É o momento certo para abrir uma startup no Brasil, diz sócio da Y Combinator

Por Carla Matsu
07 de novembro de 2017 - 17h27
Em entrevista, Geoff Ralston fala sobre a experiência em acelerar startups como Airbnb e elenca alguns conselhos: confie em pessoas incríveis para fazer coisas incríveis

Para Geoff Ralston, um dos pioneiros da Internet, identificar uma startup que poderá virar uma empresária bilionária é quase como prever o futuro. O empreendedor, investidor e um dos sócios da aceleradora Y Combinator não tem no currículo, aparentemente, habilidades clarividentes ou telepáticas. Mas ele recorre a uma bola de cristal para fazer a analogia: "Nós temos que olhar para o fundador de uma startup e olhar para a nossa bola de cristal e decidir se a história que ele conta sobre o futuro faz sentido", diz Ralston em entrevista ao IDG Now! 

A Y Combinator, também conhecida como YC, é uma das aceleradoras mais concorridas do Vale do Silício. Ela tem em sua extensa turma de graduados nomes como Airbnb, Reddit e Dropbox. Desde 2005, já acelerou mais de 1.464 startups e segundo informações da própria aceleradora, as startups que por lá passaram, combinadas, possuem valor de mercado de cerca de US$ 80 bilhões. A companhia seleciona startups em estágio inicial para um programa de três meses e um apoio financeiro de 120 mil dólares. Em troca, fica com 7% do negócio.

Previsões do futuro à parte, Ralston defende que, no final do dia, identificar o potencial de uma jovem empresa de tecnologia diz mais respeito às pessoas. "Acreditamos que há certas pistas de quem são aqueles que têm mais chances de fazer com que a história que eles contam se torne realidade no futuro", pondera. Além do produto que uma startup apresenta, a YC busca analisar o fundador e sua equipe: - eles são realmente convincentes de uma companhia que quer ser uma startup de 1 bilhão de dólares? Ralston elabora: "eles se parecem com pessoas que sobreviveriam aos altos e baixos dos desafios inevitáveis que as startups sofrerão? Eles parecem ser determinados o suficiente? Resilientes? Intelectualmente capazes de navegar terrenos complexos?". Bem, se a resposta for sim, as chances de uma empresa ser aprovada no processo seletivo da Y Combinator aumentam.

Uma das startups que compõe a rede da aceleradora estadunidense é a brasileira Quero Educação. A startup lançou o Quero Bolsa para lidar com o entrave financeiro do ensino superior no País ao agrupar e mostrar bolsas oferecidas por universidades particulares. De acordo com a Quero Educação, mais de 700 faculdades são parceiras do marketplace e mais de 200 mil estudantes se matricularam em universidades através do programa. Fundada em 2010, em São José dos Campos, a startup já conta com um time de mais de 200 colaboradores. A própria empresa foi declinada duas vezes antes de ser aceita no programa da YC em 2016. Segundo Ralston, cerca de 40% das startups que são aceitas no programa já tinham aplicado anteriormente. O fundador da Dropbox, Drew Houston, entrou na segunda tentativa, conta o sócio da YC.

Ralston esteve no Brasil para participar da CASE, evento de startups e empreendedorismo que aconteceu em São Paulo no final de outubro. Por enquanto, apenas quatro startups brasileiras foram aceleradas pela YC. Pergunto a Ralston se há chances desse portfólio aumentar em breve: "É por isso que estou aqui. Queremos todas as startups brasileiras", diz aos risos. "Por que não ser gananciosos? Nós queremos que todas as startups apliquem a YC. Nós acreditamos que damos a elas uma melhor chance de sucesso."

A seguir, separamos os melhores trechos da entrevista com o investidor e alguns conselhos para aqueles que pensam em empreender. 

IDG Now! - Como o senhor vê o ecossistema de startups no Brasil? É um bom momento para lançar uma startup por aqui?

Geoff Ralston - É um ótimo momento, mas acho que o ecossistema precisa amadurecer. Eu penso que o negócio de venture capital precisa repensar em como financiar essas empresas. Entender o modelo americano, por que tem sido tão bem sucedido e espelhar isso. Aí as startups aqui terão melhor acesso a capital. Crise significa oportunidades. Mudar para a transformação digital significa tanto dor e oportunidade. Pense sobre isso, as coisas mudam e as pessoas estão frustradas, buscando novas soluções. Você pode usar tecnologia para oferecer as soluções. Ao mesmo tempo, as pessoas que têm dinheiro estão muito amedrontadas para dar esse dinheiro. Então, você precisa equilibrar um com o outro. Se você for uma startup, você precisa buscar as oportunidades que são criadas, encontrar uma forma de explorá-las e ao mesmo tempo precisa sobreviver em um contexto onde é difícil encontrar financiamento. É sempre difícil quando há uma crise. Então, as melhores empresas são aquelas que descobrem como prolongar o dinheiro que elas têm e criar soluções que se aproveitem das oportunidades quando uma crise se apresenta. 

IDG Now! A Y Combinator acelerou empresas que hoje são gigantes no setor, como o Airbnb. Quando elas entraram para o programa, já dava para sacar o potencial que elas teriam?

GR - O Paul Graham [um dos fundadores da YC] costuma dizer que uma das formas de resumir as qualidades de um fundador que se torna um titã na indústria é que ele é alguém formidável. Se você conhecer um fundador de uma grande companhia, entenderá o que eu quero dizer. Você poderá pensar 'uau, essa pessoa criou uma empresa incrível, então provavelmente ela deve ser assim'. Mas às vezes, é só a forma como eles olham para você. Eles olham para você de uma forma que se sentem extremamente confiantes naquilo que construíram. E o que é interessante é que esses fundadores nem sempre são formidáveis quando você os conhece pela primeira vez, mas eles crescem e se sentem confortáveis nesse papel. Se você tivesse conhecido Brian Chesky quando ele chegou a Y Combinator, talvez você não dissesse 'uau'. Mas agora quando você o encontra, você vê o CEO do Airbnb, um cara visionário. Negócios estão mudando sempre, quando o Airbnb veio a YC era sobre alugar um quarto em alguns lugares, mas principalmente quando hotéis estavam completamente cheios durante certas temporadas e coisas assim, e bem, ele se tornou o maior hotel do mundo. 

Acontece que quando nós olhamos as oportunidades, às vezes aquela que se torna a oportunidade do futuro não é precisamente a que você pensou, mas aquela que estava bem ao lado. E perceber quando há essas adjacências é realmente difícil, mas é dessa forma que as empresas crescem e é isso que torna nosso trabalho difícil, mas também faz dele real. Quando você olha aquela startup que alguns anos mais tarde você vê o que eles construíram é realmente muito difícil ter previsto aquilo do início. Mas, de novo, é por isso que tendemos a olhar para os fundadores, mais do que entender precisamente o tamanho do negócio. Se a startup conta com um fundador incrível e nós pensamos que a ideia não é assim tão boa, às vezes nós o entrevistamos e investimos de qualquer forma. Confie em pessoas incríveis para fazer coisas incríveis. 

IDG Now! A Y Combinator também assume uma grande responsabilidade ao receber essas startups. O que torna vocês um bom negócio para elas?

GR -  Bem, não é apenas uma coisa. Eu tenho trabalhado com a Y Combinator desde 2011 e com a minha própria aceleradora por cinco anos. Eu dedico muito do meu tempo pensando por que nós acrescentamos valor? E eu penso que algumas companhias não tirariam muito valor da YC, aquelas que já se encontram em certo estágio. Mas aquelas que estão em estágio inicial, eu posso dizer, com modéstia e sinceridade, que aumentamos as chances de sucesso de quase todas as startups, que é a única coisa que você deveria se preocupar se você é um fundador, e a forma como fazemos isso é, parcialmente, com bons conselhos. Nós já vimos muito também, então podemos ajudar as startups a evitarem cair em certas armadilhas que podem acabar ou desacelerar empresas. Nós podemos ajudar startups não apenas pelo benefício da marca Y Combinator, mas também pela rede de 1,4 mil empresas que passaram pela YC e seus fundadores que não são apenas um ecossistema de suporte, mas potenciais consumidores. Eles são como super poderes. 

IDG Now - E o que torna uma startup apta para entrar na YC?

GR - Não é diferente de qualquer outra companhia. Companhias com grandes fundadores que conseguem criar um exemplo de seus negócios, mostrar que estão conseguindo tração no mercado deles. Mas também nos mostrar algo mais profundo, que eles entendem aquele marketplace, que vá mais fundo e de forma mais ampla do que qualquer outra pessoa. Isso não é diferente, é claro, para o Brasil ou para a França, EUA, são os mesmos critérios. O Brasil tem uma vantagem porque o mercado local é enorme, então se você conseguir fazer bem feito no seu mercado, e é você sempre quem tem as melhores chances de fazer melhor no seu mercado, aquele em que você está familiarizado.

IDG Now - O senhor é tido como um dos pioneiros da Internet [Ralston criou o RocketMail, comprado pelo Yahoo e serviu como base para o Yahoo Mail], atuou no mercado corporativo, além de ser um investidor. É o tipo de experiência que te coloca sob um ponto de vista que muitos empreendedores gostariam de conhecer. Você poderia compartilhar algum conselho ou ensinamento com os nossos empreendedores? 

GR - Eu penso que a escolha de construir uma startup é uma boa escolha e se você neste estágio, se você acredita que você é corajoso o suficiente, se você quiser ter o maior desafio da sua vida e da sua carreira, então, você deve seguir em frente. E o que você precisa fazer, é tomar o primeiro passo e um bom primeiro passo é aplicar a Y Combinator, não importa se você não entrar, é de graça. Sim, exige tempo, mas esse tempo será bem gasto, porque fazemos nossas perguntas por uma razão e isso vai te ajudar, irá organizar os seus pensamentos. Então faça de qualquer forma. Tome o primeiro passo.

A segunda coisa que eu diria é o meu conselho para fundadores, as companhias que sobreviveram são aquelas que administraram melhor o seu fracasso, e é algo estranho de se dizer, mas toda startup falha de alguma forma. Algo dá errado com toda startup. Você deve ir a campo sabendo que você terá de sobreviver ao fracasso, e depois de construir a resiliência para lidar com o fracasso e lidar melhor com ele, você terá uma melhor chance de ter sucesso.