Empresa usa tecnologia habilitada por som para facilitar embarque de passageiros

Patrick Thibodeau, Computerworld (EUA)
20/04/2017 - 12h42
Criação da empresa Chirp permite que passageiros em Delhi, na Índia, usem aplicativo habilitado por som para pagarem transporte

Máquinas se comunicando uma com as outras por voz parece uma coisa exclusiva da ficção científica, mas a tecnologia já está sendo usada por um serviço de ônibus, o Shuttl, que visa facilitar o embarque de passageiros na Índia.

Ao invés de digitalizar um código de barras ou usar tecnologia de aproximação Near Field Communications (NFC), um passageiro da Shuttl usa o seu smartphone para transmitir um som parecido com o do robô R2D2 para o telefone do motorista. Um app, então, envia um som melódico que completa a transação. E o método não precisa de uma conexão Wi-Fi ou mesmo da sua paciência.

A tecnologia está sendo aplicada por uma empresa do Reino Unido chamada Chirp, e o foco dela, por enquanto, é o mercado B2B.

A Gartner vê um futuro onde as comunicações serão máquina-para-máquina, incluindo aí robôs ou bots e que esses sistemas conectados falarão inglês.

"Uma comunicação em linguagem natural entre duas máquinas pode ser compreendida por um humano. Isso melhora tanto a segurança quanto a robustez da tecnologia", escreveu a empresa de análise de mercado em um relatório.

De forma geral, "as melhorias no processamento em linguagem natural permitiram o uso de tecnologias habilitadas por voz como uma interface de usuário confiável e frequentemente preferida pelos usuários finais", disse Emil Berthelsen, analista do Gartner. Isso inclui tanto as interações entre consumidores quanto a Internet das Coisas.

Mas neste contexto, os analistas não estão incluindo a abordagem da Chirp, que transmite dados usando som e isso permite que qualquer aplicativo, produto ou serviço com um microfone ou alto falante comece a se comunicar, disse James Nesfield, CTO da Chirp. Ele batiza a tecnologia como uma "barra de códigos sônica", mas que pode ser mais que isso.

A companhia consegue personalizar a interação, transmitindo de 50 a 100 bits de informação a cada segundo. A comunicação, seja ultrassônica ou audível, pode ir para frente e para trás. A transmissão típica é de cerca de dois segundos e pode ser customizada em qualquer comprimento. Ela pode ser transmitida sobre qualquer legado de equipamento sem redes, emparelhamento ou configuração, segundo o fornecedor.

A Chirp fornece ainda um SDK (Software Development Kit), onde desenvolvedores conseguem criptografar os dados que estão enviando.

Mas alguns analistas se perguntam o quão abrangente pode ser a adoção da tecnologia da Chirp.

"Ela irá substituir alguma coisa que já foi feita?", pergunta Jeff Orr, analisa na empresa ABI. Problemas com foco ou luz podem às vezes causar um atraso no reconhecimento do QR code, apesar de não ver o método da Chirp necessariamente substituindo leitores digitais. Mas uma aplicação de ponta a ponta seria outra história, diz. 

E é aí onde a Shuttl entra. Essa empresa de transportes baseada em Delhi, Índia, que faz cerca de 15 mil viagens por dia, usava um ingresso físico que tinha que ser comparado com a identidade de uma pessoa. Isso atrasou o serviço. A tecnologia de NFC não foi instalada em muitos dos dispositivos dos consumidores e acreditou-se que os QR codes eram muitos difíceis de serem lidos.

Deepanshu Malviya, cofundador da Shuttl, disse que os detalhes de embarque do passageiro são enviados para o smartphone do motorista do ônibus "através de sinais sonoros, que são ativados pressionando um botão no aplicativo. Este mecanismo permite a recuperação de dados de forma muito mais rápida do que os métodos tradicionais de digitalização de QR code ou digitando fisicamente o número de embarque do cartão", explicou em uma entrevista por e-mail.

Sistemas de transporte em todo o mundo são "ainda em grande parte intocados pelas últimas tecnologias", disse Malviya. "Esta é possivelmente a primeira adoção de tecnologia baseada em som em escala na Índia."

Entretanto, o mercado dos Estados Unidos pode apresentar problemas diferentes.

"Uma questão provavelmente maior é que a tecnologia óptica de QR Code já tenha sido implantada e a Chirp pode não ser o suficiente para deslocá-la", disse Rob Enderle, analista da Enderle Group. Por exemplo, "um dos problemas nos EUA com a substituição da tira magnética em cartões de crédito com tecnologia pin-and-chip é que, mesmo sendo muito inferior, a fita magnética já havia sido amplamente implantada", compara.