que te servem drinks no saguão do hotel; O universo dos robôs pessoais se pluraliza a cada ano

Robôs têm deixado a exclusividade das fábricas para também assumir funções em hotéis, restaurantes, hospitais e, bem, até mesmo a sala da sua casa e as salas de aula. Há cerca de dois anos, em 2015, a gigante japonesa Softbank fez manchetes ao conseguir vender, no Japão, mil unidades do seu humanoide Pepper em apenas um minuto. A venda recorde mostrava o potencial e a popularidade para robôs com rostos, digamos, amigáveis.

De lá para cá, o Pepper evoluiu para uma série de serviços e hoje conta com a companhia de inúmeros amigos ou, melhor, concorrentes robóticos para integrar um futuro onde nós, consumidores, seremos atendidos por versões contemporâneas de C-3POs e R2-D2s. E apesar de parecer às vezes um cenário de ficção científica, basta avaliar os anúncios de grandes empresas de tecnologia e startups durante a CES 2018, que aconteceu no início de janeiro em Las Vegas, para endossar a previsão de que robôs e a automação por trás deles conseguirá, eventualmente, substituir muitos de nós em um transformado mercado de trabalho.

A AvatarMind, empresa fundada em 2014 e com sede no Vale do Silício, é responsável pelo desenvolvimento do iPal, um robô com cerca de um metro de altura, grandes olhos que "escondem" câmeras, sensores que respondem ao toque humano e um tablet no peito. John Ostrem, CEO da empresa, explica que a ideia do iPal é servir humanos em diferentes propósitos. Com ele, idosos poderão se sentir menos sozinhos, crianças receberão educação complementar e o setor de hospitalidade poderia atender clientes em lojas ou restaurantes. Uma versão para desenvolvedores será lançada por US$ 1.699 e a versão para o consumidor final custará cerca de US$ 2 mil quando chegar ao mercado norte-americano em maio deste ano.

A companhia tem buscado parcerias para evoluir a inteligência artificial por trás do robô. A mais recente foi firmada com a Eyeris, especializada em visão computacional para o comportamento humano. Segundo Ostrem, a colaboração visa sofisticar o iPal para atender o setor de educação, principalmente para interagir e ensinar crianças do jardim da infância e ensino fundamental. 

"Um professor tem geralmente 30 alunos em sua turma, e ele não consegue dar atenção a todos. Algumas crianças demandam mais. Um robô pode, então, oferecer esse tempo a mais, uma educação complementar. Não estamos tentando substituir professores, mas sim oferecer recursos adicionais para que todos os alunos possam aprender de forma igual e possam se interessar pela tecnologia", explica Ostrem em entrevista ao IDG Now.

Educação 4.0

Robôs destinados à educação parecem integrar uma tendência para os próximos anos. Além do iPal da AvatarMind, a startup OVO Technology exibia durante a CES 2018 o OVO Robot. O protótipo de formas arredondadas foi pensado para auxiliar no aprendizado de crianças de 2 a 6 anos.

Segundo Jeff Mei, da OVO, a empresa desenvolve recursos em processamento de linguagem natural para interagir com crianças tanto em chinês quanto em inglês. Em testes, o robô se saiu bem em diferenciar crianças de adultos e até mesmo identificar os alunos com personalidade, digamos, mais tímida, explica Mei. 

"Ele consegue aprender quais são as crianças que ficam mais sozinhas, por exemplo", diz o desenvolvedor. "Penso que robôs jamais substituirão professores, por mais que a IA evolua. Acredito que eles vêm para reduzir, na verdade, a carga de trabalho deles", defende Mei que prevê lançamento comercial do robô para o segundo semestre.

Robôs não precisam de gorjeta

Empresas de tecnologia têm visto no chamado setor da hospitalidade um grande nicho para vender e testar seus funcionários artificialmente inteligentes. No Renaissance Hotel, em Las Vegas, dois robôs da empresa de San Jose, a Savioke, trabalham para atender pedidos de hóspedes. Caso você se hospede no endereço, Elvis ou Priscilla poderão responder por suas urgências, como toalhas limpas ou outras amenidades e entregá-las diretamente na sua porta. Mas apesar dos nomes humanos, o modelo da Savioke não tenta imitar nenhuma expressão familiar nossa, eles são mais próximos de carrinhos automatizados e conectados. Até então, a empresa afirma empregar 70 deles em diferentes hotéis nos EUA.

A LG também parece apostar grandes fichas no segmento. A sul-coreana apresentou na CES uma família de três robôs, sob o nome CLOi. Cada um deles deve ser alocado em um contexto diferente, que incluem carregar bagagens de hóspedes e servir refeições e drinks em restaurantes ou no saguão de aeroportos. Alguns deles já estão em uso em shopping centers e aeroportos na Coreia do Sul. Uma versão doméstica - em proporções bem menores - também foi destaque na feira. Sua função é integrar e se comunicar com os produtos conectados da marca por comandos de voz.

LG-cloi

Outra fabricante que tem desenvolvido robôs que possam atender a diferentes propósitos é a chinesa QIHAN Technology. Já disponível comercialmente por cerca de US$ 2.800, o Sanbot Nano é um robô para a família. Além de transmitir videoconferências, exibir filmes e afins, o robô faz à vezes de vigilante da casa. Isso porque ele consegue monitorar o ambiente e avisar, via app, caso alguém estranho - que não esteja registrado em seu sistema - entre na casa. Um dos destaques, entretanto, é que o Nano é habilitado pela Alexa, a assistente inteligente da Amazon. E por isso, consegue se integrar com outros objetos conectados e compatíveis, assim como lembrar das suas tarefas.

Você pode achar um tanto limitado a ideia de que robôs domésticos e de serviço virão sobre rodinhas e com bandejas. Mas há ainda exemplos de um robô-máquina que dobra automaticamente suas roupas, um cachorro da Sony habilitado por IA e um carrinho autônomo da Honda, o 3E-C18, que pode se transformar tanto em uma mesa de trabalho quanto uma cafeteria ambulante. 

Dada a previsão do McKinsey Global Institute que diz que até o ano de 2030, cerca de 800 milhões de empregos globais poderão ser substituídos pela automação, as empresas que desenvolvem tais colegas robóticos preferem assumir a visão mais altruísta de suas criações. 

"Eu não penso que eles vêm para substituir as pessoas e sim para melhorar a qualidade de vida delas. Com robôs assumindo funções repetitivas, as pessoas poderão se focar em tarefas e trabalhos mais valiosos", defende Betty Lai, Relações Públicas da Sanbot.

Já John Ostrem, CEO da AvatarMind, compara o valor dos robôs domésticos ao mesmo papel que computadores pessoais desempenharam em nossas rotinas e trabalho nos últimos 30 anos.

"Eu acredito que a revolução do computador pessoal acabou. Cada pessoa já possui um ou mais computadores. Nos próximos cinco anos, pessoas contarão com uma série de robôs para servi-las no dia a dia", prevê Ostrem.

E, claro, ao mesmo tempo que empresas conseguem automatizar muitas funções, robôs também oferecerão um novo, valioso e íntimo espectro de seus clientes - diga com qual robô andas, e essas companhias poderão dizer quem você é. 

*Jornalista viajou e participou da CES 2018 à convite da CTA