Opinião: Por que Amazon e Google não conseguem se entender?

Jared Newman, PC World / EUA
07 de dezembro de 2017 - 14h01
Cada vez mais atuando nas mesmas áreas, gigantes de tecnologia viram a briga esquentar nesta semana com a retirada do YouTube dos dispositivos Fire TV

Essa foi uma semana de guerra e paz para a Amazon.

Na terça-feira, 7/12, o Google informou a retirada do app do YouTube dos aparelhos de streaming Fire TV, da gigante de e-commerce, a partir de 1º de janeiro. A gigante de buscas também iniciou o bloqueio imediato do YouTube no aparelho inteligente Echo Show, também da Amazon – a segunda vez que isso aconteceu, aliás. A companhia de Mountain View disse que estava respondendo ao tratamento injusto da Amazon, que não vende os aparelhos do Google na sua loja e nem fornece suporte do Amazon Prime Video para o Chromecast. 

Na manhã seguinte, a Amazon cumpriu sua promessa de lançar um aplicativo do Prime Video para Apple TV. O novo app, anunciado originalmente em junho, durante a WWDC 2017, é um apoio completo à plataforma da Apple, com suporte para vídeos 4K HDR e recursos exclusivos do tvOS como busca via Siri e agregação de apps de TV. A Amazon lançou até mesmo um app do Prime Video para a terceira geração da Apple TV, descontinuada no ano passado.

Por que notícias tão boas para os usuários da Apple TV e notícias tão ruins para donos do Fire TV e do Chromecast? Não possuo nenhum conhecimento interno dessas discussões, mas tenho uma teoria: enquanto Apple e Amazon competem apenas em algumas áreas não tão importantes, Amazon e Google ameaçam cada vez mais os negócios principais uma da outra. A guerra entre as duas gigantes agora vai muito além do mercado de streaming de vídeo.

São apenas negócios

De maneira ostensiva, Google e Amazon possuem dois tipos de negócios diferentes. A primeira usa busca e outros serviços na web para vender anúncios, enquanto que a segunda conta com uma gigante loja on-line de produtos e serviços. Mas à medida que as empresas se aventuraram em novas áreas, começaram a bater cabeça de diferentes modos. Veja abaixo: 

- Os aparelhos Echo, da Amazon, são um ataque direto ao negócio principal do Google: as buscas. Cada vez que você pergunta para a Alexa sobre clima, resultados de esportes ou outras informações, é uma potencial busca ou impressão do AdWords perdida pelo Google.

- O Google está realizando um ataque conjunto contra o negócio de varejo da Amazon com o Google Express, que envia produtos de redes como Walmart, Target, Home Depot e outros nomes conhecidos nos EUA. Um produto comprado pelo Google Home é uma potencial venda perdida para a Amazon.

- Tanto o Google Assistente quanto a Alexa possuem laços profundos com os serviços de computação na nuvem das suas fabricantes. Desenvolvedores terceiros, por exemplo, podem receber créditos do Amazon Web Services por aumentar as habilidades da Alexa, ou créditos do Google Cloud por construir Ações no Google Assistente. Os desenvolvedores também podem comprar acesso às mesmas ferramentas de voz que são usadas por Google e Amazon no Assistente e na Alexa, respectivamente.

- Amazon e YouTube vem competindo no mercado de streaming em tempo real desde que a Amazon comprou o Twitch em 2014, teoricamente tirando a empresa das “garras” do Google. O YouTube agora conta com o seu próprio serviço de vídeo em tempo real focado em games, apesar de o Twitch ainda dominar em visualizações e dinheiro gasto. 

- E então temos as coisas óbvias: Chromecast e Android TV competem com o Fire TV, da Amazon. Os serviços de música e vídeo do Google concorrem com os serviços de música e vídeo da Amazon. As duas empresas mantém até mesmo versões concorrentes do Android, coma  Amazon usando o código aberto do Google nos tablets Fire, aparelhos Fire TV e alto-falante Echo Show.

Neste ponto, é fácil ver por que a Amazon não quer oferecer suporte aos produtos do Google e vice-versa: ambas estão usando hardware para se fortalecer enquanto atacam os negócios principais da rival. Sem algum tipo de trégua, em que as companhias concordem em tratar os serviços uma da outra de maneira igual e deixar os consumidores escolherem o que é melhor, Amazon e Google vão apenas enfraquecer elas próprias.

Apple: a alternativa benigna

Em comparação, a Apple não é uma ameaça tão grande para nenhuma delas. Enquanto Amazon e Google vendem hardware barato, que é monetizado por serviços, o negócio principal da Apple envolve vender hardware superior por um preço mais alto. E apesar de os serviços da Apple estarem crescendo, não possuem muito overlap com as ofertas principais de Google e Amazon.

No lado das buscas, qualquer pesquisa feita pela Siri é realizada pelo Google, que também é o buscador padrão dos iPhones e iPads. A Apple também não está tentando ser uma gigante do varejo on-line. Por isso, você poderia imaginar que um dia a Siri te permite fazer compras na Amazon ou Google Express. A Apple também ficou totalmente fora do negócio de computação na nuvem, permitindo que Google, Amazon e Microsoft ofereçam seus próprios serviços na nuvem para desenvolvedores.

E apesar de a Apple estar planejando entrar no segmento de conteúdo original em vídeo, esse não é um negócio de soma zero como streaming de videogames em tempo real, em que os criadores tendem a ficar com uma plataforma e levar seus espectadores para ela. Há espaço tanto para Amazon quanto para Apple crescerem, especialmente pelo fato do vídeo ser apenas uma parte do Amazon Prime.

Tudo isso significa que Amazon e Google podem investir de maneira segura no ecossistema da Apple, sem medo de estarem criando uma ameaça existencial. E dada a tendência dos usuários iOS de gastar muito dinheiro, oferecer suporte para as plataformas da Apple é um bom negócio.

O resultado é um paradoxo: apesar de algumas vezes presumirmos que Amazon e Google querem espalhar seus serviços o máximo possível, neste caso eles estão se trancando para fora. E, apesar da sua reputação para plataformas e jardins fechados, a Apple é a que está aberta para negócios.