Por que o delivery autônomo chegou ao mercado antes do Uber autônomo?

Mike Elgan, Computerworld / EUA
07/02/2018 - 13h38
Enquanto vans autônomas já entregam produtos de forma comercial nos EUA, ainda estamos longe ter a mesma coisa acontecendo com carros autônomos e passageiros.

Pelo que parece, os carros e caminhões autônomos estão em todos os lugares. Especialmente no noticiário.

Na última semana, fomos inundados com relatos na mídia sobre progressos enormes no setor de veículos autônomos.

A imprensa noticiou que o Google – por meio da Waymo – encomendou “milhares” de minivans para construir uma frota de veículos autônomos que irão transportar os participantes do “early rider program”, da Waymo. A startup de carros autônomos da Alphabet, empresa mãe do Google, já está transportando passageiros em uma pequena região de Phoenix – e sem motoristas nos bancos. Os carros autônomos também estão transportando passageiros em Boston, Pittsburgh e diversos outros locais.

Até a Apple teria expandido a sua suposta frota experimental de 3 para 27 veículos.

Enquanto isso, a empresa canadense Suncor Energy afirmou que planeja eliminar cerca de 400 posições de operadores de equipamentos pesados nos próximos seis anos e introduzir uma frota de caminhões autônomos para petróleo e mineração. Os caminhões podem minerar por 24 horas por dia, exceto quando estão abastecendo. Com todas essas notícias sobre veículos autônomos em uma única semana, certamente estamos perto de ver carros autônomos logo ali na esquina, certo? 

Não tão rápido. 

O que vai atrasar os Ubers autônomos

Uma startup do Vale do Silício alega ser a primeira aplicação de direção autônoma do mundo real. Caso isso seja verdade, ela terá derrotado a Waymo, a Tesla, a Apple, toda a indústria automotiva e outras startups de tecnologia.

O nome da startup em questão é Udelv. Na última semana, ela entregou compras de mercado para dois clientes de uma loja local chamada Draeger’s Market. A van de entregas (veja foto acima) dirigiu sozinha da loja até as casas dos clientes, apesar de (como exigido pelas leis da Califórnia) um “motorista de segurança” ter ficado sentado no banco de motorista durante todo o trajeto.  

Conversei com o CEO da Udelv, Daniel Laury, e ele me disse que a entrega “foi um marco e tanto”. O serviço de entregas do mini-mercado Draeger’s Market será liberado on-line para o público na “próxima semana”, segundo o executivo. 

O “marco” a que Laury se refere é a comercialização do serviço.

Ele afirma que a Udelv é a primeira empresa a realmente usar veículos autônomos para um serviço que é pago por um cliente (neste caso, o mini-mercado citado acima). 

O modelo da Udelv mostra como as entregas autônomas poderiam funcionar em uma escala em massa.

Seus veículos proprietários e customizados são basicamente armários robóticos. Cada van conta com 18 gavetas que podem transportar um peso total de cerca de 317 kg. Quando o veículo se aproxima da casa do cliente, é enviado um alerta ao usuário por meio do aplicativo da empresa (atualmente disponível apenas no iOS, mas com uma versão para Android já a caminho). 

Assim que a van chega, os consumidores utilizam o aplicativo em questão para destrancar os compartimentos com as suas compras. 

A frota da Udelv é monitorada por controladores humanos, que podem assumir o controle em “situações únicas” e dirigir as vans remotamente caso seja necessário.  

A Udelv monetiza o sistema com um modelo simples. Ela cobra das empresas para realizar as entregas. A ideia da compania é diminuir os custos das entregas pela metade, afirma Laury. 

A startup também planeja expandir para além do Vale do Silício e busca estados dos EUA que sejam amigáveis a veículos autônomos para operar.

Outra companhia interessante que atua na mesma área de entrega autônoma ganhou um pouco de destaque na última semana. Uma startup secreta do Vale do Silício chamada Nuro revelou os seus veículos autônomos elétricos, e eles possuem um visual bem diferente (veja abaixo).

Os automóveis da Nuro possuem mais ou menos a extensão de uma SUV, mas são finos e leves. As vans da startup possuem cerca de 1 metro de largura e pesam aproximadamente 680kg – uma fração do peso de um carro normal.

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Veículos da Nuro são mais leves e finos do que carros normais

Os carros da Nuro podem transportar até 113kg em cargas, incluindo uma variedade de produtos, que vão desde compras de mercado até roupas da lavanderia e pacotes da Amazon. 

A empresa, que planeja iniciar suas operações ainda em 2018, atualmente está em conversas com diversas redes varejistas, segundo publicações na imprensa.

Por que o delivery superou os táxis

Uma das melhores formas de medir o progresso em direção a um futuro automotivo autônomo é o relatório anual de “desengajamento” do DMV (Departamento de Veículos Motorizados) da Califórnia - espécie de Detran local 

O estado americano permite testes com carros e caminhões autônomos, mas exige “motoristas de segurança” – basicamente um motorista humano que possa assumir a direção de forma rápida caso o sistema apresente alguma falha.

Esse “desengajamento” citado acima é quando um motorista humano assume o controle do carro. O relatório do DMV mostra avanços anuais na habilidade dos carros autônomos rodarem sem a necessidade de intervenção humana. Por exemplo, o documento revela que a Waymo agora possui uma média de um engajamento humano a cada 8900 km rodados – uma melhoria em relação a 2016.

No entanto, se os veículos da Waymo estivessem nas mesmas rotas de teste e carregando passageiros sem um motorista de segurança, haveria um acidente ou um problema a cada 8900 km – o que não é aceitável.

Em outras palavras, essa taxa de desengajamento nos diz que os carros autônomos são muito mais perigosos do que os carros dirigidos por pessoas no momento.

Vale notar que as situações em que a Waymo e outras empresas estão transportando passageiros sem motoristas contam com rotas limitadas a bairros menores e com padrões claros de ruas que foram fortemente mapeados e testados pela Waymo.

Enquanto isso, as vans autônomas de delivery já estão prontas para o horário nobre, e por causa de quatro razões:

1-As vans de delivery podem levar algum tempo extra para se adequar às situações nas ruas que possam vir a confundir seus sistemas de Inteligência Artificial. Por exemplo, elas podem dirigir lentamente, parar, levar um tempo para processar o cenário e até mesmo ligar para um controlador humano para ajuda, caso seja necessário. Os passageiros certamente não iriam tolerar esse tipo de interrupção e lentidão. 

2-Os veículos de entrega não colocam passageiros em risco porque não há passageiros. Eles também reduzem os riscos para as pessoas ao redor – o que inclui pedestres, ciclistas e outros motoristas. Isso porque as vans de delivery podem ser menores, mais lentas e mais leves. Os carros da Nuro, por exemplo, pesam apenas uma fração do peso de um carro padrão, e são muito mais finos/estreitos. Esses fatos reduzem tanto a probabilidade de um acidente, quanto o impacto de um possível acidente. 

3-Essas vans de entrega podem operar nos melhores horários. Enquanto os veículos que transportam passageiros deverão ter uma demanda maior durante a hora do rush, os veículos de delivery podem escolher os melhores horários para fazer as entregas.

4-O fato é que estamos a pelo menos uma década de distância de ter carros totalmente autônomos com passageiros que possam ir a todos os lugares que os carros podem ir. Mas as vans de entrega já estão servindo os consumidores.

Isso deve servir como um despertar para as empresas que realizam entregas. A hora de investigar essa nova tecnologia é agora. As oportunidades para veículos de entrega pequenos e lentos são enormes e estão vindo com tudo.