Não acredite no mais novo hype de privacidade da Microsoft

Preston Gralla, Computerworld / EUA
01/02/2018 - 13h06
Apesar de todo o barulho, ferramenta Windows Diagnostic Viewer é confusa e não traz realmente nenhum controle sobre quais dados são coletados pela empresa

Imagem: Microsoft

No final de janeiro, a Microsoft iniciou uma campanha para garantir aos usuários que a empresa possui a privacidade deles em mente. Para provar o que chamou de “devoção contínua com a privacidade”, a companhia de Redmond anunciou uma nova ferramenta para o Windows, o Windows Diagnostic Viewer, que estará disponível de forma geral no próximo update do sistema. 

A ferramenta em questão, segundo Marisa Rogers, da divisão Windows Device Group, faz parte do compromisso da Microsoft em ser “totalmente transparente sobre os dados de diagnóstico coletados a partir dos seus dispositivos Windows, como eles são usados, e te fornecer um controle maior sobre esses dados”. 

Uma versão beta da novidade foi disponibilizada para os participantes do programa de preview Windows Insider. E a Microsoft inclusive recebeu muitos elogios pela nova ferramenta. Para a empresa, foi uma missão cumprida.

Mas foi tudo menos isso para os usuários. O Diagnostic Data Viewer é uma ferramenta que apenas um programador poderia amar – ou mesmo entender. Usuários comuns, e até mesmo alguns programadores, ficarão confusos com ela, e não ganharão nenhum conhecimento sobre quais dados a Microsoft coleta sobre eles.

Primeiro, um pouco de contexto. A Microsoft coleta dados de diagnósticos sobre como as pessoas usam o Windows e então usa essas informações para melhorar a maneira como o sistema funciona. Nada de errado aqui; é um bom jeito para a empresa fazer o Windows funcionar melhor para todos.

O problema para os defensores de privacidade e muitos usuários está na falta de controle e transparência do processo. Eles querem que as pessoas saibam exatamente quais dados estão sendo coletados e enviados para a Microsoft, e querem que os usuários possam controlar isso.

A Microsoft alega que é isso o que a nova ferramenta faz. Mas isso é não inteiramente verdade, por diversas razões. A primeira, como já mencionado, é que a ferramenta é extremamente difícil de ser compreendida. Por exemplo, você não pode pedir para ela te mostrar informações detalhadas e fáceis de entender sobre os dados enviados para a Microsoft sobre o seu hardware e a maneira como você o utiliza – a marca e o modelo dos aparelhos conectados com o seu PC, o uso do Windows e apps, a saúde do seu sistema operacional e mais.

Em vez disso, você navega ou busca por cabeçalhos incompreensíveis como “Census.Flighting” e “DxgKrnlTelemetryGPUAdapterInventoryV2”, sem nenhuma explicação sobre o que esses termos significam. E quando você visualiza os dados em algum cabeçalho, então se depara com uma listagem ainda mais incompreensível e longa, como esse pequeno trecho retirado do “Census.Hardware”:

 “cV: “zNWezO9CsEmjb5B,0”,

“cV: :y7iOzuVXL)mj+F9j,0”,

Cada listagem traz linhas e mais linhas nesse estilo, todas em um código para o qual os usuários não possuem uma chave.

Listagens desse tipo vão te ajudar a saber quais informações a Microsoft está coletando sobre o seu PC e o uso do Windows? A não ser que você tenha conhecimento sobre o que esses códigos significam e consiga decifrar o formato em que eles estão, então a resposta é não. 

E esse é apenas o começo. Porque mesmo que você consiga vir a entender os códigos para saber quais informações a Microsoft coleta sobre você para realizar diagnósticos, não há muito o que poderá fazer para impedir isso. Goste ou não, ela coleta as informações e você não pode impedir isso. Ok, há uma pequena abertura. 

Se você quiser controlar as informações de diagnóstico que a Microsoft coleta sobre o seu uso do Windows 10, vá em Settings > Privacy > Feedback & Diagnostics. No topo da tela, na configuração Diagnostic Data, você tem duas escolhas: Basic ou Full. Quando você escolhe Basic, são enviadas apenas “as informações necessárias para manter o Windows atualizado e seguro”, segundo a descrição da Microsoft. Caso você escolha Full, serão enviadas muito mais informações, incluindo “dados de diagnóstico adicionais (incluindo uso do navegador, apps e recursos, e dados de digitação e impressão)”. Mas não há como impedir que os chamados “dados básicos” sejam enviados, apenas escolher entre as duas opções. 

A pequena abertura mencionada acima? Se você usa a Enterprise Edition do Windows 10, então pode impedir o envio de todos os dados para a Microsoft. Mas todas as outras versões do sistema não possuem a mesma sorte. 

A Microsoft deveria mudar isso. A empresa deveria lançar uma ferramenta fácil de usar que mostre de maneira detalhada e simples exatamente quais informações de diagnóstico são coletadas dos usuários. As pessoas então deveriam poder escolher se querem ou não que os diferentes tipos de dados sejam compartilhados com a empresa. E todo mundo deveria poder fazer isso, não apenas quem possui uma versão específica do Windows 10.

A Microsoft já possui um modelo muito útil para fazer isso. O seu painel de privacidade baseado na web te permite visualizar e apagar seu histórico de buscas, navegação e localização, além das informações coletadas pela assistente Cortana. O painel é simples, conta com um design claro e leva apenas alguns minutos para usá-lo. Não há razão para a companhia não te dar o mesmo tipo de controle sobre as informações que o Windows coleta.

Se a Microsoft realmente quer ser vista como uma empresa que cuida da sua privacidade, é exatamente isso que ela deveria fazer. Ficamos aqui na torcida para que, quando a versão final do Windows Diagnostic Data Viewer for lançada, ela faça exatamente isso.