5G impactará todas as indústrias, mas o quão perto estamos da conexão ultrarrápida?

Por Carla Matsu*
31/10/2017 - 10h28
Qualcomm anunciou 1ª conexão 5G em um smartphone e promete comercializar o novo Snapdragon X50 em 2019. Infraestrutura para o 5G, entretanto, enfrenta desafios

Há cerca de dois anos a indústria de tecnologia móvel começou a posicionar no horizonte de nossa ansiedade por conexão e mobilidade uma nova potência: o 5G. Trata-se da próxima geração de conexão sem fio que promete acelerar e muito a navegação dos usuários. Com ela, será possível entregar muito mais tráfego que as redes atuais e com uma rapidez, no mínimo, 10 vezes superior ao atual 4G LTE. Para colocar em uma perspectiva, digamos, mais próxima do nosso conforto, é o tipo de velocidade que permitirá você baixar um filme em HD em questão de segundos. 

E não somente o entretenimento e a comunicação serão impactadas. Os protagonistas desta indústria - operadoras, fabricantes de smartphones, de modem e de processadores - são unânimes ao salientar que a próxima geração da redes sem fio impactará toda a cadeia de produção, modelos de negócios e, claro, os hábitos de seus consumidores.

A ideia é que aparatos, que até pouco tempo atrás estavam mais próximos de um fetiche tecnológico ou tema de pesquisa de laboratórios secretos no Vale do Silício, conseguirão chegar às massas com o 5G: óculos de realidade mista, drones e carros autônomos, sensores inteligentes para fábricas digitais, robôs cirurgiões e, eventualmente, novas formas de se comunicar, de trabalhar, enfim, de viver. Tais serviços ou produtos se beneficiarão da chamada baixa latência, cujo tempo de resposta entre um dispositivo e outro é, praticamente, instantâneo. Se hoje, conectado a uma rede 4G, um carro autônomo demora 20 milissegundos para ter uma reação preventiva a algo que poderia causar um acidente,  com o 5G este tempo de resposta cairia para 1 milissegundo. 

"O 5G será uma das transições mais significativas que teremos em nossa indústria", salienta Cristiano Amon, vice-presidente executivo da Qualcomm Technologies, durante evento da fabricante de chips em Hong Kong. "Será como a eletricidade. Em alguns anos nós não teremos mais uma discussão sobre os casos de uso, nós iremos apenas assumir que está lá, porque tudo estará de fato conectado à nuvem", compara.

Além da Qualcomm, concorrentes como a Nokia, Samsung e Intel têm concentrado esforços em uma acirrada corrida para comercializar o 5G. Afinal, a maratona para garantir propriedade intelectual em um mundo conectado a tal rede será certamente lucrativa a longo prazo. Segundo o estudo "The 5G Economy", comissionado pela Qualcomm, a quinta geração de redes móveis deverá gerar receitas de até US$ 3,5 trilhões e produzir até US$ 12,3 trilhões em bens e serviços até 2035. É o tipo de potencial ao qual muitos especialistas creditam o 5G como uma tecnologia de propósito geral, assim como a eletricidade e o automóvel. 

Companhias têm testado a conexão internamente e a padronização para caracterizar o que é - de fato - uma conexão 5G ainda está à caminho. Entretanto, a Qualcomm reivindicou, pelo menos por enquanto, liderança sobre o tema quando, durante o 4G/5G Summit, Cristiano Amon anunciou que a fabricante conseguiu, com sucesso, estabelecer uma conexão 5G em um dispositivo móvel. Trata-se de um grande passo tendo em vista que, até então, os dispositivos de teste habilitados para conexão 5G tendiam a ter o tamanho de uma caixa de sapatos. O teste, realizado nos laboratórios de San Diego, utilizou o chipset com modem Snapdragon X50 NR, anunciado há um ano.

"Estamos começando com uma série de testes agora nesta segunda metade de 2017, e temos sistemas protótipos que estão, de fato, permitindo tentativas e testes tanto em sub-6 GHz quanto em onda milimétrica", ressaltou Amon.

O chipset foi desenhado para capturar frequências extremamente altas nas quais o 5G será transmitido. Ele deve alavancar os desdobramentos iniciais de redes 5G, permitindo velocidade de download a cerca de 5Gps e dando suporte a operação no espectro milimétrico a 28GHz, com 800MHz de banda, junto com a chamada tecnologia Multiple-Input Multiple-Output (MIMO). A Qualcomm aproveitou o 4G/5G Summit para também apresentar o design de referência para smartphones 5G, que será usado por fabricantes parceiras.

Enquanto a maioria das operadoras e fabricantes mundo afora colocam o ano de 2020 como um prazo mais tangível para a chegada do 5G, a Qualcomm visa a disponibilidade comercial de aparelhos 5G já em 2019. 

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Afinal, como funcionará o 5G?

O 5G será mais que um acréscimo na velocidade de conexão em nossos aparelhos. Na verdade, está mais relacionado a garantir que as redes consigam lidar com o aumento massivo no número de dispositivos. A medida que a revolução proporcionada pela Internet das Coisas segue seu caminho, a expectativa é que as redes 5G consigam lidar com centenas de milhões de dispositivos e sensores que, eventualmente, se somarão à rede.

Entretanto, abraçar esse tipo de demanda tem suas complexidades. O arcabouço para as redes 5G envolve uma combinação de tecnologias também emergentes e combinar espectros de frequências variantes. 

Um dos maiores obstáculos é uma questão física. O 5G operará em uma uma banda de alta frequência do espectro sem fio - entre 30 GHz e 300 GHz, no que é conhecido como o espectro de ondas milimétricas. Estas podem transferir pilhas de dados em velocidades muito altas, mas não viajam tão longe quanto as ondas de baixa frequência usadas em redes 4G.

Há sérios desafios técnicos a superar, e a maioria tem a ver com os conhecidos problemas de alta frequência de curto alcance de transmissão, incapacidade de lidar com transmissão sem linha de visão e dificuldade em se locomover em paredes, prédios e outros obstáculos. Em uma rede de baixa frequência como a 4G LTE, as antenas podem estar mais distantes e os obstáculos não são um grande problema. Dessa forma, quando as redes 5G forem construídas, as operadoras terão que usar muito mais antenas para obter a mesma cobertura que nossas redes atuais. Para endereçar esta questão, fabricantes como a Qualcomm e a Intel estão experimentando também a faixa  sub-6 GHz, como uma forma de complementar os sinais de ondas milimétricas inconstantes com algo mais estável. 

A estrada para o 5G no Brasil

No Brasil, a discussão para a construção de um ecossistema para a quinta geração de telefonia móvel foi oficializada no dia 15 de fevereiro deste ano, quando a Anatel, ao lado do governo federal, representantes da indústria e academia se uniram para lançar o "Projeto 5G Brasil". Com a iniciativa, o Brasil se credencia para participar previamente de discussões internacionais na definição de critérios para a implantação do 5G no mundo.

Vale ressaltar que no Brasil, assim como em mercados emergentes, a cobertura 4G ainda está à caminho. Segundo estudo da OpenSignal, empresa que monitora o desempenho de operadoras de celular, a internet 4G do Brasil é uma das piores do mundo e é a sexta pior em disponibilidade. Isso porque o país tem poucas redes acessíveis. Dados da Anatel dão conta de que apenas 147 municípios possuem cobertura 4G, com cerca de 42% da população brasileira com acesso, a grande maioria concentrada em áreas urbanas. 

A internet móvel tem bastante espaço para evoluir por aqui. Neste ano, a operadora Claro começou a entregar o chamado 4,5G, sendo Brasília a primeira cidade do país a liberar a faixa de 700 MHz (antes dedicada ao sinal analógico) para uso das redes móveis. Também definido como LTE Advanced, o 4,5G permite que várias faixas sejam agregadas para usar o sinal de modo mais eficiente, obtendo assim o melhor uso dos recursos da rede. No início de outubro, a operadora anunciou que as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Salvador, São Luís e Campinas receberão a rede 4,5G até o final de 2017. 

Além de maior velocidade de navegação, o 4,5G traz uma melhor qualidade de transmissão do sinal em ambientes fechados e mais eficiência de conexão para muitos dispositivos entre si. A Vivo e a Tim também oferecem redes com velocidade que, em alguma medida, superam o 4G. Entretanto, vale ressaltar que diferente do 4G não existe uma padronização do que é o 4,5G ou ainda o 4G+. Dessa forma, as velocidades podem variar entre as operadoras, assim como a cobertura. Para ter acesso à tecnologia, smartphones devem ser compatíveis com o 4,5G. 

Para Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm para a América Latina, é preciso tomar as devidas ações para que os mercados latino-americanos não se distanciem dos outros mundo afora. Segundo ele, os obstáculos locais dizem respeito à infraestrutura e mão de obra especializada para desenhar e operar a rede. "O 5G não é uma evolução, é realmente uma releitura do mundo móvel. Teremos, pela primeira vez, um efeito massivo em toda a população, em todas as indústrias do mundo celular", ressalta o executivo em conversa com jornalistas da América Latina durante o 4G/5G Summit. 

Ao ficarem atrasados em relação à tecnologia, tais mercados também terão limitado seu acesso ao potencial do 5G em termos de receita e geração de empregos. Segundo o estudo “The 5G Economy”, até o ano de 2035, 22 milhões de empregos serão gerados pela cadeia de valor do 5G. A expectativa é que a tecnologia tenha um impacto no crescimento do PIB global em US$ 3 trilhões cumulativamente.  

“Precisamos que as pessoas saibam da importância do 5G, senão o mundo vai avançar muito rápido e tudo isso vai comprometer uma melhor qualidade de vida, melhores oportunidades, melhor condições de competitividade da indústria, e vamos ficar para trás”, salienta Steinhauser. Em sua visão, o Brasil deveria encerrar a disponibilidade do 2G para liberar banda para o vindouro 5G. De acordo com dados da Anatel de novembro de 2016, 20,37% de todos os celulares ativos ainda funcionam apenas com tecnologia 2G. Steinhauser cita o exemplo da AT&T Estados Unidos que, em 2016, encerrou o serviço e passou a oferecer apenas conexões 3G e 4G LTE. “Essa migração deveria ter ocorrido ou deveria estar ocorrendo. E isso não está acontecendo”, critica o executivo. Ele explica que é na banda onde se encontra o 2G que reside a melhorar propagação para a comunicação celular. “O 2G tem 40 anos. Temos que acabar com isso e migrar tudo para o 5G”, alerta. 

De qualquer forma, e mesmo com a disponibilidade de smartphones 5G em 2019 - Steinhauser se adianta em dizer que o iminente Mobile World Congress já deve apresentar aparelhos 5G -  a evolução para a próxima conexão de telefonia móvel se dará de forma gradativa - semelhante ao que aconteceu com os "Gs" anteriores. 

O 4G atingiu um bilhão de conexões no ano passado, de acordo com a GSMA, associação internacional que representa operadoras móveis. Durante a MWC deste ano, a mesma GSMA vislumbrou que até o ano de 2025 teremos 1 bilhão de conexões 5G. A adoção massiva levará anos. Enquanto isso, você terá de se contentar em esperar pacientes dez minutos para baixar um filme em alta definição com sua rede 4G  - ou bem - recorrer, como o indicado, a sua conexão Wi-Fi doméstica.

*Jornalista viajou a Hong Kong à convite da Qualcomm