Artigo: o pior inimigo do Google costuma ser o próprio Google

JR Raphael, Computerworld/ EUA
02 de abril de 2018 - 14h32
Como a gigante de buscas pode sabotar possíveis grandes produtos ao simplesmente jogar fora ótimas ideias em vez de desenvolvê-las por mais tempo.

Era uma vez em que os smartwatches seriam a Próxima Grande Coisa (Next Big Thing) do mercado – o futuro da computação mobile que iria substituir os smartphones como os nossos gadgets para todo o momento e mudar a maneira como vivemos, trabalhamos e nos divertimos.

Pois é. Isso nem chegou perto de acontecer. 

Assim como a mais recente “revolução” dos chatbots, todo o hype em torno dos smartwatches não conseguiu se materializar em qualquer coisa significativa. Atualmente, os smartwatches são usados principalmente como rastreadores fitness e como uma ferramenta para checar e-mails rapidamente. Nem de perto, tornaram-se tão penetrantes como chegou a ser previsto pelos “profetas” do mercado. E, mesmo quando estão presentes no pulso de uma pessoa, eles tendem a ser qualquer coisa, menos transformativos.

Por isso, talvez não seja nenhuma surpresa o fato de o Google estar no meio de uma tentativa de trazer um novo início para a sua plataforma de wearables. A empresaanunciou recentemente a mudança de nome do Android Wear para o mais genérico Wear OS – uma iniciativa que, para todos os efeitos, parece mais voltada para comunicar sobre o suporte em diferentes plataformas do software do que qualquer outra coisa.

Mas os verdadeiros problemas do Google com o Wear são muito mais profundos do que o seu nome. A falta de foco e convicção da gigante com a plataforma acabou tirando o brilho e a promessa presentes na época do seu lançamento. E o Wear está longe de ser o único exemplo em que uma inabilidade de se comprometer e manter-se fiel aos seus princípios levaram o Google para um caminho equivocado.

Contexto sem convicção

No início, o Android Wear tinha uma arma secreta que nenhum outro smartwatch tinha conseguido alcançar: contexto.

Ao escrever sobre o Wear antes do seu lançamento, afirmei que o principal recurso que diferenciaria um smartwatch dos seus rivais para torná-lo um gadget realmente útil era o contexto inteligente – o tipo de inteligência preditiva que o Google era ótimo em fornecer. 

“(Seria) o Google Now – apenas otimizado para o seu pulso e mais útil do que nunca. Os cartões aparecendo com as informações que você precisa antes mesmo de você pedir por elas. Lembretes inteligentes baseados no local onde você está, no que você está fazendo, e para onde irá depois.

Aqueles de nós que usam o Android já estão familiarizados com o quanto o Google Now pode ser útil – mas em um smartphone, ele é inerentemente limitado em ser útil apenas quando você pega e olha para o aparelho. Em um relógio, essa barreira é essencialmente eliminada.” 

A implementação inicial do Android Wear certamente não era perfeita (e os hardwares iniciais tinham muito espaço para melhorias), mas o foco geral estava certo. 

No seu âmago, os smartwatches são mais úteis como sistemas ao permitir que o usuário alcance rapidamente informações pertinentes – seja uma notificação nova ou um aviso sobre tráfego intenso em uma região para onde ele pode estar indo. 

Como falei no meu review inicial sobre o Wear:

“O que torna a informação especial é o fato de ela aparecer quando você precisa dela – antes mesmo de você pensar em pedir por ela. E, apesar de esse mesmo tipo de informação estar disponível a partir de alguns toques na tela em um smartphone Android, ter essa informação no seu pulso realmente muda a maneira como você a experimenta.

Isso é porque o Wear coloca a informação contextual no centro de tudo – e consequentemente faz com que ela pareça uma extensão natural do seu corpo, em vez de uma interrupção fora do caminho. Adicione acesse rápido a cartões baseados em notificações como mensagens de texto e e-mails, e você tem um framework bastante interessante para uma plataforma de tecnologia wearable.”

Mas então o Apple Watch apareceu, com a sua interface muito complicada e uma natureza centrada em aplicativos (algo que a Apple refinaria com o tempo, mas que era quase risível de tão ruim no início). E o Google, em vez de se manter fiel à plataforma que fazia sentido, decidiu renovar o Wear completamente e repetir a abordagem problemática da Apple.

Com o update para o Wear 2.0 em 2017, o Android Wear perdeu o elemento principal que o tornava sensível como um sistema operacional wearable – o foco em informações fáceis de visualizar a partir das notificações e da inteligência preditiva – e, em vez disso, passou a focar em coisas que parecem impressionantes em anúncios, mas não trazem uma experiência realmente boa para o mundo real em uma tela minúscula no pulso: apps complicados, teclados apertados na tela, e notificações que não aparecem de maneira simples e exigem diversos toques e interações na tela para serem processadas. 

Assim como a Apple, o Google começou a abordar o smartwatch como se ele fosse um smartphone minúsculo no seu pulso. Mas a maneira como interagimos com um tipo de tecnologia não segue necessariamente para outro. O Google começou com o pé direito, mas então falhou em manter-se fiel a sua visão. Em vez de encontrar um modo de refinar o seu conceito e então anunciá-lo e fazer as pessoas entenderem por que ele fazia sentido, o Google desistiu e copiou cegamente a Apple.

E essa não foi a primeira nem a última vez que algo do tipo aconteceu.

Quando o Google entra no caminho do Google

Falamos sobre o potencial desperdiçado do Google Now com os smartwatches, mas o prório Now é um exemplo e tanto de como o Google pode ter algo incrível em mãos e então não consegue seguir em frente com isso.

Quando o Google Now apareceu pela primeira vez em aparelhos Android, em 2012, ele era anunciado como “o futuro preditivo das buscas”. Ele trazia todos os incontáveis pedacinhos que o Google sabe sonre as nossas vidas e o mundo de uma maneira realmente útil – uma maneira pela qual nenhuma outra empresa conseguiria fazer isso.

Agora? O Google Now foi apenas remarcado como “o feed” e é basicamente apenas outro stream de notícias pelo qual você pode navegar. 

E por que essa mudança? Pelo que parece, o Google desistiu da sua visão única para correr atrás de rivais como Facebook na corrida por atenção barata. Ao fazer isso, a empresa mais uma vez perdeu aquela faísca especial, como escrevi recentemente

“Há cinco anos, o Google Now parecia o futuro. Hoje, o feed do Google parece o passado – como um giro suavemente diferente em um conceito onipresente e um passo atrás em relação ao que o Google tinha alcançado quando colocou todo o poder dos seus recursos em destaque.”

Existem muitos outros exemplos do Google agindo como o seu pior inimigo e falhando em seguir com uma visão inicial louvável. Olhe para a bagunça interminável da companhia quando o assunto são soluções de mensagens, por exemplo, ou a implementação estranhas de atalhos de aplicativos no estilo da Apple no Android 7.1. No segundo caso, como afirmei na época, “em vez pensar com calma em qual seria a maneira mais sensível e amigável ao usuário para um recurso como esse funcionar, o Google pareceu apenas emular o modo como a Apple fazia isso”. Viu o padrão? 

Em um grau, uma companhia ser flexível e aberta para a evolução dos seus produtos – mesmo que essa suposta transformação gire em torno de “emprestar” inspiração de outras fontes – pode ser uma habilidade. Mas também há algo a ser dito sobre ter a coragem de apoiar o valor das suas próprias ideias e permanecer disposto a reconhecer quando você tem algo bom, mesmo que isso exija uma mistura de refinamento e divulgação para alcançar o seu potencial.

A não ser que o Google consiga dominar a arte do comprometimento e convicção, esse padrão deverá continuar – e a empresa de Mountain View continuará entrando no seu próprio caminho.