Como a mineração de Bitcoins criou uma 'corrida do ouro' por GPUs

Computerworld / EUA
02/04/2018 - 12h08
Busca de mineradores de criptomoedas por placas gráficas poderosas impulsionou as vendas e os preços dos produtos no segmento.

As vendas e os preços de GPUs (unidades de processamento gráfico) dispararam nos últimos anos porque os mineradores de Bitcoin passaram a usá-las para criar fazendas de servidores dedicadas a obter Bitcoin e outras criptomedas. 

Isso acontece porque é possível ganhar Bitcoin e outras moedas digitais ao resolver algoritmos matemáticos complexos conhecidos como “Proof-of-Work”, prática também chamada de crypto mining (mineração de criptomoedas). 

Para conseguir superar concorrentes em busca de moedas digitais, usuários e até mesmo grupos passaram a comprar placas gráficas top de linha para construir sistemas de mineração com o objetivo de gerar criptomoedas altamente valiosas.

Esses sistemas e até mesmo grandes data centers dedicados à mineração de criptomoedas também consomem cada vez mais energia. As redes dedicadas à mineração de Bitcoin já consumiriam mais energia do que toda a Bulgária.

Os mineradores de criptomoedas até começaram a montar sistemas em regiões onde o custo da energia elétrica é relativamente baixo, fazendo com que alguns países como a China - e até cidades dos EUA - restringissem a prática. 

O número e o tamanho de data centers agora processando transações em Bitcoin continua crescendo, apesar de, no momento, isso acontecer principalmente pela inércia e pelos longos ciclos exigidos para contratar, construir e implementar sistemas de mineração, segundo o líder de inovação global para Blockchain da Ernst & Young's (EY), Paul Brody. 

“Os volumes de transações caíram significativamente nos últimos dois meses – basicamente de volta ao nível que estavam há dois anos. Se essa tendência permanecer assim, então veremos uma desaceleração no desenvolvimento e provavelmente uma aposentadoria de sistemas antigos em breve, assim como uma diminuição na capacidade novamente”, afirma Brody.

Fornecedoras de tecnologia como a 3M agora estão anunciando novos sistemas de “resfriamento por imersão em líquido” para mineradores de criptomoedas para resolver problemas de superaquecimento nos seus sistemas de mineração.

Um problema, no entanto, é que a moeda digital mais popular do mundo – o Bitcoin – possui um número limitado de moedas. À medida que esse número diminui, o poder de processamento exigido para minerar a moeda aumenta. 

Os preços para algumas GPUs mais do que dobraram. Por exemplo, a GeForce GTX 1070, da Nvidia, antes vendida por 380 dólares, segundo a Polycon, agora pode chegar a custar mais de 700 dólares.

O site especializado em games GameSpot destaca que um six-pack de 6GB da GTX 1060 (Founder's Edition or EVGA) está sendo vendida por 3.780 dólares, enquanto que um pack da MSI Aero ITX OC GTX 1060 está sendo listada por 3.465 dólares. 

Uma GTX 1080 top de linha está com um preço em torno de 6.300 dólares (six pack), mas não é possível encontrá-la. E o six-pack da OEM RX 580 de 4GB, da AMD, está sendo comercializada por 3.600 dólares.

Alguns varejistas estão limitando o número de placas que os mineradores de criptomoedas podem comprar e estão mostrando um favoritismo em termos de preços para os seus clientes mais tradicionais do segmento de games. A MicroCenter, por exemplo, está oferecendo GPUs aos gamers pelos preços sugeridos pelas fabricantes. 

“Os preços das placas subiram significativamente nos últimos anos”, explica a analista da TrendForce, Melody Li. “Isso aconteceu por conta da oferta reduzida das placas gráficas à medida que os mineradores de criptomoedas compraram grandes volumes delas para processadores de alta velocidade.”

No início desta “corrida” por GPUs, as placas mais populares eram as fabricadas pela AMD. Mas, à medida que a oferta da AMD diminuiu e as placas passaram a ser mais difíceis de serem encontradas, os processadores da NVIDIA tornaram-se os mais populares entre os mineradores, de acordo com Li.

O crescente interesse pelo Bitcoin no último ano – e essa corrida para comprar GPUs – ainda pode afetar o mercado de placas gráficas por mais algum tempo. 

“Por conta do aumento significativo dos preços de Bitcoin no final do segundo semestre do ano passado, ainda pode levar mais alguns meses antes que a oferta de GPUs top de linha iguale a demanda e as limitações diminuam”, destaca Brody.

Vendas em alta

À medida que a mineração de criptomoedas aumentou, também cresceu a receita com vendas de GPUs usadas como placas adicionais em PCs. Nos últimos três anos, os rendimentos do segmento quase dobraram, subindo de 2,7 bilhões de dólares para 4,7 bilhões de dólares. Para GPUs usadas em data centers, a receita disparou no período, indo de 168 milhões de dólares para 1,1 bilhão de dólares, conforma aponta a Gartner.

No geral, a receita com as vendas de GPU subiu de 3,82 bilhões de dólares, em 2015, para 6,45 bilhões de dólares neste ano.

Informações recentes indicam que a Intel estaria explorando a criação de processadores especificamente para a mineração de criptomoedas. Em setembro, a fabricante registrou uma patente descrevendo um acelerador de mineração de Bitcoin que “pode incluir um núcleo de processamento”.

Uma reportagem da BBC chega a apontar que a mineração de criptomoedas estaria dificultando pesquisas científicas por conta de uma escassez de GPUs. “Temos o dinheiro, entramos em contato com as fabricantes, e elas disseram ‘Nós simplesmente não as temos’”, afirmou o cientista-chefe do Berkeley Seti Research Center, Dan Werthimer, em entrevista à rede britânica.

Recentemente, a fabricante Nvidia pediu aos varejistas do seu hardware para priorizarem vendas aos gamers em vez dos mineradores de criptomoedas.

No mês passado, o CEO da Nvidia, Jen-Hsun Huang, foi questionado por um analista, durante um evento para divulgar resultados financeiros, se esse novo processamento de criptomoedas era responsável por um aumento nas vendas e por uma “demanda acumulada” de GPUs 

“Uma maneira de pensar na demanda acumulada é que normalmente temos entre seis e oito semanas de inventário no canal. E penso que você descobriria que atualmente o canal está relativamente magro em termos globais”, afirmou Huang. “Estamos trabalhando bastante para fazer as GPUs chegarem às lojas para os gamers e estamos fazendo tudo o que podemos para aconselhar os varejistas e criadores de sistemas a servirem os gamers. Mas penso que o mais importante é que conseguimos alcançar o fornecimento.”

Um porta-voz da Nvidia afirmou que a companhia não irá comentar mais sobre o assunto do que o que foi dito pelo executivo durante a call de resultados em questão. Além disso, a Intel e a AMD não responderam aos pedidos por comentários sobre o assunto.