Por que a aproximação do Facebook com bancos não soa como surpresa

Scott Carey, Computerworld UK
09/08/2018 - 18h47
Rede social estaria em discussões com PayPal, Citibank, JPMorgan Chase, Wells Fargo e American Express, segundo WSJ

No início desta semana, o Wall Street Journal alegou que o Facebook estava avaliando as principais instituições financeiras dos Estados Unidos sobre a possibilidade de acessar informações bancárias dos clientes como forma de oferecer novos serviços, como alertas de fraudes e cheques instantâneos diretamente no Facebook Messenger

A rede social estaria em discussões com o PayPal, Citibank, JPMorgan Chase, Wells Fargo e American Express, entre outros. 

O Facebook divulgou um comunicado logo após, dizendo que "não estamos usando essas informações além de possibilitar esses tipos de experiências (de atendimento ao cliente). Uma parte essencial dessas parcerias é manter as informações das pessoas seguras e protegidas. A ideia é que a troca de mensagens com um banco pode ser melhor do que esperar pelo telefone". 

O Facebook já teve um acesso limitado nessa área, fazendo um acordo com o PayPal em outubro de 2017 para permitir que os usuários do Messenger transfiram dinheiro, acompanhem transações e atualizações de envio. 

Usuários desconfiados 

Esses relatórios causaram uma onda previsível negativa nas redes sociais, até que outros artigos esclareceram que o Facebook não queria dados de transações como meio de melhorar seus algoritmos de publicidade, mas sim oferecer novos serviços, o que presumivelmente só seria possível com a permissão do cliente. 

Ou seja, este tipo de serviço seria opcional e o Facebook afirmou que não irá colher os dados para enriquecer os seus algoritmos de publicidade. 

A rede social não é a única a procurar fornecer aos usuários acesso às suas informações bancárias através de canais adicionais. Bancos como a Capital One vêm desenvolvendo habilidades de Alexa para o assistente de voz da Amazon, para que os clientes possam perguntar ao dispositivo quais foram suas transações mais recentes e quanto ainda resta em suas contas. 

De acordo com o Wall Street Jornal, "a privacidade de dados é um ponto de discórdia nas conversas dos bancos com o Facebook, segundo pessoas a par do assunto. As conversas estão ocorrendo enquanto o Facebook enfrenta várias investigações sobre seus laços com a empresa de análise política Cambridge Analytica que analisou cerca de 87 milhões de dados de usuários do Facebook sem o seu consentimento". 

Boa parte dessa reação inicial é impulsionada por esses recentes escândalos de compartilhamento de dados que prejudicaram a credibilidade do Facebook. É natural que os usuários perguntem 'se não posso confiar em você com os resultados de um teste que fiz há cinco anos, por que eu confiaria em você com acesso a minhas informações financeiras?'. 

Essa preocupação foi suficiente para convencer um grande banco dos EUA a suspender as discussões com o Facebook, informou o jornal. 

Open banking e PSD2 

A introdução da Revised Payment Service Directive(PSD2) e do sistema bancário aberto no início deste ano marcou mudanças significativas nas regulamentações financeiras na Europa e no Reino Unido, sinalizando que esses tipos de mecanismos de compartilhamento de dados financeiros provavelmente se tornarão dentro da lei. 

Ambos os regulamentos obrigam os grandes bancos a abrir dados de clientes com um conjunto de APIs padronizadas e seguras, permitindo aos clientes maior controle sobre com quem compartilham dados de transações para fornecer novos serviços, como comparações de contas ou obter aprovação de crédito sem ter que arquivar a papelada. Nesses casos, cabe aos correntistas decidir em quais terceiros eles confiam o suficiente com seus dados. 

Sob essas regulamentações, o Facebook não teria que fazer um acordo com cada banco para fornecer esses serviços, eles poderiam simplesmente criar um serviço que acessasse essas informações por meio da API pública e tentasse convencer os clientes a aceitar.