Como escolher uma aceleradora para a sua startup

Cezar Taurion *
27/12/2017 - 08h49
Sim, não é apenas a aceleradora que seleciona startups. As startups devem também selecionar quais aceleradoras interessam

E aquele dia chegou. Sua startup evoluiu, de uma ideia para um negócio, mas ainda está incipiente. Você precisa de um empurrão e está em busca de uma aceleradora. O que você pretende? Ser acelerado via conexões com o mercado (capital relacional)? Ter acesso à investidores (capital financeiro)? Mentoria em negócios e tecnologias (capital intelectual)? Fortalecer seu networking com outras startups, profissionais e empresas? Grande parte disso é que você pode encontrar em uma aceleradora. Mas, será que todas realmente entregam o que prometem? Como escolher a aceleradora mais adequada?  E se você? Está pronto para entrar na fase de aceleração? Lembre-se que ela demanda engajamento total da startup.

A ideia básica de uma aceleradora é muito boa, mas existem aceleradoras e “aceleradoras”. De maneira geral as aceleradoras inspiram seus modelos de negócio na pioneira, a “Y Combinator”, criada em 2005, nos EUA.  São empresas que têm como objetivo apoiar e investir no desenvolvimento e rápido crescimento de startups, ajudando–as na obtenção dos recursos necessários para este fim. As verdadeiras aceleradoras podem realmente ajudá-lo a acelerar seu crescimento (daí o nome).  Portanto, escolher uma que seja adequada ao que você deseja é fundamental. Uma escolha errada pode fazer com que sua startup tropece e saia do mercado. Esta é uma das primeiras e decisivas decisões com as quais os fundadores de startups se defrontam.

O cardápio é variado. Segundo estudo do Centro de Estudos de Private Equity da Fundação Getulio Vargas (GVCepe), existem cerca de 40 aceleradoras em atividade no país. Juntas já aportaram mais de R$ 51 milhões em mais de 1,3 mil startups, o que dá uma média de cerca de 40 mil reais.

Vamos olhar alguns critérios para selecionar uma aceleradora. 

Por exemplo, não é suficiente analisar uma aceleradora pelo número de startups que passaram por ela (no jargão, “foram aceleradas por ela”). É preciso, sobretudo, analisar sua taxa de sucesso. Quantas das startups do portfólio realmente foram aceleradas, ou seja, conseguiram evoluir (tracionar) significativamente seu negócio ou atingir a pós-aceleração, uma outra rodada de funding?

E a localização, importa? Tem uma perto de sua casa, mas será que ela consegue criar densidade de capital intelectual que gere valor? Ou o conjunto das startups que residem lá é bem fraquinho?

É preciso entender também o modelo de negócio da aceleradora.  É importante analisar cuidadosamente se o percentual do equity solicitado pela aceleradora fará juz ao que ela vai oferecer em troca. Além de uma oferta variada de serviços, as aceleradoras investem um pequeno capital financeiro (chamado de survival money ou seed money), tornando-se sócias das startups até o desinvestimento, quando então a sua participação é vendida para investidores ou outras empresas.  De maneira geral elas alocam espaço de trabalho e oferecem mentoria e relacionamentos com o mercado, em troca de participação acionária, que gira em torno dos 5% a 8%. Este percentual varia bastante e não há uma regra definida. 

O tempo de residência é 3 a 6 meses, geralmente, embora seja possível encontrar ciclos de um mês a dois anos.  E a mentoria é o “core” do valor que deve ser proporcionado pelas aceleradoras. Esse é um ponto de atenção. No processo de escolha de aceleradoras, analise atentamente a equipe de mentores e o tempo de dedicação que eles poderão prover. Muitas são fracas exatamente nisso. Apesar da propaganda nos seus sites, essa parcela das aceleradoras, por não poder arcar com custos elevados de mentoria, acaba buscando apenas mentores voluntários, o que faz com que aglutinem uma maioria de mentores com pouca experiência e baixo nível de relacionamento com o mercado.  

Mentores voluntários podem ser muito bons e realmente esforçados em ajudar, mas por serem voluntários, e envolvidos em suas próprias atividades profissionais, não podem se engajar o tempo suficiente que sua startup realmente necessita para ser acelerada. O que estas aceleradoras então fazem? Concentram-se então em destacar parcerias com provedores de tecnologia para uso de sua nuvem ou ferramentas de IA, acesso gratuito ou baixo custo de salas de reuniões e outros benefícios tangíveis. Mas não se destacam no intangível e mais difícil, que é a mentoria de alto valor agregado.

Lembre-se que uma startup em fase de aceleração enfrenta muitos obstáculos e turbulências. Para superá-los é que a ajuda de mentores experientes é muito importante. Mas, como os obstáculos são muito variados, impossível um único mentor conseguir ajudar em tudo. Você vai precisar de alguns, com expertises diferentes. A aceleradora deve prover um pool de mentores experientes, de modo que as startups possam selecionar os que melhores se adequam às suas necessidades.  Os melhores mentores são aqueles que têm conhecimentos valiosos para o setor específico de atividade da startup e que podem criar uma relação de longo prazo com o empreendedor e o projeto. Os melhores mentores são os que estão convencidos em arriscar seu próprio dinheiro para investir na empresa. Ou seja, os melhores mentores são os que têm algo a perder ou a ganhar quando dão seus conselhos!

Esse é um tópico de muita importância na sua análise de aceleradoras. Escolha as que possam prover conexões relevantes aos seus objetivos. Por exemplo, se sua startup é uma B2B voltada ao setor financeiro, o ideal é ter mentores que possam abrir portas nesse mercado. Se você estiver no setor agronegócios, deve buscar aceleradoras com fortes conexões no ecossistema do setor.

Muitas aceleradoras propõem basicamente uma mentoria estilo “sala de aula” com palestras que pretendem ensinar o empreendedor a empreender. Mas, na minha opinião, essa fase deveria acontecer antes da aceleração. Agora você já é empreendedor e ouvir frases de efeito  não vai gerar nenhum valor. As palestras que podem agregar valor são aquelas relacionadas com assuntos específicos, como uma eventual mudança na legislação que impactará o negócio das startups.

Veja se a aceleradora cria e incentiva o relacionamento entre as startups atuais e as que já passaram por ela. Mas fuja de uma aceleradora que tenta controlar as interações, posicionando-se como o elo central. E analise o modelo de gestão da aceleradora. Seu corpo executivo é experiente na aceleração de startups e tem realmente condições de assumir a liderança que vai definir o destino de sua startup? Estão realmente engajados e acessíveis? A aceleradora tem um processo de aceleração bem definido e testado na prática?

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Veja também o ambiente físico, se é energético e propício à troca de informações e conexões, e, principalmente, fale com startups que já foram aceleradas, para obter seu feedback.  E não esqueça do Demo Day, evento no qual as  startups aceleradas têm a chance de se apresentar a um público de investidores em potencial. Confira se os investidores que apareceram nas anteriores (e os que virão ao seu Demo Day) têm o perfil adequado às suas demandas de investimento. Também conta ponto se o relacionamento da aceleradora com as startups não se encerra no Demo Day.

Enfim, pPense cuidadosamente em quais são suas necessidades e pesquise as aceleradoras que melhor atendem a elas. E lembre-se: não há nenhuma "melhor aceleradora do mundo". Cada uma tem seu valor. Além disso, as aceleradoras também são startups e como toda startup, sua taxa de sobrevivência não é alta.  O resultado financeiro delas é a valorização das startups aceleradas, pelas quais ela tem participação e essa realização se dá no longo prazo, de 4 a 7 anos. Assim, muitas aceleradoras ainda não mostraram o valor do investimento e, portanto, ainda não são negócios consolidados.

Lembre-se, a escolha errada ou certa definirá o futuro de sua startup. Além disso, entrar em uma aceleradora não é garantia de sucesso. Ela pode apenas acelerar o sucesso que ainda está embrionário. O sucesso depende de você e sua equipe. Boa sorte!

 

(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data