Opinião: fim do Windows Phone pode significar redenção da Microsoft

Preston Gralla, Computerworld/ EUA
03 de novembro de 2017 - 18h02
Após gastar bilhões e bilhões de dólares sem sucesso no mobile, empresa parece ter entendido que não basta colocar a marca Windows para que algo dê certo.

Imagem: divulgação/Microsoft

No início de outubro, a Microsoft fez o que devia ter feito há muitos anos: matou o Windows Phone. O destino do sistema móvel da empresa foi selado quando o VP corporativo da companhia, Joe Belfiore, publicou o seguinte tuíte: “É claro que vamos continuar oferecendo suporte para a plataforma...solução de bugs, updates de segurança, etc. Mas criar novos recursos e hardware não é o foco.”

Isso efetivamente puxou o fio da tomada de um sistema operacional que não obteve sucesso e nem amor dos usuários e estava sendo mantido vivo artificialmente pela Microsoft. Quando Belfiore anunciou o seu fim, a plataforma tinha uma participação ínfima no mercado: 1,3% nos EUA, 1% no Reino Unido e no México, 1,2% na Alemanha e 0% na China.

Foi um fim anticlimático para um sistema que estava no mercado de uma forma ou de outra desde o meio dos anos 1990, quando o seu antecessor para aparelhos móveis, o Windows CE, foi anunciado. A Microsoft investiu incontáveis bilhões de dólares em seus esforços mobile, e, por fim, falhou completamente.

No entanto, pode ser que o fim do Windows Phone indique há coisas boas à frente para a Microsoft. Isso caso a morte do sistema signifique que a empresa finalmente abandonou de vez a arrogância que a atrapalhou por décadas.

Uma olhada em parte da história do Windows Phone nos mostra até onde foi essa arrogância. A maioria das pessoas talvez não lembre, mas a Microsoft lançou um sistema operacional para celulares cinco anos antes da Apple. O sistema Pocket PC, de 2022, logo foi revisada e renomeado para Windows Mobile em 2003. Em 2005, a Microsoft tinha 17% de participação no então pequeno mercado de smartphones, atrás do Symbian, com 51%, e do Linux, com 23%. 

Mas a Microsoft nunca reimaginou como deveria ser um sistema operacional em um smartphone. Na época, a Microsoft estava obcecada em tentar descobrir maneiras para aumentar o alcance do Windows. A Apple, por outro lado, criou um sistema especificamente para os smartphones. Quando o iPhone foi lançado, a participação do Windows Mobile despencou e a Microsoft nunca recuperou a sua antiga posição sólida no mercado mobile. 

E ela bem que tentou fazer isso, gastando bilhões e bilhões de dólares ao longo do caminho. Aumentou o trabalho de desenvolvimento para sair do Windows Mobile para o Windows Phone. Gastou 400 milhões de dólares apenas em marketing para lançar o Windows Phone em 2012, e isso sem contar os 150 milhões de dólares que gastou em marketing com a sua parceira AT&T. O site Business Insider estima que a Microsoft gastou algo em torno de 1.666 dólares em marketing e publicidade para cada Windows Phone vendido – bem mais do que o preço médio de 100 dólares do aparelho.

Frente a perdas tão grandes, outras empresas talvez tivessem repensado sua habilidade de ser bem-sucedida naquele mercado, ou pelo menos mudar o rumo das coisas. Mas a Microsoft, sob o comando de Steve Ballmer, ainda era a empresa que achava que bastava colocar a palavra Windows em um produto para que o mundo o abraçasse. Veja o que o ex-CEO da empresa disse ao USA Today na época do lançamento do primeiro iPhone, em 2007: “Não há chance do iPhone ter uma fatia significativa de mercado. Sem chance. É um item de 500 dólares subsidiado. Eles podem ganhar muito dinheiro”, afirmou o executivo, que destacou ainda que a Apple faria isso com “2% ou 3% do mercado de smartphones e eu preferiria ter o nosso software em 60%, 70% ou 80%”. Agora, obviamente, esses 2% ou 3% pareceriam um ótimo negócio para a Microsoft. 

Sob o comando de Ballmer, a arrogância levou a Microsoft a gastar ainda mais com mobile quando foi necessária uma mudança de direção. Esses gastos parecem pequenos em comparação com os 7,2 bilhões de dólares que a empresa pagou pela divisão de aparelhos móveis e serviços da Nokia, em 2013. No entanto, a fatia de mercado do Windows Phone continuou minúscula, e não muito depois o investimento na Nokia evaporou em uma baixa de 7,8 bilhões de dólares. A partir daí, a maioria dos analistas de mercado sentiram que era apenas uma questão de tempo antes do fim do Windows Phone. O fato de ter levado mais dois anos para isso sugere que arrogância residual demora para desaparecer.

A Microsoft não recebeu nada desses bilhões de dólares que gastou em seus esforços no mercado de smartphones – com exceção talvez de uma mudança na sua cultura. No cargo desde 2014, o atual CEO da empresa, Satya Nadella não possui nada da arrogância dos seus antecessores. Ele reconhece que é preciso mais para o sucesso além de apenas explorar a marca Windows. Não à toa, o Windows não impulsiona mais o crescimento da Microsoft, mas sim os seus diversos serviços na nuvem. A receita do Azure cresceu 97% na comparação ano a ano, segundo o balanço financeiro do quarto trimestre fiscal da empresa em 2017. Já os rendimentos com o que a companhia chamada de segmento de Nuvem Inteligente subiu 11% no período.

Para Nadella, o futuro da Microsoft está intimamente conectado aos seus esforços de construir Inteligência Artificial em todos os seus produtos e serviços. Não há mobile nessa mistura. Vamos esperar que as coisas continuem assim. O Windows Phone deve se juntar a outros fracassos da Microsoft, como o Zune e o Clippy, bons apenas para uma risada ocasional. E as tabelas de participação do sistema móvel fracassado deveriam ser emolduradas e espalhadas com destaque na sede da empresa, em Redmond, como um lembrete sobre aonde a arrogância pode te levar.