Brasil tem problema de estrutura e legislação para enfrentar lixo eletrônico

Daniela Moreira, repórter do IDG Now!
26 de abril - 07h00 - Atualizada em 15 de março - 14h28
São Paulo - As poucas iniciativas existentes não são divulgadas de forma adequada. Confira história de quem está tentando mudar esse cenário.

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Os caminhos percorridos pelo lixo eletrônico no Brasil são muito pouco conhecidos. Se de um lado os eletrônicos por aqui têm uma vida mais longa, uma vez que o poder de compra é mais limitado e não é difícil encontrar interessados em receber os equipamentos mais velhos, de outro pouco se sabe sobre o que acontece com um aparelho quando ele realmente não tem mais utilidade.

A exemplo do que ocorre em países desenvolvidos, os ciclos de substituição de produtos estão cada vez mais acelerados. O tempo médio para troca dos celulares - que já são mais de 102 milhões em uso no País - é de menos de dois anos. Os computadores, cujo base instalada é estimada em 33 milhões, são substituídos a cada 4 anos nas empresas e a cada 5 anos pelos usuários domésticos, de acordo com estimativa da consultoria IT Data. 

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No ano passado, foram vendidos mais de 7 milhões de computadores no mercado brasileiro e neste ano serão vendidos outros 8,5 milhões, segundo dados da IDC. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nove em cada dez lares brasileiros têm pelo menos uma TV. Ainda assim, só em 2006 foram vendidos 10,85 milhões de novos televisores no País.

Apesar do ritmo de crescimento da venda de eletrônicos, contudo, não há uma legislação nacional que estabeleça o destino correto para a sucata digital ou que responsabilize os fabricantes pelo seu descarte. A única regulamentação vigente que trata do lixo eletrônico é a resolução de número 257, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelece limites para o uso de substâncias tóxicas em pilhas e baterias e imputa aos fabricantes a responsabilidade de ter sistemas para coleta destes materiais e encaminhá-los para reciclagem.

Atendendo a essa exigência, os principais fabricantes de celulares no País colocam à disposição sua rede de assistência técnica para recolher as baterias usadas. As lojas próprias das operadoras de telefonia celular também recolhem as baterias usadas, encaminhando-as para os fabricantes. Alguns dos fabricantes de computadores - como a Dell e a HP - também têm programas de coleta de equipamentos.
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Essas iniciativas, no entanto, não são de conhecimento da ampla maioria das pessoas. “Toda vez que somos citados em alguma reportagem, é impressionante o volume de ligações que recebemos de cidadão comuns que têm pilhas e baterias guardadas nas suas gavetas e não sabem o que fazer com elas”, conta Fátima Santos, gerente técnica e comercial da Suzaquim, empresa nacional que processa resíduos químicos.

Este é o dilema de Daniel Tessari, gerente de uma assistência técnica no município de Veranópolis, na serra gaúcha. Com dez monitores e cerca de 50 placas de computador sem condições de uso para descartar, ele teve que fazer uma extensa busca na internet para encontrar uma empresa especializada que aceitasse receber sua sucata eletrônica.

“Encontrei algumas empresas na internet, mas dava para ver pelo próprio site que não eram idôneas”, conta Tessari. “Depois de muito procurar, finalmente encontrei uma, em São Paulo, que concordou em avaliar meu material”.

Mas não é preciso estar distante das capitais para enfrentar este tipo de dificuldade. Até mesmo em um dos mais movimentados centros de eletrônicos de São Paulo, a Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, onde são negociados produtos usados, é difícil encontrar interessados em comprar ou até mesmo receber sucatas eletrônicas. “Compramos apenas em leilões de empresas que fecham ou trocam as máquinas”, conta o proprietário de uma loja que pediu para não ser identificado.

Para Valter Capello Jr., secretário geral da Associação Brasileira de Empresas Públicas e Resíduos Especiais (Abrelpe), o destino final de muitos eletrônicos quando perdem a utilidade acaba sendo o lixo convencional. “Normalmente quando ainda estão em condições de uso, esses aparelhos são doados. Mas como não há programas de incentivo à devolução ou mesmo locais corretos para o descarte, o mais comum é que quando sua função se esgota, eles acabem no lixo comum”, afirma.
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Se descartar um único computador sem utilidade pode ser um problema para uma pessoa comum, a dor de cabeça é ainda maior quando olhamos para as empresas que geram quantidades muito mais significativas de lixo eletrônico - especialmente aquelas que atuam no ramo.

Alguns fabricantes, como Nokia e Motorola, enviam os resíduos para empresas especializadas em reciclagem no exterior. Outras se voltam a fornecedores locais especializados no descarte de resíduos. Seja qual for o processo escolhido, há custos envolvidos, o que faz com que as empresas do ramo operem abaixo da sua capacidade no País.

Com 14 anos de operação, a Suzaquim, que transforma resíduos metálicos em matéria-prima para corantes para pisos cerâmicos, vidros e refratários, tem capacidade para processar até 250 toneladas de lixo eletrônico por mês. No entanto, consegue captar apenas 30 toneladas mensalmente.

“Se houvesse mecanismos de coleta adequados e políticas de educação ao consumidor, esse volume poderia ser muito maior”, opina Fátima, gerente técnica e comercial da empresa e especialista em engenharia ambiental. A companhia cobra, em média, 990 reais por tonelada de lixo eletrônico recebida. No caso de alguns metais específicos, que estejam em falta no mercado ou valorizados na bolsa internacional de metais, a Suzaquim pode pagar pelos componentes.  

Um exemplo da demanda dos usuários por locais adequados para descarte do lixo eletrônico é iniciativa da Drogaria São Paulo, que desde setembro de 2004 recolhe nas suas 185 lojas em São Paulo baterias e pilhas usadas, arcando com os custos para encaminhá-las à Suzaquim para reciclagem. O programa já coletou e reciclou 19,5 toneladas de material.
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Já a Sucata Digital, estreante no mercado de reciclagem, aposta em um modelo diferente de atuação: ao invés de cobrar pelo descarte, a empresa paga pelo lixo eletrônico das fabricantes de eletroeletrônicos localizadas na Zona Franca de Manaus. A empresa oferece 1 real por quilo de lixo eletrônico e recebe materiais não só dos produtores de eletrônicos, mas também de empresas locais de outros ramos, de varejos e até de residências.

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Com três meses de atuação, a companhia planeja recolher ainda neste ano 500 toneladas de sucata digital. Os funcionários - que hoje são 15, mas devem chegar a 70 até o final de 2007 - farão a separação dos materiais, encaminhando resíduos como plástico e ferro para empresas especializadas neste tipo de reciclagem. Como parte do processo de triagem, a empresa também seleciona componentes reaproveitáveis e monta computadores para inclusão digital, vendendo PCs a 300 reais, com garantia de seis meses.

“Só em Manaus, há 490 indústrias de tecnologia de ponta. Hoje grande parte dos resíduos gerados por elas é encaminhada para incineração”, conta Fúlvio Stelli, gerente comercial da Sucata Digital. As placas eletrônicas recolhidas no processo são vendidas pela Sucata Digital a empresas no exterior especializadas em processar lixo eletrônico.
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Este é o mesmo destino da sucata digital recolhida pela TCG Recycling, multinacional que adquiriu a empresa nacional A7, em Jaguariúna, São Paulo, e processa o lixo eletrônico de grandes fabricantes terceirizados de computadores da região. A companhia também projeta coletar e enviar para fábricas na Bélgica e no Canadá um volume de 500 toneladas de lixo eletrônico, do qual serão retirados metais preciosos, como ouro e prata, entre outros.

“São poucas empresas no mundo que estão realmente preparadas para processar estes resíduos. O processo de separação é feito a temperaturas altíssimas e a emissão de gases resultante tem que ser controlada”, aponta Matt Chmielewski, gerente de operações da TCG no Brasil. “Mas sabemos que tem gente que faz esse processo de maneira artesanal. Muitas vezes o cliente olha apenas para o custo e acaba colocando materiais perigosos nas mãos de gente irresponsável”, conclui.