Fracasso do Essential Phone mostra o que há de mais errado no Android

Michael Simon, PC World / EUA
25/05/2018 - 18h52
Lançado em meio a muitas expectativas em 2017, o smartphone criado pelo 'pai do Android' falhou em entregar uma boa experiência para os usuários.

Imagem: Essential/divulgação

Após um ano de muito hype, falsos inícios e promessas falsas, essas podem ser as últimas palavras que precisarei escrever sobre o Essential Phone. E, francamente, já escrevi muito sobre o aparelho. 

Em maio do ano passado, o fundador do Android, Andy Rubin, revelou a sua empresa pós-Google juntamente com um lindo site e uma linguagem muito assertiva. Entre outras coisas, a página era tomada por promessas de “mudar para sempre como as companhias de tecnologia bem-sucedidas são construídas”, depoimentos sobre a razão pela qual o uso de titânio e cerâmica era superior ao uso de alumínio e vidro, e uma explicação do uso da chamada “fotografia computacional” para capturar “imagens dramaticamente melhores para os nossos usuários, não importando a experiência que possuam como fotógrafos”.

Não acreditei em uma única palavra na época e a minha opinião não mudou depois que coloquei as mãos em uma unidade do aparelho para review. Apesar do visual incrível, o Essential Phone era um monte de besteiras de marketing com o objetivo de enganar consumidores impressionáveis para que pagassem muito em um smartphone que não era apenas caro demais, mas que nem deveria ter sido lançado.

Um ano depois, a companhia nem está perto de ter uma reputação no mercado. Os seus smartphones foram reduzidos a preços promocionais, um golpe e tanto para quem pagou o preço cheio de 800 dólares no lançamento.

O único add-on modular à venda é a mesma câmera de 360 graus ruim que estava disponível há um ano. O Home Speaker não evoluiu para além de uma série de renderizações. E após prometer updates ágeis, a companhia levou mais de seis meses para entregar o Android Oreo aos seus usuários.

Mesmo que a Essential não esteja fechando as portas como a Bloomberg relatou nesta semana, os fabricantes Android dos mais diversos tamanhos e idades no mercado podem aprender bastante com a experiência fracassada de Rubin. Apenas porque alguém consegue fazer um celular bonito, isso não significa que você deve colocar o Android no dispositivo e cobrar um preço premium por ele.

Mesma música

A comunidade Android poderia viver com um número muito menor de aparelhos. Mesmo que você tire todos os celulares mais básicos, com menos RAM do que um relógio inteligente com Wear OS, o número de smartphones premium e top de linha à venda ainda é enorme. Apenas nos últimos meses, LG, HTC, OnePlus, Sony e Samsung lançaram celulares novos ou atualizados com preços a partir de 800 dólares (nos EUA). E a maior parte deles vai ficar pegando poeira nas prateleiras antes que os valores sejam diminuídos.

O Essential Phone se vendia como algo diferente, mas na verdade era apenas mais do mesmo. Apesar de ser lindo por fora, o aparelho tinha vários comprometimentos: sua traseira em cerâmica não suportava recarga Qi e o prometido dock wireless nunca virou realidade. O seu sistema era anunciado como uma versão quase pura do Android Nougat, mas além da interface de usuário mínima, o software era lento e atrasado até uma atualização recente resolver isso (ou quase). Vale notar ainda que o aparelho não é resistente à água e não conta com um conector de fone de ouvido. 

Ainda assim, Rubin esperava que os usuários Android corressem para comprar o aparelho apenas com base no nome e no visual. A Essential afirmava ter construído o smartphone porque “materiais premium e habilidades manuais verdadeiras não deveriam ser apenas para poucos”. Mesmo assim, o aparelho tinha um preço em linha com o Galaxy S8, um celular que realmente entregava funcionalidades para além da sua forma e do seu visual.

A Essential queria ser a Apple do mundo Android, mas o pai do sistema móvel do Google esqueceu de um elemento importante para isso: a experiência.

Para trás

Os fãs do Android gostam de desqualificar os iPhones como sendo apenas aparelhos voltados para o design, mas a verdade é que as coisas não são bem assim. Sim, a Apple dedica muita atenção e muitos esforços em como será o visual dos celulares, mas os iPhones são desenvolvidos de dentro para fora. O chip, a bateria, a câmera, e obviamente, o sistema são todos otimizados para trabalharem juntos e entregarem a melhor performance possível.

Eles são perfeitos? Certamente não. Mas se a Essential achou que podia rivalizar com iPhone com um pouco mais do que um “brilho orgânico e agradável” na traseira cerâmica do seu aparelho, então estava redondamente enganada. 

O tipo de usuário Android que compraria um smartphone de butique de 800 dólares liga menos para o design do que os fãs da Apple. Eles podem ficar momentaneamente impressionados com o bonito visual do Essential Phone, mas no fim das contas a decisão de compra estará ligada a coisas como velocidade, qualidade de imagem e velocidade de upgrade. Se o aparelho também for bonito, melhor ainda.

Pegue o Pixel 2, do Google, por exemplo. Você nem precisa colocá-lo ao lado do Essential Phone para ver o quanto ele fica para trás em termos de design. Mas o que torna o Pixel 2 tão incrível é como o seu sistema funciona de forma simples e direta. Assim como o iPhone, ele está longe de ser perfeito, mas o Pixel oferece a versão mais suave e intuitiva do Android deste lado do iOS. O Essential Phone prometeu algo parecido, mas a verdade é que era apenas parecido com o restante dos aparelhos Android que não são o Pixel: atrasado, cheio de bugs e outros problemas. 

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Pixel 2 (imagem: Google/divulgação)

Visual não é tudo

Para ser justo com o Essential Phone, ele possui uma ótima tela. E terá para sempre o título do “primeiro smartphone com um notch” (que depois ficou popular com o iPhone X e migrou para muitos aparelhos Android). Usá-lo, no entanto, é uma outra história. No fim das contas, o display do Essential sofre com os mesmos problemas que afetam o restante do dispositivo: é um lindo elemento de design que não consegue entregar muito além do seu visual bonito.

E é aí que a maioria dos aparelhos Android falham. O LG G7 ThinQ (que estou revisando no momento) é um exemplo perfeito neste sentido. O aparelho possui um design interessante com uma boa tela e ótimas especificações. Mas quando você chega nos “finalmentes”, a experiência geral do sistema e dos componentes é muito atolada para ser prazerosa. Os fabricantes de aparelhos Android deveriam aprender com o Pixel e desenvolver os seus dispositivos a partir do sistema. No entanto, a maioria deles não coloca nem de perto tanto pensamento no sistema quanto no case.

O Essential Phone e seu fracasso podem ter tomado as manchetes por conta da ligação com Andy Rubin, mas vamos fazer com que isso sirva de lição para os fabricantes de aparelhos Android de todos os tamanhos e idades. Se o próximo Essential Phone quiser ser a Apple do Android, precisará olhar com mais atenção para o que há dentro do aparelho – não apenas para a parte de fora.