Parlamentar questiona se Zuckerberg criou monstro digital que destrói democracias

Da Redação
22/05/2018 - 16h16
CEO do Facebook se reuniu com parlamentares nesta terça; Zuckerberg foi comparado a Gates e Jobs e questionado sobre o legado que deixará ao mundo

Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, esteve frente a frente com o Parlamento Europeu nesta terça-feira (22), em Bruxelas, Bélgica. A reunião que, inicialmente, deveria acontecer de portas fechadas acabou sendo transmitida ao público, ao vivo, pela internet. A sabatina desta tarde durou pouco menos de duas horas, mas trouxe algumas perguntas incômodas e argumentos que pouco vangloriaram Zuckerberg.

O legislador Guy Verhofstadt, da Bélgica, talvez tenha sido o mais incisivo com o presidente da rede social. O representante questionou Zuckerberg sobre o legado que ele deixará ao mundo com o Facebook, comparando-o, sem muito favoritismo, com Bill Gates e Steve Jobs.

"Eu realmente penso que nós temos um grande problema aqui. E não será resolvido ao dizer que nós vamos consertá-lo por nossa conta. E você tem que perguntar a si mesmo como você será lembrado. Como um dos três gigantes da internet junto com Steve Jobs e Bill Gates, que enriqueceram o nosso mundo e nossas sociedades ou, por outro lado, como o gênio que criou um monstro digital que está destruindo nossas democracias e sociedades. É algo que você tem que se questionar", provocou Verhofstadt. No formato em que a reunião se deu, com todos os parlamentares levantando questões em série, o CEO do Facebook não teve chance de replicar Verhofstadt.

Zuckerberg manteve o mesmo roteiro que desempenhou nas outras reuniões com congressistas nos Estados Unidos: ao ler seu depoimento inicial, pediu desculpas pelo protagonismo do Facebook ao escalar notícias falsas e pela interferência de agentes estrangeiros nas eleições e pelo uso indevido dos dados de usuários - afinal, todo o escrutínio que o Facebook tem enfrentado desde março deste ano veio na esteira do escândalo com a consultoria Cambridge Analytica, que teve acesso a dados de 87 milhões de usuários do Facebook para direcionar propaganda política personalizada. A mesma consultoria, que já declarou falência, atuou na campanha do presidente norte-americano Donald Trump e na campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia.

GDPR, fake news, eleições

O depoimento desta semana acontece em um momento crucial para os países da União Europeia. Isso porque entra em vigor no dia 25 de maio o General Data Protection Regulation (GDPR), a nova lei de proteção de dados que dará maior segurança às informações pessoais de cidadãos europeus. A nova legislação exige uma série de cumprimentos para empresas de tecnologia, como o Facebook e Google, operarem dados de seus usuários. As penalidades para aqueles que burlarem o GDPR podem ser altas, já que dá aos reguladores a possibilidade de multar companhias em até 4% de suas receitas globais.

Como era esperado, Zuckerberg foi questionado sobre o compromisso do Facebook quanto ao GDPR e, em resposta, disse que uma boa parte dos usuários europeus da rede social já passaram pelo "fluxo" de perguntas que visam jogar maior transparência na forma como o Facebook opera dados sensíveis dentro da plataforma, assim como o seu modelo de negócios. 

A AI irá salvar o Facebook?

Zuckerberg novamente tirou da manga a sua carta coringa: a inteligência artificial resolverá a maioria dos problemas que o Facebook tem enfrentado como fake news, contas falsas e spams e, provavelmente, endereçará uma nova onda de efeitos colaterais que a plataforma poderá vir a contextualizar. Uma vez que a companhia tem trabalhado para lançar uma série de recursos e compromissos para "reconquistar" a confiança do usuário,  Zuckerberg se muniu de alguns números que já haviam sido apresentados pelo Facebook anteriormente, incluindo, aqueles que refletem que o Facebook conseguiu suspender milhões de apps que abusam de dados de usuários, assim como contas falsas, além das parcerias da plataforma com agências independentes para checar fatos. No Brasil, este trabalho é feito com a Agência Lupa e Aos Fatos.

O executivo também foi político ao responder questionamentos sobre se o Facebook tomou para si um monopólio - ele detém WhatsApp, Messenger, Instagram - e sobre uma possível regulação do serviço. 

"Acho que a pergunta aqui não é sobre ter ou não uma regulação, mas qual é a regulação certa aqui", disse Zuckerberg ainda afirmando que algum tipo de regulação seria inevitável. Em sua fala, defendeu uma regulação que possa ser flexível a ponto de não impedir que novas tecnologias sejam desenvolvidas por startups, assim como uma que não mine a criação de jovens que, da mesma forma que ele, se lançam em seus dormitórios de faculdade para construir novos negócios, lembrando a própria a gênese do Facebook.