Tudo o que o Facebook anunciou desde o vazamento de dados de 87 milhões de usuários

Por Carla Matsu
10 de abril de 2018 - 10h52
Mudanças nos APIs, alterações nas políticas de anúncios, desculpas, privilégios de recursos e promessas; tentamos compilar tudo o que rolou desde a revelação de que o Facebook não protegeu tão bem aquilo que chama de 'comunidade'

Talvez, se pudesse voltar no tempo, Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, teria feito algumas coisas diferentes. Mas apesar de ter acesso a uma base global de mais de 2 bilhões de usuários e ter se tornado um dos homens mais ricos do mundo, Zuckerberg mal pode prever que algumas brechas na política de uso de dados e privacidade da rede social resultaria no pandemônio digital e corporativo que a sua companhia tem enfrentado nas últimas semanas. Desde que estourou o escândalo envolvendo o uso indevido de dados de 50 milhões de usuários (depois revisado para 87 milhões) pela consultoria política Cambridge Analytica, a gigante rede social teve suas estruturas abaladas, chegando a perder cerca de 100 bilhões de dólares em seu valor de mercado. 

Nesta terça-feira (10), Zuckerberg fala ao Senado americano e a expectativa é que ele contorne a história para evitar uma regulação nos moldes da europeia GDPR (General Data Protection Regulation), que entra em vigor em 31 de maio. O próprio Zuckerberg já havia declarado que pretende aplicar regras semelhantes ao GDPR em mercados globais do Facebook, mas evitou dizer quais seriam as exceções.

Uma breve recapitulação 

A dor de cabeça de Zuckerberg começava no dia 17 de março quando reportagens publicadas pelo jornal The Guardian e The New York Times davam voz a um ex-funcionário da Cambridge Analytica, Cristopher Wyllie. Em suas entrevistas, Wyllie detalha como a sua ex-empresa usou dados de 50 milhões de perfis, adotando o método conhecido como “psicografia”, para direcionar o voto dessas pessoas em Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016. 

A CA teria trilhado seu caminho até esses milhões de perfis ao comprar uma base de dados coletada pelo pesquisador Aleksandr Kogan. Foi ele quem criou o aplicativo em questão, o "This is your digital life", que se propunha a definir a personalidade dos respondentes com o preço implícito de coletar informações pessoais dos mesmos. A grande brecha que se fala aqui é que, na época em que foi compartilhado o app, em 2014, a política de privacidade do Facebook permitia que apps de terceiros pudessem também coletar informações da rede de amigos de usuários. Foi assim que Kogan e a CA conseguiram escalar essa base para milhões de pessoas. 

“Quebra de confiança”

O silêncio de Mark Zuckerberg ao escândalo gritou em toda a imprensa internacional. Afinal, o executivo de 33 anos não reagiu de imediato e demorou quase cinco dias para se posicionar e pedir desculpas.   

"Isso foi uma quebra de confiança entre [Aleksandr] Kogan, Cambridge Analytica e Facebook. Mas também foi uma quebra de confiança entre o Facebook e as pessoas que compartilham seus dados conosco e que esperam que nós os protejamos. Precisamos corrigir isso. Temos a responsabilidade de proteger seus dados, e se não conseguimos, então não merecemos servir vocês", escreveu Zuckerberg em depoimento publicado em sua página pessoal.

#DeleteFacebook

Um levante de usuários começou a questionar se não seria a hora de abandonar a rede social. A campanha #DeleteFacebook assumiu trending topic no Twitter e alguns executivos, empresários e pesquisadores chamaram atenção para o fato e colocaram mais pressão na ferida da rede social. 

O ex-agente da CIA, Edward Snowden, teceu uma série de críticas. No Twitter, ele publicou: "O Facebook faz dinheiro explorando e vendendo os detalhes íntimos da vida privada de milhões de pessoas, muito além dos detalhes que voluntariamente partilhamos. Eles não são vítimas. Eles são cúmplices". Elon Musk, da Tesla e SpaceX, removeu as páginas oficiais de suas companhias do serviço.

Mudanças

O Facebook reagiu e começou a anunciar uma série de mudanças a tempo de chegar ao Congresso americano na tentativa de mostrar que a rede social oferece uma plataforma confiável aos seus 2 bilhões de usuários. 

Já no primeiro pedido de desculpas de Zuckerberg - ele deu uma série de entrevistas onde reiterava sua responsabilidade no caso - o presidente do Facebook disse que realizaria um pente fino nos aplicativos de terceiros e reformularia, digamos, as letras miúdas de seu serviço.

Na semana passada, anunciou que começou a atualizar seus Termos de Serviço em uma "linguagem mais simples de compreender". Além disso, a política de dados também seria atualizada para detalhar melhor quais dados são coletados, e como os mesmos são usados pelo Facebook, Instagram, Messenger e outros produtos. 

Uma das principais mudanças iniciadas desde a promessa de Zuckerberg diz respeito aos APIs da plataforma. A rede social suspendeu acesso a tais APIs para novos desenvolvedores, por enquanto. Além disso, todos os apps que já possuem acesso ou buscam obtê-lo passarão por uma revisão e enquanto ela estiver a caminho, eles não têm acesso às APIs. Essas mudanças refletiram em alguns aplicativos populares, entre eles o Tinder. Usuários deste reportaram que perderam todo o histórico de conversas e "matches". 

Mas a maior pedra no caminho do Facebook diz respeito a sua política de anúncios. Afinal, a companhia é uma empresa cujo modelo de negócios é, essencialmente, baseado em dados. Daí um dos principais desafios de Zuckerberg e cia para evitarem uma regulação da plataforma. Na semana passada, o executivo informou que a rede social passaria por importantes alterações na forma como opera publicidade, em especial, para conter propaganda política eleitoral e fake news. As mudanças vêm para colocar um rastro digital naqueles que impulsionam anúncios. Entre as mudanças, o Facebook agora vai exigir a confirmação de identidade e localização dos anunciantes que veicularem propagandas políticas. 

Outras polêmicas

Em toda a história do Facebook, a rede social não tinha passado ainda por tamanha reavaliação. Sob as sombras do escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, uma lupa foi posta sobre a operação da empresa, assim como suas intenções. Entre os efeitos colaterais, descobriu-se que o Facebook monitora as conversas e links enviados pelos seus usuários no Messenger. 

Usuários e o mercado também levantaram as sobrancelhas quando chegou a notícia de que Mark Zuckerberg e outros altos executivos tinham o privilégio de apagarem as mensagens enviadas pelo Messenger. Para compensar o estrago, a companhia anunciou que um recurso para apagar mensagens enviadas também estaria disponível para todos os usuários globalmente. 

Uma declaração recente de Zuckerberg também foi criticada. Em entrevista, ele disse que vislumbrava a criação de uma estrutura independente que pudesse decidir o que pode ser publicado na plataforma - uma espécie de estratégia para conter fake news.  A medida foi entendida como censura e, bem, certa tirania.

Depoimento ao Congresso

Na manhã desta terça-feira, Mark Zuckerberg irá pela primeira vez ao Congresso dos Estados Unidos. Ele responderá a questionamentos de senadores sobre como a rede social protege a privacidade de seus usuários e deve discutir os efeitos da plataforma sobre a democracia. Amanhã, quarta-feira, será a vez de falar diante do Comitê de Energia e Comércio, este já liberou o testemunho que será dado pelo executivo

Neste documento, Zuckerberg, novamente assume responsabilidade: “Agora está claro que não fizemos o suficiente para evitar que essas ferramentas fossem usadas para o mal também. Isso vale para notícias falsas, interferência estrangeira em eleições e discursos de ódio, mas também para desenvolvedores e privacidade de dados. Não tivemos uma visão ampla o suficiente da nossa responsabilidade, e isso foi um grande erro. Foi um erro meu e eu sinto muito. Eu comecei o Facebook, conduzo e sou responsável pelo que acontece aqui”, escreveu Zuckerberg.