Entrevista: Inovação é sobre pessoas, diz Dov Moran, criador do Pen Drive

Por Carla Matsu
03/06/2015 - 11h50
No Brasil, fundador da M-Systems fala sobre o espírito empreendedor israelense que tem chamado a atenção de empresas como Google, Coca-Cola e Apple.

Foto: Eduardo Matano/Divulgação

 

Dov Moran é o tipo de pessoa que não dorme muito. Aos 59 anos, o fundador da M-Systems e investidor- anjo tem uma série de coisas para fazer antes de repousar os óculos de grau na mesa de cabeceira e, finalmente, fechar os olhos. Entre elas, acompanhar de perto as 15 startups que atualmente apoia.

Se sua insônia tem a razão de ser, o próprio Moran a “incentiva” como conselho para jovens empreendedores: “se vocês quiserem realizar seus sonhos, então não durmam muito”, brinca durante o High Tech Nation, evento promovido pelo escritório de advocacia Souza Cescon que trouxe para São Paulo e Rio de Janeiro, especialistas brasileiros e do Technion Israel Institute of Technology nos dias 2 e 3 de junho, para discutir inovação e empreendedorismo.

O israelense é visto como espécie de guru da tecnologia em seu país de origem. Ao fundar a M-Systems, responsável pela criação do primeiro USB Flash Drive, popularmente conhecido como Pen Drive, Moran revolucionou o conceito de mobilidade e tornou obsoletos os hoje nostálgicos disquetes e seus drivers. Em 2006, Moran vendeu a companhia por UUS$ 1.6 bilhões para a SanDisk. Desde então, o investidor serial tem buscado razões para adiar o sono.

Uma delas foi a invenção que defendeu, na época, como mais revolucionária que o próprio Pen Drive: o Modu Phone. O aparelho celular permitia sua customização de acordo com as necessidades de seu usuário, algo que soa bem familiar quando vemos o também customizável Project Ara, do Google. E não à toa. Moran fechou a companhia (aberta em 2007) e vendeu, em 2011, inúmeras das patentes de seu telefone para a gigante de buscas.

Atualmente, Moran é CEO de outra empresa que tem como objetivo acompanhar as mudanças de comportamento de um hábito antigo: o de assistir televisão. Com a Comigo, a companhia desenvolveu uma plataforma multi-telas para operadoras pagas de TV, que busca personalizar o conteúdo a partir das preferências do usuário, além de oferecer engajamento do conteúdo com redes sociais. Fora ela, Moran investe em outras jovens empresas, seis delas dedicadas a desenvolver tecnologias e dispositivos conectados para a área médica. 

Na entrevista a seguir, Dov Moran fala sobre o espírito empreendedor de seu país, da importância da cooperação entre universidade e indústria e fala com modéstia de um de seus principais inventos: "isso já ficou no passado, é uma inovação que vai desaparecer um dia e isso é OK. Nós temos que olhar para frente. Adiante".

IDG Now! Atualmente você apoia quinze empresas de tecnologia em Israel. O que você busca como potencial na hora de selecioná-las?

D. Moran - A coisa mais importante que eu busco nelas são as pessoas, o que as pessoas podem fazer e o que elas não conseguem fazer. E você consegue com o tempo distinguir entre essas duas coisas. E eu poderia falar sobre isso durante muito tempo, porque as pessoas são a coisa mais importante de uma companhia. Elas são a base fundadora de uma empresa.

Depois você se foca na ideia. Ela é boa ou má? Pequena ou grande? Vejo se ela poderá ter alcance, se tem potencial para revolucionar e se terá competição ou não. Coisas assim. O terceiro ponto é o tamanho do seu mercado e isso não diz respeito somente ao mercado a qual uma tecnologia se destina, mas como o mercado vai evoluir, se ele vai crescer, se ele vai se extinguir. Se é um mercado onde há muita competição que fará você se dirigir a diferentes direções. É uma questão de avaliar e reavaliar, olhar todas essas questões ate você decidir se irá investir ou não. Eu comecei investindo em 5 a 6 startups e deixei esses projetos, por que muitas vezes o mercado muda. Você perde dinheiro, você ganha. Mas se você se dedica ao capital de risco, você não pode esperar que todo investimento será bom. Você perde, ganha e, claro, espera que o retorno seja muito maior do que o seu investimento inicial.

IDG Now! - Muito do seu interesse em jovens empresas é direcionado a startups preocupadas em desenvolver devices na área médica. A partir delas, como você o futuro da medicina?

D. Moran - Tudo vai estar conectado no futuro. Todos nós estaremos conectados e vamos ter muitos sensores que vão gerar esses dados para a nuvem. Vamos ter que ter essa capacidade de analisar esse enorme volume de dados que vêm das pessoas. São com eles que vamos aprender mais sobre o comportamento delas, para depois conectarmos com o nosso DNA. E isso se tornará cada vez mais personalizado. A ideia é personalizar cada vez mais a medicina e o conhecimento sobre o que deve ser testado. Estamos só no começo disso.

IDG Now! - E por que dedicar-se exclusivamente à startups com base em Israel?

D. Moran - Minha política sobre investimento é que eu quero ver os fundadores e a criação deles desde a fase inicial. Poder acompanhá-los quase que diariamente. Eu quero ir ao campus, até um dos empreendedores e perguntar "Oi Joseph, como vocês está e aquele problema foi resolvido?". Você consegue ter essa relação com os fundadores e isso te dá o conhecimento necessário para continuar ou não investindo. E eu não conseguiria fazer isso em uma companhia que não se encontra em Israel.

IDG Now! E o senhor recebe muitos cientistas e empreendedores para dar conselhos.

D. Moran -  Sim. E às vezes é muito difícil, porque eu não consigo atender todos sempre. Eu caminho seis vezes na semana, eu trabalho 18 horas por dia, e é difícil dizer a uma pessoa 'eu entendo que você tem uma boa ideia, mas eu não vou conseguir investir'.

IDG Now! - Um dos desafios para gerar inovação é a tentativa de aproximar a academia da indústria. Um caminho que especialistas defendem como fundamental para aumentar nossos índices em inovação no Brasil. Como o senhor vê essa cooperação no seu país?

D. Moran - Em Israel, temos uma bom sistema de cooperação entre a academia e a indústria. Eu estou envolvido em projetos com universidades. Temos uma boa conexão com a Tel Aviv University, e invisto em projetos que estão em posse de professores, além de um comitê de investidores onde eu consigo ver o que várias de nossas universidades estão fazendo. Então você tem essa relação próxima.

IDG Now! - Israel tem sido vista como uma grande potência no mercado tecnológico. Muitas grandes companhias de tecnologia têm buscado Tel Aviv para direcionar seus negócios. O que startups e empreendedores de outros países, incluindo o Brasil, podem aprender com as empresas em Israel?

D. Moran - Você me coloca numa posição muito difícil, porque eu não sou o cara mais esperto que te pode dar essa resposta. Eu falo o melhor para tentar apoiar e e ajudar esses empreendedores. Eu vejo que os chineses, por exemplo, são incríveis. Toda semana nós recebemos cerca de cinco delegações da China, e eles vão a Israel porque querem principalmente entender como as coisas estão sendo feitas para, por ventura, copiarem. E copiar é OK. Copiar de forma inteligente, ajustar e depois melhorar. Eu adoraria ver mais delegações do Brasil em Israel. Acredito que seria uma boa oportunidade para investidores entenderem  sobre o que estamos fazendo, sobre nosso sistema de cooperação entre universidades e indústria.

Em Israel, toda grande companhia, não há uma que não esteja com seus olhos lá. E estamos falando de Google, Apple, Microsoft, Motorola. E parte disso porque elas estão indo para sentir o espírito dessa inovação. E eu acredito que o que realmente nos fez o que somos é por vivermos em país de muitos desafios.