Opinião: A morte de Andy Grove e a sobrevivência do Silicon Valley

Patrick Thibodeau, Computerworld (EUA)
22/03/2016 - 12h37
Há alguns anos, o primeiro CEO da Intel fez um alerta para a América, que permanece válido, assim como o seu legado para a indústria da computação

O Silicon Valley (Vale do Silício) não é chamado assim à toa. Andy Grove, ex-CEO da Intel, que morreu nesta segunda-feira, é tido como o grande responsável por ter transformado a fabricante de semicondutores em uma das empresas mais importantes empresas do mundo.

A Intel foi fundada em 1968 por Robert Noyce e Gordon Moore (autor da famosa Lei de Moore), mas Grove estava lá desde o início, um período incrível para a indústria de computação.

No mesmo ano no qual a Intel foi criada, o famoso cientista da computação, Douglas Engelbart, inventor do mouse, fez a famosa exposição sobre o potencial dos computadores. Em uma conferência em San Francisco, Engelbart encantou a audiência com uma demonstração que previa o uso da videoconferência, do mouse (apresentado sob o nome oficial "X-E Position Indicator for a Display System", ou Indicador de Posição de X-E para um Dispositivo de Tela), da interface com janelas, do processamento de texto e outras tecnologias. Não por acaso, ela é considerada a "Mãe de Todas as Demos". Cristalizou possibilidades.

Três anos após a fundação da Intel e esta demo, portanto em 1971, o nome "Silicon Valley" surgiu. Na ocasião, já existiam muits empresas de semicondutores na área, e algumas empresas de computação. Um ano depois começaram a surgir também as primeiras empresas de capital de risco na Sand Hill Road.

Em 1979, Grove, um engenheiro com um Ph.D pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, tornou-se presidente da Intel. Em 1987, seu CEO, recebendo então a maior parte do crédito pelo sucesso dos negócios da empresa.

O período de Grove no comando da Intel coincidiu com o boom dos computadores pessoais, o que multiplicou exponencialmente os ganhos da empresa. Grove é considerado no setor como um dos pioneiros da expansão dos computadores pessoais, ao lado de figuras como Bill Gates (Microsoft) e Steve Jobs (Apple).

"#RIP Andy Grove", tweetou o capitalista de risco e inventor do Netscape, Marc Andreessen, logo após a notícia da morte de Grove ter sido anunciada pela Intel. "O melhor gestor de empresa que o Vale do Silício já viu, e provavelmente jamais verá", escreveu ele.

O tweet de Andreessen é, ao mesmo tempo, um elogio para Grove e um epitáfio para o Vale do Silício. Suas questões subjacentes são estas: existe alguém hoje no Vale do Silício, que pode construir uma empresa com o tamanho e a escala de uma Intel? Será que é mesmo possível fazê-lo?

O próprio Grove temia que o Silicon Valley fosse perdendo a sua capacidade de escala - capaz de transformar algo pequeno, uma startup, em algo muito grande.

Sob a gestão de Grove a Intel ajudou a criar um ambiente hiper-competitivo no Silicon Valley. Um mundo onde "Somente os paranoicos sobrevivem", como ele fez questão de colocar no título de seu famoso livro.

A competição é o combustível do crescimento. Hoje, os EUA continua líder mundial em semicondutores, mas apenas com 51% do mercado mundial (dado de 2014). Nove das 20 maiores empresas de semicondutores são americanas, de acordo com relatórios do Departamento de Comércio dos EUA. A indústria emprega 250 mil trabalhadores diretos.

Em 2010, Grove já se mostrava muito preocupado com o futuro do motor de inovação tecnológica da América. Não apenas a capacidade da Ásia para produzir coisas a um custo menor o preocupava, mas se os EUA poderiam ter sucesso sem fabricação.

"O problema subjacente não é simplesmente reduzir os custos asiáticos", escreveu Grove, em um ensaio para Bloomberg Negócios, publicado em 2010. "É a nossa própria fé mal colocada no poder das startups em criar postos de trabalho dos EUA."

Hoje, algumas das empresas de tecnologia mais valorizadas, geram relativamente poucos empregos. Em 2015, segundo a Forbes, a Snapchat foi avaliada em 15 bilhões de dólares. Ela tem apenas 330 funcionários.

"Que tipo de sociedade estamos criando, baseada em pessoas altamente remunerados que fazem o trabalho de alto valor agregado e massas de desempregados?"

Grove viu a máquina de empregos quebrar toda a economia. Ele estava escrevendo durante a Grande Recessão. Embora os empregos tenham voltado a aumentar, desde então, em algumas das profissões importantes para fabricação, a previsão de Grove segue sendo preocupante.

O U.S. Bureau of Labor Statistics (BLS), em uma recente atualização de sua estimativa ocupacional, estima em 0% as perspectivas de emprego para engenheiros elétricos e eletrônicos pelos próximos 10 anos. E o IEEE-EUA, maior associação profissional de engenharia dos EUA, diz que, provavelmente, essas estimativas do BLS estão corretas.

No texto, Grove reconhece que a Intel foi criada em um momento em que escalar uma empresa era algo mais fácil de realizar. A China não era um fator em 1968.

Mas, com a perda de produção, os EUA está quebrando a cadeia de experiência, disse ele, argumentando que sistemas de incentivos precisavam surgir. Algo como "um imposto adicional sobre o produto do trabalho offshored."

"Sem escala, não apenas perdemos apenas a capacidade de gerar empregos. Perdemos o nosso poder sobre as novas tecnologias", escreveu ele.

No fim de 2014, a Intel tinha 106,7 mil empregados em todo o mundo, cerca de 51% deles sediados nos EUA.

A China, por sua vez, tem um plano formal para a obtenção de uma posição dominante na indústria de semicondutores. Com o seu National Integrated Circuits Industry Development Plan pretende liderar o mundo "em todas as áreas da cadeia de abastecimento de circuitos integrados em 2030," observaram autoridades comerciais dos EUA recentemente.

Grove poderia estar errado sobre os riscos. Os mercados de robótica, carros autônomos e inteligência artificial - a tal Indústria 4.0 - podem impulsionar todos os tipos de novas empresas e indústrias.

O Vale do Silício pode estar mudando de uma economia baseada na fabricação de computadores, para algo mais poderoso.  Talvez uma nova geração de pessoas com as capacidades de Andy Grove para descobrir isso. Mas até aqui, sua advertência e legado permanecem.