Como o Facebook planeja aumentar a transparência na rede social durante as eleições

Por Carla Matsu
24/07/2018 - 19h02
Companhia anunciou novos recursos que visam colocar rastro aos anúncios pagos de cunho político, além de iniciativas para barrar fake news

Cerca de quatro meses após o escândalo envolvendo o uso indevido de dados de 87 milhões de usuários do Facebook pela consultoria política Cambridge Analytica - a mesma que atuou na campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2016 -, a rede social contabiliza alguns esforços que visam renovar sua confiança e reputação entre os mais de 2 bilhões de usuários mundo afora. Parte deste trabalho incluiu a revisão de aplicativos terceiros, políticas de privacidade, além de recursos que visam jogar mais luz ao negócio de publicidade da empresa que também detém o WhatsApp e o Instagram.

No Brasil, a rede social que atingiu recentemente a marca de 127 milhões de usuários ativos mensais, terá um desafio particular em um horizonte próximo: as eleições para presidente. Segundo o próprio Facebook, o País se tornou um de seus cinco maiores mercados e dada a penetração, a empresa tem adiantado alguns recursos para conter o alcance de fake news, disseminação de contas falsas e ainda políticas mais claras para a publicação de propaganda eleitoral. 

Katie Harbath, Diretora global de engajamento com políticos e governos do Facebook, esteve no Brasil nesta terça-feira (24) e compartilhou algumas das práticas já em andamento e aquelas que ainda virão a tempo do período eleitoral no Brasil. “Nossa missão no Facebook é conectar pessoas ao redor do mundo e com isso vem responsabilidades”, disse Kate em coletiva de imprensa realizada no escritório do Facebook, em São Paulo. “Nós sabemos que coisas que não deviam ter acontecido em 2016 aconteceram e isso tem sido uma prioridade para a companhia nos últimos dois anos para proteger a integridade das eleições ao mesmo tempo que damos vozes às pessoas”, completou. No ano passado, o Facebook informou que o grupo russo Internet Research Agency publicou 80 mil posts na rede social por mais de dois anos num esforço de influenciar a política americana, e que 126 milhões de americanos viram posts falsos durante esse período.

A primeira vez que Katie veio ao Brasil era 2013, um ano anterior às eleições de 2014 que levaram à reeleição de Dilma Rousseff à presidência. Se naquele ano, a rede social já mostrava influência no compartilhamento de notícias, mais tarde, ela viria a ser um dos principais “aliados” na propagação de fake news, forçando a companhia a se posicionar de forma mais pró-ativa. Recentemente, o Facebook anunciou parceria com agências de checagens de notícias no Brasil - Aos Fatos, Agência Lupa e Agence France Press (AFP) - para a revisão de publicações potencialmente falsas. Aqueles posts que não passarem pelo crivo das agências, o Facebook comprometeu a sinalizar usuários dos mesmos.

Mais transparência 

Entre as novidades anunciadas nesta terça-feira para o mercado brasileiro está um recurso que classificará os anúncios políticos. O Brasil é o segundo país do mundo onde o Facebook lançará marcações que informam às pessoas quem pagou pelos anúncios relacionados à política. A habilidade estará disponível a partir do dia 16 de agosto. Anúncios pagos por campanhas de candidatos, por exemplo, virão com a tag "propaganda eleitoral". Aqueles publicados por candidatos mostrarão o CPF dele, assim como a legenda a qual é filiado. Já os anúncios de partidos vão conter o CNPJ da agremiação. 

Entretanto, para utilizar de tal marcação, candidatos precisarão realizar um cadastro no Facebook - disponível a partir de 31 de julho. É aqui que a rede social vai verificar a identidade do responsável e sua residência. Com isso o Facebook tenta impedir que pessoas de fora do Brasil possam impulsionar conteúdos. Vale ressaltar que aqueles partidos ou candidatos que não passarem por esse atestado do Facebook, não receberão tal selo e aí ficarão sujeitos à fiscalização do Tribunal Superior Eleitoral. 

Outra novidade com foco nas eleições é o que o Facebook chama de Biblioteca de Anúncios, uma espécie de repositório, onde usuários poderão ver os posts pagos relacionados à política. Informações sobre valor aproximado gasto, além de dados sobre público demográfico impactado por cada anúncio também estarão disponíveis a partir do dia 16 de agosto. 

Há ainda uma ferramenta prevista pelo Facebook que visa aproximar eleitores de seus representantes. Batizada de Town Hall, o recurso será lançado antes das eleições, e permitirá que as pessoas localizem, sigam e contatem seus candidatos. 

facebook-biblioteca

Alfabetização em fake news

Fake news se tornaram a grande pedra no sapato de empresas de tecnologia cujos principais produtos são redes sociais ou aplicativos de mensagem. Para além do Facebook, a empresa de Mark Zuckerberg viu no WhatsApp um dos principais vetores de fake news. Na Índia, boatos disseminados pelo aplicativo levaram ao linchamento e morte de oito pessoas. A companhia reagiu com anúncios em páginas de jornais na tentativa de informar o que é potencialmente uma notícia falsa, além de lançar uma bolsa de pesquisa para acadêmicos que tentam endereçar o problema.

Uma das saídas do Facebook tem sido investir em inteligência artificial para identificar posts que possam violar os padrões da comunidade, além de incitarem violência. Kate defende que o Facebook se tornou muito bom em identificar pessoas que tentam criar contas via bots. “Nós identificamos 98% das contas falsas antes de elas serem reportadas”, diz ela. Para endossar o trabalho, a companhia informou que seu time de segurança é composto por mais de 20 mil pessoas, sendo que uma boa parte dessa equipe tem como missão revisar conteúdos potencialmente maliciosos.

Entre as apostas do Facebook para conter fake news diz respeito a “alfabetização” de seus usuários - um esforço que visa criar consciência sobre o que é uma notícia de verdade ou o que potencialmente pode ser um post para manipular a opinião pública.

A empresa anunciou que financiará quatro projetos no Brasil neste sentido, incluindo bots que possam ajudar na verificação de notícias, um curso online que visa apoiar habilidades de interpretação de texto e um programa para checar declarações de candidatos. 

Kate, entretanto, reconhece que trata-se de um esforço contínuo e que, provavelmente, nunca acabe. “Fazemos um grande investimento neste espaço para identificar melhor esses atores à medida que eles vão se sofisticando para fazer com que eles pareçam com pessoas reais quando na verdade não são”, reforçou.