Esqueça o Windows: o foco da Microsoft agora está na nuvem

Preston Galla, Computerworld / EUA
09/05/2018 - 09h00
Os concorrentes não temem mais o Windows. Por isso, a empresa está se reconstruindo com foco em cloud, transformando o sistema em mais um serviço baseado na nuvem.

Dois eventos ocorridos no final de abril deixaram uma coisa muito clara sobre a Microsoft: a empresa agora está buscando uma estratégia focada em cloud, com o Windows passando para o banco do passageiro. E isso continuará pelo futuro até onde o olho consegue ver.

O primeiro evento aconteceu em 26 de abril, quando foi publicado o balanço financeiro do terceiro trimestre fiscal da Microsoft, encerrado em 31 de março. Um olhar mais profundo sobre os números mostra que a receita vinda dos serviços de nuvem tornou-se a força motriz da companhia, superando os rendimentos trazido pela sua ex-galinha dos ovos de ouro, o Windows.

Números exatos para comparar a receita total do Windows contra os rendimentos com cloud, já que a Microsoft não detalha as coisas dessa maneira. De qualquer forma, o balanço financeiro mostra o caminho que a empresa de Redmond está seguindo.

A Microsoft se divide em três segmentos principais: More Personal Computing, que engloba Windows, aparelhos, games e anúncios; Productivity and Business Processes, que inclui Office, LinkedIn e Dynamic; e Intelligent Cloud, composta por serviços de nuvem e servidores. A área de More Personal Computing registrou uma receita de 9,25 bilhões de dólares no período, enquanto que Productivity and Business alcançou 9,01 bilhões de dólares, e Intelligent Cloud um total de 7,9 bilhões de dólares.

O Windows fica no segmento More Personal Computing, que liderou a receita no trimestre, mas não deixe isso te enganar. Um olhar mais atento mostra a história verdadeira. Como dito acima, não há um detalhamento sobre os números do Windows versus os serviços de cloud, mas a Microsoft disse que a receita com nuvem pública do Azure cresceu 93% na comparação ano a ano - no trimestre anterior, o aumento tinha sido de 98%. E a empresa disse também que o que chama de “cloud comercial”, composta por Azure, Office 365, Dynamics 365 e outros serviços na nuvem, trouxe um total de 6 bilhões de dólares no terceiro trimestre, um crescimento de 58% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Já o segmento de More Personal Computing registrou um crescimento bem menor – apenas 13% na comparação ano a ano.

Também vale destacar outra coisa sobre o terceiro trimestre fiscal: foi quando o diretor de Windows e Aparelhos, Terry Myerson, deixou a Microsoft. Certamente isso não aconteceu porque a empresa vai devotar mais atenção ao Windows.

É importante lembrar ainda que muitos dos produtos da Microsoft agora são essencialmente baseados na nuvem. Então há uma receita de cloud ainda maior na companhia do que vemos à primeira vista. O Office, por exemplo, é cada vez mais um serviço de cloud, com a companhia impulsionando de forma pesada o Office 365 em vez da versão cliente do pacote de produtividade.

Novo update

O segundo evento que merece destaque aconteceu quatro dias após a publicação do balanço financeiro. Em 30 de abril, a Microsoft lançou o mais recente update do Windows 10, chamado de April 2018 Update. Mas esse fato merece destaque, na verdade, por ser um “não evento”.

As atualizações do Windows costumavam ser grandes eventos, com muita divulgação, com a Microsoft gastando muito dinheiro e demonstrando muito amor pelos novos recursos do sistema operacional. Mas como esse último update deixou claro, esses dias ficaram para trás. A atualização em si ficou abaixo do esperado, com apenas um novo recurso que merece mais atenção. Ele é chamado de Timeline e te permite revisar os apps e arquivos que você usou ao longo do último mês e resumir atividades que tinha iniciado anteriormente. Mas a ferramenta ainda não está madura, já que só funciona com os aplicativos da Microsoft. Quando à divulgação, quase não houve nada, além de um post no blog da companhia, feito pelo VP corporativo do Windows and Devices Group, Yusuf Mehdi. 

Além disso, o Windows tornou-se um serviço de cloud. Ficou para trás a época dos grandes lançamentos que precisavam ser instalados a partir de uma mídia física. Agora quando você recebe o Windows 10 em um PC novo, ele se atualiza pela nuvem. Pense nisso como um Windows como serviço baseado na nuvem.

Microsoft e Linux?

Há ainda outras evidências que mostram que o Windows passou para segundo plano, atrás da cloud, nos planos da Microsoft. No meio de abril, a empresa anunciou a plataforma Azure Sphere para conectar dispositivos IoT (Internet das Coisas) com a nuvem.  

E essa plataforma não é baseada no Windows, mas no Sistema operacional open-source Linux. A Azure Sphere, de acordo com a Microsoft, está disponível gratuitamente para qualquer empresa que produza controladores IoT. E, a companhia de Redmond completou em um post, que a plataforma também está “aberta para inovação adicional de software pela comunidade open-source e aberta para trabalhar com qualquer nuvem. Resumindo: esse lançamento representa um novo passo crítico para a Microsoft ao integrar inovação em todos os aspectos da tecnologia e ao trabalhar com todas as partes do ecossistema de tecnologia, incluindo os nossos competidores”. 

Isso teria sido uma heresia nos dias cada vez mais distantes em que a Microsoft era comandada por Bill Gates – e até mesmo nos tempos mais recentes em que Steve Ballmer estava no comando. Com ambos os executivos, o Windows era a força principal usada contra os rivais. Mas isso ficou para trás. Os concorrentes não temem mais o Windows. Por isso, a Microsoft está reconstruindo a companhia com foco em cloud, transformando o Windows em apenas mais um serviço baseado na nuvem É a coisa certa a se fazer, não apenas para os consumidores, mas também para a empresa prosperar.