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Pequenos e baratos, laptops ultraportáteis conquistam consumidor

Daniela Moreira, editora assistente do IDG Now!
30/05/2008 - 08h00
São Paulo - Laptops ultraportáteis extrapolam proposta educacional e criam nova categoria de mercado. Saiba se eles se adequam ao seu perfil.

revolucao_portateis_88.jpgDesde a sua introdução, em 2005, o laptop educacional XO da organização One Laptop Per Child (OLPC), atraiu a atenção da imprensa e de milhões de pessoas em todo o mundo. O chamariz do projeto, no entanto, nunca foi a sua proposta didática - que consistia em entregar um laptop para cada criança em idade escolar nos países em desenvolvimento -, mas sim o preço prometido para os equipamentos: 100 dólares.

De carona na popularidade do projeto da OLPC, outros protótipos de notebooks educacionais de baixo custo voltados à educação apareceram no mercado, como o Classmate PC, da Intel, e o Mobilis, da indiana Encore.

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Três anos depois, a visão de Nicholas Negroponte - um dos criadores do Media Lab, o laboratório de multimídia do gabaritado Massachusetts Institute of Technology (MIT) e fundador da OLPC - ainda não se concretizou. Apesar de ter ficado conhecido como laptop de 100 dólares, o XO atualmente custa 188 dólares.

A proposta de uso de laptops nas escolas tampouco decolou. A produção em massa do XO só começou no final do ano passado, e a única encomenda de grande porte do laptop educacional de que se tem notícia foi feita pelo Uruguai, que comprou 100 mil unidades do equipamento. Os demais países interessados - incluindo o Brasil - ainda avaliam o projeto.

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Entretanto, a idéia de um laptop pequeno, leve, econômico e eficaz para as tarefas básicas da computação - como navegar na web, receber e enviar e-mails e trabalhar com textos e planilhas - e, além de tudo, barato ganhou força e ultrapassou as fronteiras do universo educacional, invadindo as prateleiras do varejo tradicional.

Os ultraportáteis têm configurações mais básicas que as tradicionais - telas que normalmente vão de 7 polegadas até 10 polegadas, memória flash de 1GB a 4GB (o que torna os aparelhos mais leves e mais resistentes a quedas), processadores e memória mais simples -, mas rompem com um paradigma do mercado de notebooks: o de que quanto menor é o aparelho, maior é o preço.

Segundo os especialistas, os ultraportáteis apelam a públicos diversos, desde usuários do seu primeiro PC - influenciados pelo fator preço - até interessados no seu segundo ou terceiro computador. “Atende desde o pai que vai comprar um computador só para o filho, até o executivo que vai viajar e quer um equipamento leve, para as necessidades básicas”, explica Hélio Rotenberg, presidente da Positivo Informática.

Fábio Tagnin, gerente de desenvolvimento de plataformas da Intel, conta que a empresa trabalhou com parceiros em mais de 30 países para fabricar os equipamentos usados nos pilotos educacionais com o Classmate.

“Essas empresas nos trouxeram a demanda pela venda do Classmate no varejo”, relata ele. “A razão é simples: ele tem metade do tamanho, metade do peso e duração de bateria igual ou maior”, justifica.

Pioneira no filão, a Asustek - com o apoio da Intel - foi a primeira fabricante a apostar no laptop ultraportátil de baixo custo como uma alternativa comercial. O seu Eee PC, lançado em 2007, já nasceu voltado ao varejo, custando chamativos 199 dólares, com sistema operacional Linux.

O entusiasmo gerado pela primeira versão motivou o lançamento de uma nova versão rodando Windows, no início deste ano. A empresa já vendeu 700 mil unidades do Eee PC no primeiro trimestre do ano e estima vendas de 5 milhões de unidades do ultraportátil neste ano.

Concomitantemente, outras iniciativas revelaram o potencial do segmento. A própria OLPC, apesar do foco educacional, realizou uma iniciativa no final do ano para incentivar a adoção do XO que permitia que consumidores na América do Norte comprassem o laptop por 400 dólares, doando outra unidade a um país emergente. Em janeiro deste ano, mais de 50 mil unidades haviam sido vendidas, segundo a ONG.

A Intel também entrou com força total no mercado. O primeiro passo foi liberar o Classmate PC para a venda no varejo, no início deste ano. Mas a fabricante não parou por aí e lançou um chip especialmente voltado aos ultraportáteis de baixo custo, o Diamondville, da plataforma Atom, voltado a ultraportáteis na faixa de preço de 200 reais.

O novo chip não estará disponível oficialmente até junho, mas a Intel afirmou que foi surpreendida por uma grande demanda por ele e deve aumentar a produção para atender os fabricantes. Segundo a empresa, já existem mais de 25 ultraportáteis de baixo custo em desenvolvimento com o Atom. Os produtos devem ser anunciados em junho e chegarão ao mercado nos terceiro ou quarto trimestre.

Outro nome de peso a embarcar no mercado foi a Microsoft, que no primeiro trimestre deste ano anunciou um programa para incentivar o uso do Windows XP - que não será mais vendido a partir de 30 de junho - nos ultraportáteis. Documentos internos revelam que a empresa estima vendas de vendas de 10 milhões a 13 milhões de aparelhos na categoria neste ano.

Segundo análise do Gartner, a Asustek vai enfrentar fortes competidores neste mercado, inclusive de grandes fornecedores, como a Acer. Michael Dell já foi flagrado por um blogueiro com o protótipo de ultraportátil da empresa, apontando que o caminho deve ser trilhado por outros gigantes da indústria.

Mas a aposta na plataforma não é unânime. O CEO da AMD, Hector Ruiz, disse em recente visita ao Brasil que os consumidores vão se decepcionar com as limitações dos ultraportáteis.

Embora a Intel seja uma grande apoiadora da tendência, Tagnin acredita que a diferença entre o patamar de preços divulgado na imprensa e os valores reais pode frustrar o consumidor. “Foi vendida a idéia de um laptop de 100 dólares, mas com todos os custos de impostos, manutenção, suporte, garantia e distribuição, estamos falando em equipamentos de 350 a 400 dólares”, comenta o executivo.

Apesar desta ressalva, Tagnin aposta que a plataforma ultraportátil veio para ficar e deve evoluir, com telas melhores, substituição das memórias flash - que limitam o espaço de armazenamento - por discos rígidos e que os preços devem cair.

No Brasil, o recém-lançado Positivo Mobo - versão comercial do Classmate PC - custa 1 mil reais. Já o novo Eee PC tem preço oficial de 1.590 reais, mas o aparelho pode ser encontrado em sites de leilão, como o MercadoLivre, por 900 a 1 mil reais.

O portfólio de ultraportáteis disponíveis no país deve ser reforçado em breve com uma nova versão do Mobilis, fabricado pela Encore Brasil. O aparelho deve ganhar duas novas versões - com 1GB a 4GB de armazenamento em flash, memória RAM de 513 MB e tela de 7 ou 8,3 polegadas, segundo o presidente da empresa, Jakson Sosa. Uma das novidades será a tela touchscreen.

O preço do modelo ainda não está definido, mas deve ficar abaixo do valor da versão antiga, que era de 600 reais. A companhia pretende fabricar 100 mil unidades do produto neste ano. A data de lançamento ainda não foi estabelecida.

Mas se os ultraportáteis estão invadindo as prateleiras do varejo nacional, as escolas ainda aguardam uma decisão do governo sobre o uso didático da plataforma. O pregão realizado no ano passado para a compra de 150 mil laptops educacionais - vencido pela Positivo, com o Classmate PC - foi adiado, com a expectativa de que um novo leilão pudesse garantir preços menores.

Segundo José Luiz Aquino, assessor da Presidência da República, um novo edital com possíveis alterações para diminuir os preços - como mudanças nas exigências de distribuição, suporte e garantia - pode ser publicado ainda neste semestre. Para isso, o governo aguarda resultados de uma avaliação dos notebooks que estão sendo testados em diferentes escolas - Classmate PC, XO e Mobilis - pela Faculdade Getúlio Vargas.

“Esperamos que a oferta de laptops de alta qualidade, conectados, para todas as crianças e suas famílias seja implementada no Brasil o quanto antes”, diz David Cavallo, responsável pela região de América Latina na OLPC. “Nossa preocupação é que os pilares do governo para criar uma revolução na educação sejam ofuscados por interesses privados”, ele conclui.