20 anos depois, o open-source não mudou o mundo como prometido

Matt Asay, InfoWorld / EUA
13 de janeiro de 2018 - 09h00
Em artigo, especialista discute o que foi alcançado pelo open source nas últimas duas décadas e o que podemos esperar pelos próximos anos.

O open source (código aberto) existe oficialmente há 20 anos. Alguém percebeu? 

Não, é sério. Para algo tão revolucionário quanto o open source, você pensaria que teria mudado a maneira como todos os softwares são desenvolvidos, vendidos e distribuídos. Infelizmente para quem estava planejando uma festa pela data, isso não aconteceu – uma mudança radical nos softwares. Para a maioria dos desenvolvedores, na maior parte do tempo, o software continua teimosamente proprietário. 

O que mudou em 20 anos é a narrativa sobre software. Agora estamos confortáveis com a ideia de que o software pode, ou pelo menos deveria, ser open source sem que isso signifique o fim do mundo. A abertura verdadeira desse código, no entanto, é algo para buscar nos próximos 20 anos.

Open source ganhou infraestrutura, mas não software

Em 1999, Eric Raymond argumentou que 95% do software é escrito para uso, não venda, e portanto poderia e deveria ser open source. Mas isso não aconteceu; quase todos esses códigos permanecem fechados hoje em dia.

Dez anos após o termo “open source” ser oficialmente cunhado pela Open Source Initiative, uma organização em que eu fazia parte da junta de diretores, pouca tinha mudado, como o CEO da Red Hat, Jim Whitehurst, destacou no evento Red Hat Summit 2008.

“A grande maioria dos softwares hoje em dia são escritos nas empresas e não para revenda. E a grande maioria deles, na verdade, nunca é usada. O desperdício no desenvolvimento em TI é extraordinário... Por fim, para o open source fornecer valor para todos os consumidores do mundo, precisamos que os nossos consumidores não sejam apenas usuários de produtos open source, mas verdadeiramente engajados no open source e em fazer parte na comunidade de desenvolvedores. 

Alguns órgãos viram mais progresso na área. Segundo um estudo de 2009 da European Commission Flossmetrics, 35% de todo o código (à venda ou não) era open source na época. Essa é uma estimativa muito generosa.

E, como o cofundador da Cloudera, Mike Olson, afirmou em 2013, o open source veio a dominar a infraestrutura corporativa. “Houve uma tendência incrível e irreversível na infraestrutura corporativa. Se você está operando um datacenter, você quase certamente está usando um sistema open source, uma base de dados open source ou um middleware open source, por exemplo. Nenhuma infraestrutura de software dominante em nível de plataforma surgiu nos últimos 10 anos em código fechado, com formato proprietário. 

Olson, é claro, tem razão: boa parte da inovação na infraestrutura corporativa é cada vez mais governada por uma licença open source. Apesar de ainda estarmos longe da saturação, a revolução do contêiner é impulsionada por Docker e Kubernetes, ambos open source. Big data? Hadoop, Kafka e outras tecnologias open source estão por baixo da tampa. E machine learning e IA (Inteligência Artificial) mais recente? São impulsionados por open source como TensorFlow, MXNet e mais. 

Então, nossas plataformas são cada vez mais open source mesmo se os nossos aplicativos ainda continuam teimosamente fechados e proprietários. Como pode ser simultaneamente verdade que muito do nosso futuro depende do código open source mesmo que a grande maioria dos códigos continuem fechados em licenciamentos proprietários? 

Se uma porcentagem cada vez maior dos melhores códigos é aberta, por que muitos outros não são abertos mais rapidamente? Como o especialista da ARM, John Mark Walker, me disse: “Todas as principais inovações acontecendo agora são com plataformas open source” e mesmo assim “ainda há muita gente...reinventando rodas”. 

Por que?

As empresas não colocam seu dinheiro onde a boca open source está

O CTO da Sourcepoint e diretor da Apache Foundation, Geir Magnussom, responde assim: “O impacto do open source tem sido gigante para coisas que são não diferenciadoras ou de infraestrutura. Mas naquele ‘95% de software’ (apontado por Eric Raymond) há muita porcaria desinteressante que é feita e/ou tem o objetivo de atender necessidades privadas/específicas.”

Em outras palavras, ainda há muito código que permanece fechado, e devíamos ser gratos que não precisamos ver, porque são coisas um tanto inúteis além da empresa onde foram escritos. Eles poderiam ser open source? Sim. E deveriam? Bem... 

Também é verdade que há um custo muito real associado com o código open source, como destacado pelo estrategista da Red Hat Dave Neary. Como “usuário único” desse tipo de código, ele argumenta, “os benefícios são baixos”. Continuando no assunto, o diretor da Apache Foundation, Jim Jagielski, afirma o seguinte: “As empresas dizem que querem abraçar o open source, mas empacam nos recursos e investimentos necessários para se fazer isso de forma adequada, então acabam falhando”. Isso então “causa um efeito cascata”, fazendo com eles “culpem o open source e não eles mesmos”.

Resumindo: a razão para a maioria dos softwares continuarem trancados dentro das quatro paredes de firewalls das empresas é que é algo muito custoso com retorno pequeno sobre o investimento para justificar o processo de torná-los open source. Pelo menos, essa é a percepção. É impossível derrubar uma percepção dessas sem andar pelo caminho do open source, o que as empresas não dispostas a fazer sem provas antecipadas. Vê o problema?

Esperança para os próximos 20 anos

O dilema do ovo e da galinha está começando a se resolver, graças aos esforços progressistas de Google, Facebook, Amazon e outras gigantes web que estão demonstrando o valor do open source. Apesar de ser improvável que uma State Farm ou Chevron participe da mesma maneira que uma Microsoft, estamos começando a ver empresas como Bloomberg e Capital One a se envolverem com open source de maneiras que nunca teriam considerado quando o termo ‘open source’ foin cunhado em 1997, muito menos em 2007. É um começo.

Também não vamos esquecer que, apesar de estarmos vendo mais empresas usarem open source nos últimos 20 anos, a maior vitória do open source neste período é como ele mudou a narrativa de como acontece a inovação no software. Estamos começando a acreditar, e com boas razões, que os melhores e mais inovadores softwares são open source.

Não todos os softwares, é claro. Como o diretor da Apache Foundation e cientista principal da Adobe, Bertrand Delacretaz, afirma: “O open source funciona melhor para software de infraestrutura”. É menos provável que o código aberto domine o segmento de software de aplicação, como ele nota, “uma vez que à medida que você sobe as camadas (da pilha de softwares), é mais difícil concordar nas coisas”. Também é verdade que a população de desenvolvedores com interesse e habilidade em um determinado pedaço de software vai encolher quanto mais alto você subir na pilha de software. 

Mas para esse software fundamental, a narrativa é agora que o open source impulsiona a inovação. Ao ponto de as empresas estarem “reinventando as rodas do software de infraestrutura”, para parafrasear Walker, quase certamente vamos ver isso parar nos próximos 20 anos, com os níveis cada vez maiores de participação nas comunidades open source.

É isso que o open source levou 20 anos para nos dar, e é um fantástico início para os próximos 20 anos.