Como a realidade aumentada promete transformar os smartphones e os negócios

Mike Elgan, Computerworld (EUA)
17/07/2017 - 14h53
Com lasers, hologramas e mais, fabricantes estão correndo para otimizar seus aparelhos. Um uso certo para a tecnologia? A colaboração em realidade aumentada

A realidade aumentada (RA) é superficial, nos disseram. Ela tem sua vocação, principalmente, nos games e no entretenimento.

Mas uma transformação importante está prestes a começar. A partir do próximo ano, a tecnologia começará a transformar as comunicações empresariais, a logística, a manufatura, a análise, o design de produtos, o treinamento, o marketing, o serviço de campo e muito mais.

Claro, os smartphones e tablets de hoje não são suficientes para tais tarefas. Mas, no futuro, eles serão.

Até mesmo as reuniões de trabalho irão mudar. Com a onipresente realidade aumentada, vários dispositivos podem ver a mesma coisa no mesmo espaço. 

Imagine usuários de tablets sentados ao redor de uma mesa de conferência. Ao olhar para suas telas, todos os participantes da reunião verão os mesmos gráficos 3D que flutuam no espaço acima da tabela, o mesmo protótipo virtual, o mesmo globo ou o mesmo holograma.

Em vez das apresentações de PowerPoint projetadas em uma parede, os dados apresentados serão em 3D, holográficos e exibidos em realidade aumentada no meio da sala. O melhor de tudo, os participantes remotos também verão as mesmas imagens. E a palavra-chave para isso é "colaboração em realidade aumentada".

A última plataforma de hardware para a realidade aumentada serão os óculos. Mas até a tecnologia avançar o suficiente para permitir isso de forma ampla, a tecnologia viverá ainda em smartphones e tablets.

O setor está se concentrando em dispositivos móveis porque eles já são onipresentes e possuem os ingredientes básicos necessários de hardware para a conectividade em realidade aumentada, ou seja, telas, câmeras, processadores, sensores de movimento e a capacidade de executar aplicativos.

Todo mundo ficará surpreso quando o óbvio e o inevitável acontecer - quando as capacidades e o desempenho da RA em telefones e tablets se tornarem o motivo de comprar uma marca de telefone ao invés de outra. Você pode apostar que os fabricantes irão inovar com novos recursos de hardware para popularizar a realidade aumentada.

Na verdade, isso já está acontecendo. O Vale do Silício está explodindo repentinamente em uma corrida para otimizar os smartphones para a realidade aumentada.

O laser do iPhone

A Fast Company reportou que a Apple está tentando construir um sistema 3D a laser voltado para a parte traseira do próximo iPhone 8. Também é possível que o novo componente possa ser introduzido em um modelo posterior.

O objetivo do sistema - que envolve um gerador de raio laser, lente e chip - é medir com rapidez e precisão a distância, não só para um foco automático mais rápido para a câmera (especialmente útil na luz baixa), mas também para uma melhor colocação de objetos virtuais no espaço físico com aplicativos de realidade aumentada. 

Este novo elemento de hardware melhoraria o posicionamento preciso de objetos virtuais dentro de aplicativos criados com o ARKit da Apple no sistema atual, o que já é muito preciso.

O telefone holograma

A Red anunciou planos de lançar um smartphone Android no primeiro trimestre do ano que vem chamado Hydrogen One.

A empresa afirma que a tela do telefone, batizada de "exibição holográfica de hidrogênio", poderá mostrar conteúdo holográfico 3D sem óculos especiais. O fundador da companhia, James Jannard, disse que não se tratava de uma lente tradicional, mas uma que usaria uma "tecnologia não vista antes" que usa a tecnologia de exibição "multivisão".

Também será modular, com anexos que permitem, entre outras coisas, o disparo de "imagens holográficas". Tudo soa muito enigmático e parece improvável, se lembrarmos que a Red prometeu, no ano passado, coisas improváveis para as suas câmeras.

De acordo com a companhia, o telefone será vendido a partir de US$ 1.195 e já se encontra disponível para pré-encomenda.

Um smartphone Surface e o mistério da Huawei

Recentemente, o editor executivo da Thurrott, Brad Sams, disse em um podcast que a Microsoft está trabalhando em um dispositivo Windows 10 da linha Surface otimizado para a realidade aumentada. Ele disse que os protótipos dos dispositivos já estão sendo aprovados no campus da Microsoft.

O aspecto mais promissor deste boato é que, aparentemente, o projeto é liderado pelo chefe da HoloLens, Alex Kipman. Isso significaria que, assim como o Hydrogen One, um novo telefone Surface seria projetado principalmente para a realidade aumentada, ou seja, mais uma forte aposta da Microsoft de que a a tecnologia terá sua aplicação primária.

Enquanto isso, vazamentos em torno do próximo smartphone Mate 10 da Huawei também indicam um hardware específico para realidade aumentada, mas desconhece-se exatamente quais são esses componentes ou como impulsionam a tecnologia.

Como entender o impulso da AR

Todos esses rumores e anúncios sugerem, se nada mais, que os fabricantes de smartphones estão lutando para superar uns aos outros no mercado com vantagens convincentes em realidade aumentada.

Alguém que não acompanha muito o mercado poderia assumir que o Google está muito à frente na corrida da realidade aumentada. Afinal, o sistema Tango, que o Google anunciou pela primeira vez há três anos, parece estar à frente dos concorrentes. Dois dispositivos - o Asustek ZenFone AR e o Lenovo Phab 2 Pro - já suportam o Tango, que é um sistema que envolve hardware avançado para mapear rapidamente um ambiente interno, ideal para aplicativos de RA.

O problema é que esses telefones representam uma porcentagem insignificante do mercado Android. Como resultado, as APIs específicas do Tango não são amplamente utilizadas e o software Tango é raro.

Mas com a Lei de Moore baixando os altos custos do hardware do projeto Tango, isso pode mudar eventualmente. 

E claro, se há algo que os smartphones habilitados para o sistema Tango podem nos dizer é um guia para o futuro dos próprios aparelhos. Por causa da realidade aumentada, os smartphones precisarão de sensores especiais e poder de processamento maciço.

Enquanto isso, talvez o maior evento que já tenha acontecido no mundo da realidade aumentada foi o anúncio da Apple, no mês passado, de seu ARkit para desenvolvimento de apps para o próximo iOS 11. Quando o novo software para os novos iPhone e iPad chegar, desenvolvedores ganharão acesso, teoricamente, a um bilhão de usuários. A realidade aumentada em dispositivos móveis irá popularizar rapidamente e usuários de smartphone irão começar a escolher telefones baseados nas capacidades de realidade aumentada - da mesma forma que eles escolhem baseado na qualidade de suas câmeras. 

Esta previsão se aplica também a empresas que incentivam a prática BYOD (Bring Your On Device). Assim como os aplicativos internos e os desenvolvedores de sistemas back-end podem contar com dispositivos BYOD que se dirijam às câmeras de aparelhos, logo eles contarão com os mesmos para fazer uma realidade aumentada avançada.

Hoje, a maioria dos tomadores de decisões empresariais assumem que os aplicativos de RA serão atendidos por óculos especiais e outros equipamentos futuristas e que a RA é um desafio para o futuro distante. Mas é hora de ajustar esses pressupostos.

Com cada dia que passa, parece que a realidade aumentada para fins corporativos será implantada em breve por meio de smartphones e tablets, incluindo o BYOD. Esta mudança deve e afetará as decisões de compra. A RA favorece telefones e tablets, bem como laptops ou híbridos com câmeras voltadas para a parte traseira, como o Microsoft Surface Book.
 
Além disso: é importante lembrar que, onde quer que a Apple siga com os componentes, a indústria toda irá atrás. 
 
Um hardware de RA dedicado, como o mencionado - e ainda não confirmado - laser traseiro da Apple, significa que a indústria eletrônica irá progredir para produzi-los aos milhões. 
 
Esta e outras categorias de componentes específicos de realidade aumentada direcionarão a plataforma de RA real, que são os óculos inteligentes.
 
Permitam-me reformular isso: os componentes dedicados à realidade aumentada em smartphones acelerarão a implantação da tecnologia porque ela estará em smartphones e acelerará dispositivos de realidade aumentada que não sejam smartphones para implementações futuras.

No final das contas, a chegada da RA é iminente e será preparada para as empresas com hardware especial incorporado em dispositivos convencionais (tornando-o compatível com as políticas BYOD). 

E a corrida para desenvolver componentes de smartphones irá acelerar a próxima geração de óculos inteligentes.

Em resumo, a realidade aumentada transformará os smartphones e esses irão transformar a própria tecnologia.

E o mais importante: tudo isso vai acontecer mais rápido do que o esperado.