Artigo: com smartphones como esses, por que precisamos de laptops?

Mike Elgan, Computerworld / EUA
21 de dezembro de 2017 - 10h00
Cada vez mais poderosos, seguros e caros, os smartphones parecem estar prontos para substituírem os notebooks.

Samsung Dex transforma smartphone em PC (Imagem: Luiz Mazetto)

Smartphones são supercomputadores.

Ou, pelo menos, eles são muito mais poderosos do que os supercomputadores eram há 10 anos. E muito mais potentes do que os desktops há cinco anos.

Os smartphones também oferecem benefícios incríveis que os notebooks não possuem – só para citar alguns: maior duração de bateria e segurança com biometria.

Então por que ainda estamos usando notebooks?

Novos notebooks com Windows 10

A Microsoft e a Qualcomm anunciaram recentemente um novo tipo de laptop. Em poucas palavras, é uma laptop com um processador de smartphone rodando um sistema operacional para notebooks.

Mais especificamente, esses novos laptops Windows 10 que serão fabricados pela HP, Lenovo e Asus contam com o chip Snapdragon 835, da Qualcomm. É o mesmo processador presente em smartphones top de linha como o Galaxy S8 e o Note 8, ambos da Samsung.

A Microsoft adaptou o Windows 10 para rodar de forma nativa em chipsets ARM. Inicialmente esses aparelhos chegarão ao mercado com o Windows 10 S, a versão simplificada e fechada do Windows. Mas os usuários poderão fazer um upgrade gratuito para o Windows 10 Pro.

Apesar de esses notebooks não serem tão poderosos quanto outros laptops Windows disponíveis no mercado, o processador para smartphones dentro deles habilita conectividade LTE mais rápida e sempre ligada e bateria que dura o dia todo. A Microsoft chama essa nova categoria de PCs Sempre Conectados (Always Connected PCs, no original em inglês). 

Esse novo tipo de notebook eventualmente se provará valioso para determinados tipos de usuários corporativos.

Mas o que é realmente interessante sobre esse desenvolvimento é o que ele significa para o futuro de usar um smartphone como um desktop.

A conexão smartphone

A ideia de usar um smartphone como um computador desktop não é nova. Diversos produtos nos últimos anos já tentaram isso, mas nunca chegaram a conseguir uma adoção em massa.

O mais recente que vi atualmente está em uma campanha de financiamento coletivo. É chamado de Smartphone Expansion Keyboard, ou SEK.

A ideia é usar um teclado especial como a parte central de um sistema desktop. O teclado possui recursos pouco comuns, incluindo uma dock para um smartphone, uma entrada HDMI para o monitor, um conector USB para um mouse e acessório externo, e uma conexão Type C para o smartphone. 

Em outras palavras, os acessórios do desktop se conectam ao teclado, e o smartphone se conecta ao teclado para funcionar como a CPU.

Independentemente da qualidade ou do sucesso desse projeto, o conceito é muito bom. Usar um teclado como o hub e o smartphone como a CPU é uma ótima abordagem.

Outros produtos estão no mercado e as pessoas estão usando-os neste momento. O principal deles é o Samsung Dex, que é uma dock que transforma alguns smartphones da fabricante sul-coreana em um PC desktop usando o PC Mode, da Samsung. O Dex possui todos os conectores principais de um PC, mais a opção de conectar um teclado e um mouse via Bluetooth.

Também vale citar o Huawei Mate 10, que é um smartphone que oferece um modo PC sem a dock. Ele simplesmente usa um cabo para conectar o celular a um monitor – o teclado e o mouse são conectados de forma wireless a partir do próprio smartphone. O melhor tudo: a Huawei alega o smartphone continua totalmente funcional no PC Mode, incluindo a habilidade de fazer e receber chamadas telefônicas.  

Uma ideia inovadora veio da Asus quando a empresa lançou o seu PadFone, que era basicamente um produto “3 em 1”, um smartphone que entra no slot de um tablet, que vira um notebook.

Já o Sentio Superbook é um laptop que você conecta em um smartphone; ele então usa o smartphone como a sua CPU.

Por fim, e a partir de uma perspectiva de presença de mercado do smartphone, pelo menos, há o Microsoft Continuum, que permite que você use um smartphone como um desktop e rode, entre outras coisas, apps padrão da empresa de Cupertino como World, Excel e outros. O problema desse recurso é que ele exige um Windows Phone para isso.

Esses esforços novos e outros não tão bem-sucedidos não invalidam a ideia do smartphone como um substituto do laptop. Com os smartphones cada vez mais poderosos (e caros) a cada ano, é realmente apenas uma questão de tempo – e de vontade por parte da indústria.

Por que os smartphones deveriam substituir os laptops

Os recém-anunciados PCs Sempre Conectados, da Microsoft, envolvem um sistema para desktops rodando em um chipset mobile ARM.

Mas as implicações são surpreendentes quando você considera que a plataforma PC Sempre Conectado prepara o terreno para que todos os principais sistemas operacionais de PCs rodem nos principais chipsets ARM.

E também levanta questões, como essas a seguir:

-O Windows 10 Pro pode ser feito para nativamente em todos os principais smartphones Android top de linha?

-O macOS High Sierra pode ser feito para rodar no iPhone X?

-Um smartphone Android poderia se transformar em um Chromebook no modo PC e também rodar os apps Android no smartphone nesse modo?

A resposta para todas essas perguntas é, obviamente, que sim.

O problema é que a Microsoft não quer que você rode o Windows em um smartphone Android. E a Apple também não quer que você substitua seu MacBook por um iPhone – ela quer que você compre os dois.

Por outro lado, o Google quer que você use seu smartphone Android como um Chromebook.

E, mais importante de tudo, a Microsoft quer se tornar um player no mercado de smartphones – ou algo assim.

“Tenho certeza que faremos mais telefones, mas eles não serão como os aparelhos que estão por aí atualmente”, afirmou há alguns meses o CEO da Microsoft, Satya Nadella.

Se você segue os rumores, descobertas e comentários misteriosos dos executivos da Microsoft – e outros desenvolvimentos, parece que a empresa pode estar trabalhando na reinvenção do smartphone em vez de preparando apenas mais um smartphone.

Todos os rumores apontam para um tablete dobrável Windows 10, baseado em uma caneta, que rode com um chipset ARM.

A ideia é que ele seria um smartphone quando dobrado, mais ou menos do tamanho de um smartphone grande. Mas quando fosse aberto, as duas telas ficariam do tamanho de um pequeno tablete. 

O aparelho rodaria o Wndows 10 em processadores mobile, assim como os já citados PCs Sempre Conectados.

E, se pensarmos no projeto Continuum da empresa, o produto também poderia se conectar com acessórios e substituir um desktop.

Um dispositivo desse tipo permitiria que a Microsoft competisse no mercado de smartphones com um produto que não é exatamente um smartphone.

Independente de a Microsoft lançar um phablet dobrável ou não, está claro que a habilidade de rodar um PC a partir de um smartphone está pronta para uma adoção em massa.

Agora que o Windows 10 Pro está rodando em chips ARM, agora que os Chromebooks rodam Android, agora que o mais recente iPhone custa mais de 1 mil dólares (e quase 8 mil reais), penso que é razoável dizer que o mundo está pronto para que os smartphones substituam os laptops e desktops.

Com os smartphones mais e mais poderosos e seguros (com melhor segurança biométrica), a demanda por smartphones muito caros também cresce. No entanto, com todo esse gasto em smartphones, o apetite para um laptop separado acaba diminuindo.

Já carregamos um supercomputador nos nossos bolsos. E tudo que realmente precisamos do desktop é a tela grande, do teclado em tamanho real e talvez um mouse o trackpad. Também precisamos um sistema para desktops rodando nesses smartphones.

Eu sei, eu sei. Desenvolvedores, usuários de Photoshop e outros profissionais que demandam mais poder não podem usar um smartphone para trabalhar. Mas a maioria das pessoas pode. Penso que a indústria está pronta para smartphones que substituam laptops. E você?