Para presidente da SAP Industries, transformação digital exige risco e pensar diferente

Por Carla Matsu, para Computerword Brasil
26/09/2017 - 17h55
Em entrevista, Pat Bakey fala sobre os desafios da transformação digital, analisa o mercado brasileiro e destaca o agronegócio local: eles estão à frente do jogo

Empresas e corporações têm quebrado a cabeça para competir com nomes que há dez anos sequer estavam no radar da concorrência. Startups, com seus modelos de negócio enxutos, estão levando disrupção a todas as indústrias, desde a manufatura, passando pela medicina, do setor bancário a agricultura.

Nos próximos 10 anos, 40% das empresas que compõem a lista da Fortune 500 desaparecerão, apontou estudo da John M. Olin School of Business na Universidade de Washington. Outra boa parte se tornará irrelevante, alertam analistas. A saída para a sobrevivência em um mundo hipercompetitivo? Assumir uma versão digital de seus negócios. Mas nem tudo são flores, claro.

Pat Bakey, presidente global para a SAP Industries, pontua o pesadelo de muitos gestores, empresários e CEOs: "onde eles arrumam tempo, capital e liderança para os novos negócios que precisam criar?", questiona em entrevista à Computerworld Brasil. "É realmente difícil". Entretanto, diz ele, em tom de conselho - "é mais arriscado não fazer nada do que fazer algo".

Formado em Economia pela Universidade da Califórnia, Bakey assumiu a presiência da SAP Industries em 2015 e se encontra na multinacional alemã há 15 anos. Sua divisão abrange 25 indústrias, que incluem desde o setor de saúde, varejo a serviços financeiros. Com mais de 27 anos de experiência no setor de TI, o executivo acompanhou de perto o impacto de novas tecnologias dentro da própria SAP e no negócio de clientes. E reforça uma visão otimista quando pergunto sobre o futuro do trabalho, o impacto da tecnologia nas organizações e nos empregos: "Se nós direcionarmos a produtividade ao nível que a economia global precisa agora, nós não teremos pessoas suficientes para satisfazer a demanda de trabalho que há".

Bakey esteve recentemente no Brasil para a 21ª edição do SAP Forum Brasil e, em entrevista concedida exclusivamente à Computerworld Brasil, fala sobre os desafios da transformação digital, das respostas do mercado brasileiro, da ampla migração para cloud e indica que não é preciso temer a automação, mas que é preciso estar preparada para ela.

Computerworld Brasil - Uma pesquisa feita pela SAP identificou que 90% dos CEOs entrevistados reconhece que precisam fazer algo rumo à transformação digital. Ao mesmo tempo, apenas 5% dizem que contam com um plano concreto para tal. Na sua visão, qual é o grande desafio dos CEOs e das empresas em adotarem estratégias para a transformação digital?

Pat Bakey - A razão para termos apenas esses 5% não é porque os CEOs não sabem que precisam fazer isso, mas é realmente difícil para as empresas. O desafio aqui é que executivos precisam direcionar eficiência nos negócios que são hipercompetitivos. Então, onde eles arrumam tempo, capital e liderança para os novos negócios que eles precisam criar? E isso é, fundamentalmente, o desafio e é onde a SAP acredita que há uma boa abordagem, que aumentaria este número de 5% para 10%, 15%, 20%. A primeira questão é que precisamos desmistificar este tópico da inovação. Então, trabalhamos e discutimos isso com clientes. Pegue essa inovação e através da indústria entenda como ela pode ajudar a tornar mais eficiente o negócio de hoje. Como você consegue se conectar com o seu cliente, criar melhores conexões com ele, como pode traduzir a experiência do consumidor em um melhor serviço, em um melhor engajamento? E é aí que conseguimos realmente ajudá-los, e fazendo isso conseguimos liberar investimentos e tempo, de forma que eles possam começar a reimaginar onde os negócios deles podem chegar, quais podem ser as novas estratégias.

CW - Mas o senhor vê resistência das indústrias em adotar uma postura mais aberta em relação à digitalização de seus processos?

PB - Há indústrias que pensam estar protegidas da competição. Talvez sintam que estão isoladas e que podem controlar esse ritmo da mudança. Há um pouco de resistência, porque exige risco, exige repensar e pensar diferente. Mas vemos cada vez mais esses negócios e essas indústrias reconhecerem que a competição está em todos os lugares. É altamente competitivo e é mais arriscado não fazer nada do que fazer algo.

CW - E quais são as verticais mais preparadas para estas mudanças?

PB - Falamos de transformação como se fosse algo novo, mas não é. Nas indústrias que estão mais avançadas, há algumas dinâmicas acontecendo. Há a disponibilidade para entender a tecnologia e a cultura também é receptiva para a tecnologia. Isso é direcionado para o consumidor. No Brasil, vemos isso no setor de bancos, seguros e, certamente, no varejo. Mas também vemos no setor de agronegócio, que é uma convergência de muitas outras indústrias. Eles estão à frente do jogo e estão tentando descobrir qual será a próxima geração de seus negócios. Mas também vemos uma profunda mudança acontecendo nos últimos 12 meses. Antes, todas as indústrias estavam experimentando mudanças, algumas mais rápidas que outras, mas a maioria da adoção inicial das tecnologias e aplicações era focada nos sistemas de front-office, na experiência com o consumidor. E isso é muito bom, você consegue ver isso no varejo e no setor de seguros.

O que nós vemos agora é que para entregar uma completa e melhorada experiência para o consumidor, é que você tem que trazer toda a organização ao redor dele. E o que eu quero dizer com isso? Omni-channel não é só varejo, certo? São consumidores que estão indo direto para o varejo, são bancos e companhias de seguros, até mesmo companhias de óleo e gás, do setor químico, estão querendo se aproximar de seus consumidores. E elas percebem que, em omni-channel, quando o cliente diz que quer alguma coisa, há toda uma série de atividades no negócio que precisam acontecer em supply chain, manufatura, distribuição, parcerias que precisam ser orquestradas para entregar uma experiência com propósito. E isso irá exigir do middle office e dos sistemas de back up. E essa sempre foi a abordagem da SAP, como colocamos o consumidor no centro para ter uma experiência completa. 

CW - E como se encontra o Brasil nesta perspectiva da transformação digital?

PB - Eu diria que há uma crença geral que atingimos um período de estagnação e que haverá uma retomada. E, que nós, enquanto negócios, precisamos estar preparados para capitalizar isso. Então, penso que há uma lacuna em entender o que está acontecendo e, de fato, fazer algo. Acredito que há um chamado para a ação, mais do que comparado ao que eu vi há um ano. E o que eu vejo no Brasil é um grande crescimento em cloud, e o que isso sinaliza para mim é o desejo de fazer isso de forma rápida. E também há um reconhecimento de que você precisa fazer essas coisas simultaneamente. Então, enquanto nos tornamos mais eficientes e olhamos para os nossos sistemas e há um fluxo de trabalho mais longo, não é preciso parar de inovar. Ao mesmo tempo, como podemos implantar essa inovação na nuvem, e otimizar o meu cenário? Então há um maior entendimento de fazer múltiplas coisas, e isso porque há recursos, a experiência da SAP em como fazer isso, em como estabelecer a arquitetura certa, como engajar o cliente nas prioridades certas, e como entregar as experiências certas, é esse o tipo de expertise que estamos trazendo.

CW - Sobre o segmento de nuvem. Vocês têm demonstrado um crescimento trimestre a trimestre e já afirmaram que o modelo deve superar a receita sobre on premise em breve. Você vê isso se concretizando no próximo ano?

PB - Claramente há uma migração. Esta é a transformação que estamos passando. E se você olhar nossos posicionamentos, verá a SAP como uma empresa de cloud com a Hana, e para onde todos os nossos desenvolvimentos estão indo. Mas também mantemos relacionamentos de inovações com clientes que, por muitas razões, não conseguem chegar lá. Mas, a maioria das conversas que temos com eles é sobre como trabalhamos para levá-los para a nuvem de forma mais rápida.

CW - O Brasil ainda enfrenta um período de turbulência econômica. Apesar disso, o País tem proporcionado números crescentes para a SAP. Como vocês avaliam o mercado brasileiro do ponto de vista estratégico para a companhia?

PB - A primeira razão para estarmos aqui e nós estamos aqui desde 1995, é que a SAP pensa a longo prazo. E quando digo isso, nós estamos acostumados a uma volatilidade a curto prazo no nosso negócio. E é por isso que investimos na SAP Brasil, porque é um plano a longo prazo. Nós esperamos performance imediata por conta do nosso valor, e nós vemos no nosso portfólio o apetite, o desejo para entender quais são as melhores empresas no mundo que possam trazer mais. As condições econômicas têm desacelerado em transações em maior escala através de todas as indústrias, mas claramente se você olhar para os serviços financeiros, se você olhar para o varejo, o agronegócio, o setor de construção, há investimentos significativos acontecendo.

CW - Sobre o futuro do trabalho e das indústrias, há uma crescente preocupação acerca da automação e da eliminação dos postos de trabalho. Como analisa este tema?

PB - Eu estive no último SAP Sucess Connect, em Las Vegas, e em uma palestra falamos sobre o futuro do trabalho. As pessoas automaticamente veem as estatísticas da Mckinsey que dizem que em 60% das indústrias, de todos os tamanhos, cerca 30% da força de trabalho pode ser automatizada totalmente com a tecnologia de hoje. E esses 30% são, largamente, o trabalho intensivo. Então isso toca cerca de 50% da força de trabalho mundial, completamente automatizada. Então, o que vai acontecer, as pessoas se perguntam. Mas aprendemos com a história. Se você olha os Estados Unidos, um terço do trabalho que temos hoje em uma economia de 300 milhões de pessoas, não existia há 15 anos. Na França, onde se diz que a Internet eliminou 500 mil empregos, se você virar a página, você verá que a Internet criou também 1,5 milhão de empregos e se você olhar as últimas estatísticas, se nós direcionarmos a produtividade ao nível que a economia global precisa agora, nós não teremos pessoas suficientes para satisfazer a demanda de trabalho que há. Esse é o otimismo que nós temos, essa é a oportunidade. A realidade a curto prazo é bem real, há esse deslocamento, mas criar é mais animador e isso está acontecendo.

CW - Mas ao mesmo tempo há estudos que apontam que a automação irá aumentar as diferenças sociais, tendo em vista que pessoas mais pobres não terão as condições de estarem preparadas para um futuro que exigirá habilidades que acompanhem o desenvolvimento da tecnologia…

PB - Não necessariamente. Acredito que aqueles que tentarem replicar esse conjunto de habilidades do passado vão, com certeza, estar em desvantagem. Mas, principalmente, em países emergentes, que nunca estiveram conectados, agora eles têm 5G. Esses países que nunca tiveram acesso à saúde, serviços bancários, a tratamento médico, ou água potável, isso é o que a inovação digital irá entregar. E eles também estão desenvolvendo a força de trabalho do futuro. Patrocinamos o que chamamos de African Code Week e eu estive em Ruanda no ano passado. Ruanda não tem nenhum tipo de recurso natural a não ser as pessoas. Lá, fornecemos às crianças pequenos laptops, e esses estudantes que estão na segunda série, as primeiras experiências que têm não são as mesmas que os meus filhos tiveram nos Estados Unidos, eles não estão jogando videogames, eles estão programando. Eles estão aprendendo as habilidades digitais antes de muitas crianças. Então, essas são as dinâmicas que estão acontecendo agora, na construção de habilidades, na força de trabalho do futuro, no que os governos estão fazendo, o que empresas estão desenvolvendo. Há sim uma realidade, não é fácil, haverá disrupção para algumas pessoas com algumas habilidades, para algumas companhias, mas é por isso que nós trabalhamos com elas também, nós temos que mostrar a elas o que é possível. E a velocidade para fazer é agora.

Entrevista publicada originalmente no site Computerworld Brasil. Para ler o conteúdo na íntegra, acesse o site