Artigo: Apple pode usar estratégia do Android P para melhorar iOS 12

Michael Simon, PC World / EUA
20 de março de 2018 - 11h47
Empresa de Cupertino pode aprender algumas lições com a rival para entregar uma experiência ainda melhor com a nova versão do sistema para iPhones e iPads.

Agora que sabemos oficialmente as datas da WWDC 2018, da Apple, já podemos iniciar a contagem regressiva para o iOS 12. A não ser que aconteça uma mudança muito grande, a empresa de Cupertino irá revelar a próxima versão do seu sistema móvel na keynote de abertura da sua conferência anual de desenvolvedores, com início previsto para 4 de junho.

Mas o lançamento deste ano pode ser um pouco diferente. No último mês, ouvimos rumores de que a Apple estaria voltando atrás em alguns recursos planejados do iOS 12 para focar nas coisas que mais importam, como desempenho e estabilidade. A empresa teve um início instável com o iOS 11, uma vez que vários bugs afetaram iPhones, causando problemas como digitação aleatória de caracteres, reinicializações sem avisos e "travamentos" padrão. Por conta disso, o iOS 12 precisa de muito trabalho por trás das cenas.

Mas apesar de as otimizações e soluções de bugs poderem ser mais importantes do que novos recursos, os usuários do iPhone estão acostumados a grandes lançamentos do iOS com funcionalidades chamativas que tornam o update um “download obrigatório”. 

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Um lançamento de manutenção não deixa os usuários realmente animados, e a Apple precisa que o iOS 12 seja tão importante quanto o seu próximo iPhone para manter a sua forte presença no mercado mobile. Parte do apelo de ter um iPhone é a promessa de que seu smartphone vai evoluir a cada ano, trazendo novos recursos e apps que farão com que aparelhos mais antigos pareçam novos mais uma vez. 

A Apple ainda pode trazer esse nível de excitação com o iOS 12. Só precisará “emprestar” alguns ensinamentos do Google para fazer isso.

Android P

Para quem não lembra, o Google revelou há algumas semanas os primeiros recursos do Android P. Assim como a Apple, a gigante de buscas também faz bastante barulho com os upgrades anuais do Android, mas neste ano as mudanças mais importantes da plataforma estão relacionadas ao suporte para telas com notches (faixas superiores na tela - veja imagem abaixo) e uma nova localização para o relógio digital. Isso é porque as maiores melhorias do sistema serão aquelas que vão melhorar a experiência de forma simples e automática, como o suporte ao IEEE 802.11mc para melhor posicionamento em locais fechados. 

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Essa é uma estratégia muito diferente da Apple. A ainda inédita nova versão do Android foca em mudanças gerais no sistema em vez de alterações focadas em aplicativos, e o resultado são muitas pequenas melhorias que juntas representam um grande salto em velocidade, resposta e usabilidade geral. 

A Apple, por outro lado, costuma focar mais em mudanças nos seus apps e serviços principais, em vez de refinar a maneira como usamos o iOS. Não é que não existam melhorias por baixo do capô, mas cada nova versão do iOS traz centenas de mudanças que podemos ver, suficientes para os executivos da Apple encherem uma keynote. Esse é um empreendimento e tanto a cada ano e muita coisa para ser entregue de uma vez. Então talvez o Google esteja certo. 

Updates principais de sistemas deveriam ser sobre corrigir problemas e melhorias a base em vez de empilhar novos recursos. E existem três maneiras simples e fáceis pelas quais a Apple pode mudar o seu foco sem sacrificar recursos.

1-Atualize os apps ao longo do ano

A maior coisa que você vai perceber sobre o Android P é que não há nenhum update para apps existentes. Compare isso com o iOS 11, que inclui mudanças significativas no Messages, Apple Pay, Câmera, Maps, CarPlay e na App Store, além de alterações menores na Central de Controle e no Painel de Notificações. Uma mudança grande no painel de Configurações Rápidas/Quick Settings (a versão do Android da Central de Controle) teria muito destaque no Android P, mas no iOS 11 foi apenas o quarto ou o quinto item da apresentação.

Isso é porque o Google atualiza os seus aplicativos ao longo do ano ao vez de publicar todos os updates de uma vez, revelando os novos recursos quando eles estão prontos e não em uma linha do tempo previsível. Houve uma época em que a Apple não poderia fazer isso, mas agora muitos dos seus apps estão disponíveis como downloads individuais na App Store, em vez de estarem “presos” ao iOS. E, no início deste ano, a Apple publicou um update do Safari para corrigir o bug Spectre que não estava conectado a uma atualização do iOS. Então a Apple poderia atualizar o Mail, o Messages e o Safari em datas diferentes e focar em mudanças e melhorias centrais com o iOS 12. 

Apenas essa mudança de abordagem já liberaria o foco da Apple para as tecnologias básicas no iOS, assim como o Google faz no Android: melhorias em notificações, APIs, gestos, velocidades, eficiência de uso de energia, etc. Não é que a Apple não trate dessas coisas a cada update do iOS, mas ao aliviar a pressão de precisar atualizar todos os apps principais, as mudanças na fundação principal do iOS 12 seriam a estrela do show, com os apps ganhando uma chance de brilharem depois. 

2-Refine a experiência do usuário

Nem o iOS nem o Android renovaram o visual geral das suas interfaces nos últimos anos. Mas se você pegar um aparelho rodando o Android Marshmallow e compará-lo com um Android Nougat ou Oreo, a diferença será notável. Isso é porque o Google está sempre refinando a experiência do usuário de maneiras sutis, mas significativas.

A Apple não ignora a interface de usuário nem nada do tipo, mas as mudanças mais significativas do iOS, especialmente no iPhone, geralmente são impulsionadas por alterações no hardware, e não por inovação no próprio software. 

Coisas como 3D Touch e o indicador do botão home são melhorias legais, mas há uma diferença entre mudanças baseadas em hardware e alterações profundas e bem pensadas baseadas em software. Se a Apple estivesse focada apenas em como melhorar o iOS a partir de um ponto de vista de usabilidade em vez de funcionalidade, o iOS 12 seria um lançamento monumental, mesmo sem nenhum recurso chamativo. 

Já vimos o que a Apple pode fazer quando volta suas atenções para as melhorias da interface de usuário, e os resultados são incríveis. Por exemplo, o iOS 10 e o iOS 11 trouxeram mudanças transformativas ao iPad com coisas como Slide Over, Picture in Picture e Drag and Drop, mas já passou da hora de o iPhone receber mudanças significativas em sua interface de usuário.

No Android, o Google entregou a visualização de multi-janelas no Nougat, e o Oreo expandiu o conceito com o modo “picture-in-picture” para vídeos e aplicativos. Esse é o tipo de pensamento que a Apple deveria estar trazendo para o iOS 12. Não precisa ser algo deste tamanho necessariamente, mas uma série de pequenas melhorias de sistema focadas na maneira como usamos os nossos smartphones já avançaria bastante.

3-Prometa menos e entregue mais

Talvez a parte em que o Google se saia melhor do que a Apple é no gerenciamento de expectativas. Com o iOS 11, a Apple perdeu o prazo para entregar o Apple Pay Cash e ainda estamos esperando pelo AirPlay 2. 

A maior coisa que a Apple precisa fazer com o iOS 12 é baixar as expectativas para que elas possam ser administradas. É melhor ficar desapontado com o beta do que com o lançamento final do sistema. Por isso, a Apple precisa se certificar de anunciar apenas recursos que tem certeza que entregará. 

Já faz cerca de seis meses desde o lançamento do iOS 11 e a Apple ainda está corrigindo alguns bugs e correndo para entregar recursos antes da chegada da próxima versão da plataforma móvel. Com o iOS 12, uma abordagem mais lenta e simples seria de grande valor para a empresa, com um foco em updates menores e graduais, em vez da estratégia atual de entregar tudo de uma vez.

Mesmo que isso signifique que o iOS 12 acabe se parecendo com o rival Android P.