Demanda por bikes e patinetes elétricos cresce em SP após viaduto na Marginal ceder

Por Déborah Oliveira e Carla Matsu
07/12/2018 - 12h10
Incidente "forçou" paulistanos a pensarem em outras alternativas para chegar de um ponto a outro. Startups de mobilidade aproveitam para conquistar novos usuários e ampliar serviço

Na esquina da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Rua Ministro Jesuíno Cardoso, em São Paulo, às 18h de uma quarta-feira, um caminhão descarrega as bicicletas compartilhadas do Itaú. Enquanto isso, uma fila de pessoas com seus smartphones em mãos aguardam ansiosamente para alugar uma delas, já que a estação está completamente vazia. Uma cena que se tornou comum desde o fechamento de dezenas de quilômetros da Marginal Pinheiros após o viaduto, localizado na altura do Parque Villa Lobos, ter cedido no dia 15 de novembro.

Depois do acontecimento, o trânsito, que já é caótico na cidade, piorou e muitas pessoas optaram pelo deslocamento via transporte público. O que chama a atenção, no entanto, é o salto no uso de bicicletas e patinetes. A mudança no perfil de transporte na região é evidente. Segundo informações da Prefeitura de São Paulo, somente a Zona Sul recebeu mil novas bicicletas em pontos de grande circulação na cidade como resultado de uma parceria entre a startup Yellow e a Bike Sampa, sistema de bicicletas compartilhadas patrocinado pelo Itaú Unibanco. As regiões de Pinheiros, Santo Amaro e Vila Mariana registraram aumento de 50% no aluguel de bicicletas, além de 42% nas novas adesões. As novas estações foram instaladas em locais estratégicos, onde os usuários têm fácil acesso às ciclovias, transporte público e avenidas arteriais.

O Bike Sampa, operado pela Tembici, registrou aumento de 60% na média diária nas estações da Zona Sul da capital paulista. Para atender ao aumento, a empresa espalhou pelas estações mais de 500 bicicletas. “Até o final de dezembro teremos mais 600 bicicletas”, adiantou Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais do Itaú Unibanco. Segundo ela, a empresa contará, até o final de dezembro, com mais 260 estações em toda a cidade de São Paulo. As regras para uso do sistema são as mesmas do que nos dias anteriores ao incidente na Marginal, informou. Não há limitação no número de empréstimos que podem ser realizados, desde que cada período não ultrapasse uma hora de duração, com intervalo de 15 minutos entre uma utilização e outra. Em caso de descumprimento dessas diretrizes será cobrada multa de R$ 5 por hora.

Da mesma forma a Yellow, que iniciou sua operação na capital paulista em agosto deste ano, também viu a procura pelas bicicletas amarelinhas saltar. Apesar de não informar o número da nova demanda, a empresa colocou nas ruas de São Paulo mil novas bicicletas no sistema dockless (sem estação para retirada e devolução) e oferece bonificação para os usuários que estacionarem os veículos em locais identificados pelo aplicativo.

A empresa também informou que expandiu a área de atuação dos seus patinetes. Antes restrita à Vila Olímpia, a Yellow triplicou a disponibilidade na região e abrange agora trechos dos bairros Brooklin, Chácara Santo Antônio, Pinheiros, Cidade Monções e Vila Madalena. Oferecendo a possibilidade de pagar pelo serviço no cartão de crédito ou dinheiro, os pagamentos com cartão de débito e bilhete único estão no radar da empresa para as próximas semanas. Os créditos para uso das bicicletas poderão ser comprados em dinheiro em bancas de jornal e lojas, entre outros estabelecimentos parceiros espalhados pela cidade, como lanchonetes, que vão receber o valor em espécie e transferir, na hora, o montante para o app do usuário, como já acontece com as recargas de celular.

Ao baixar o aplicativo disponível para Android e iOS, o usuário acessa um mapa onde poderá encontrar bikes ou patinetes. É preciso colocar créditos de R$ 5, R$ 10, R$ 20 ou R$ 40. Com o aplicativo, o usuário deve ler o código de barras QR na parte de trás da bike e o cadeado inteligente abrirá automaticamente. Ao terminar o percurso, o usuário deve estacionar a Yellow em qualquer lugar onde seja permitido o estacionamento de veículos e trancar o cadeado manualmente. Enquanto amplia e consolida sua operação na capital paulista, a Yellow também planeja levar seu modelo para outras cidades brasileiras até o final de 2018.

As estações da CicloSampa, projeto que oferece as bikes da Bradesco Seguros e é operado pela Agência Trunfo, também estão concorridas nos últimos dias. Luciano Samarco, CEO da Agência Trunfo, desde a queda do viaduto houve um aumento de 30% na procura das bicicletas na comparação com o mês anterior. "A frota de bicicletas aumentou em cerca de 10% dentro das estações do ClicloSampa. Em breve, nosso programa de compartilhamento de bikes receberá novas estações”, informou Samarco. 

Para recorrer a uma das bikes do CicloSampa é preciso antes realizar um cadastro no site do serviço, informar seus dados pessoais e cadastrar um número de cartão de crédito com chip. Feito isso, você já pode ir até a uma das estações espalhadas na cidade (um mapa oferecido pelo app de mesmo nome indica onde você pode encontrá-las) e destravá-la no totem de pagamento instalado nas estações. Os 30 primeiros minutos são gratuitos e ultrapassado o período, você pagará uma taxa de R$ 5 para cada meia hora excedida. Mas fique atento para devolver o veículo corretamente - se em 24 horas a bicicleta não for devolvida, será feita automaticamente uma cobrança de R$ 1.380 no seu cartão de crédito.

Repensando a mobilidade

A aposta em serviços da chamada micromobilidade, que ajudam o cidadão a percorrer os quilômetros finais de distância entre um lugar ao outro ou ainda como o complemento do transporte público, tem despertado a atenção de startups do setor. Além da Yellow, uma das mais novas referências em São Paulo é a mexicana Grin, cujos patinetes elétricos verdes podem ser vistos com facilidade na ciclovia da Av. Brigadeiro Faria Lima. No Brasil, a operação da Grin é resultado da fusão com a startup brasileira Ride, uma aproximação recente que se deu cerca de dois meses após a Ride se lançar em São Paulo

Paula Nader, sócia-fundadora da Ride e também a frente da Grin no Brasil, informa que há cerca de 500 patinetes elétricos da empresa em circulação em São Paulo. Quando se lançou na cidade, a Ride operava com apenas 50 veículos. A rápida escala do serviço por aqui, segundo Paula, não tem muito a ver com o incidente no viaduto, mas sim uma coincidência já que a expansão da frota estava prevista. Mas num cenário que parece ficar cada vez mais concorrido para os diferentes modais "verdes", a Grin também corre para dar movimento aos seus usuários. Até o final do ano, a startup planeja entregar ao mercado brasileiro 3 mil patinetes, incluindo aí uma operação inicial em Florianópolis. Em São Paulo, a área de atuação chegará a outros bairros além do Itaim Bibi, incluindo aí Pinheiros e Vila Olímpia.

Para subir em um dos patinetes da Grin, o usuário precisa baixar o app de mesmo nome - disponível tanto para Android quanto iOS - e realizar seu cadastro. Além de informar e-mail e senha, o app exige um número de cartão de crédito, uma vez que para desbloquear o serviço, o usuário deverá pagar a taxa inicial de R$ 3 e a cada minuto rodado será cobrado R$ 0,50. Após o uso, clientes podem deixar as patinetes estacionadas em locais marcados no aplicativo. O primeiro passeio em uma Grin é grátis, até o limite de dez minutos. Para além do próprio app da Grin, usuários do aplicativo de entrega Rappi podem, a partir deste semana, solicitar por uma patinete dentro do app de delivery.

Se de um lado o incidente no viaduto refletiu diretamente na configuração do trânsito e congestionamentos na cidade, por outro “obrigou” o paulistano a repensar a logística para chegar de um ponto a outro. 

"As pessoas ficam mais dispostas a experimentar. Talvez, em condições normais elas sequer tentariam. Mas mesmo quando não se tem um episódio excepcional como esse, os horários de pico nas grandes cidades representam uma questão que se reflete no mundo todo. O que eu observo é que as pessoas estão mais propensas a combinar diferentes modais e veem a possibilidade de combinar a melhor forma de ir e vir dado determinado dia e hora, com opções que antes não tinham acesso", argumenta Paula.

O trecho interrompido pelo desnível no elevado integra importante via para o motorista acessar a Marginal Tietê e a Rodovia Castello Branco. No último final de semana, a Prefeitura completou o trabalho de elevação do trecho, mas ainda não há um prazo para terminar a obra e liberar o trânsito na via expressa.