Prepara-se para a realidade: criar uma startup dá muito trabalho

Cezar Taurion*
31/08/2017 - 10h46
A realidade é muito dura e cruel. A sua ideia fantástica pode virar pó rapidamente

No dia a dia em mentorias, atuando em várias bancas de avaliação e muitas conversas com fundadores de startups, consegui obter alguns insights interessantes, que compartilho aqui.

Muitas vezes, em um bate-papo com um empreendedor, descobria que ele só tinha uma ideia, mas que achava que ela, por si, criaria um unicórnio. Por mais legal que a ideia seja, ela valerá, no máximo uns 5% do valor do negócio. Os outros 95% são fruto de muito suor, da capacidade de executar a ideia. Uma ideia sem realização é como você estar em um bote no meio do oceano e descobrir que no fundo do mar, a dez mil metros de profundidade, existe um tesouro bilionário. Se você não tiver capacidade e tecnologia para chegar lá, o tesouro vai continuar inacessível. A ideia, é, na prática, uma simples hipótese que você imagina sobre alguma coisa. Ela tem que se provar verdadeira para ter valor.

Para dar certo, uma startup tem que oferecer um produto ou serviço que resolva um problema. Uma startup é uma bactéria que vive e prolifera no problema. Sem um problema real para resolver, não existe a razão de ser da startup. E como achar um problema real? Observe o dia a dia. Se encontrar algo que parece inconveniente ou caro, com percepção de valor desbalanceada, é um problema em potencial em busca de uma solução.

Muito bem, você encontrou o problema e teve uma ideia que vai solucioná-lo. Mas cuidado, não mergulhe direto na criação de um business plan muito detalhado. Um plano de negócios exaustivo, detalhado não é legal, pois acaba engessando a solução, torna sua startup inflexível. E muito provavelmente, a ideia inicial não vai ser a que vai ser implementada. Como disse o marechal de campo prussiano von Moltke, “Nenhum plano de batalha sobrevive ao contato com o inimigo”.

Para um bom exemplo de como a ideia inicial muda significativamente, olhem o Uber. O artigo “Uber's co-founder just shared the company's original pitch deck from 2008 — take a look”, de Garrett Camp, mostra claramente como a proposta do pitch inicial e o que foi realmente implementado é muito diferente.

OK, então sem mergulhar a fundo no plano de negócios, apenas o esboçando, vamos ao pitch. Aqueles discursos que os pitches devem ser de 3 a 5 minutos só valem para despertar atenção para sua startup. Na hora do "vamos ver" onde entra negociação para o aporte financeiro, você tem que estar muito bem preparado e não será após 5 minutos de conversa que o investidor vai colocar dinheiro. Assim, vamos falar um pouco do pitch para você apresentar a investidores. E não desanime se o seu pitch não gerar resultados de primeira. O Airbnb também não conseguiu. Lembre-se que eles tiveram muitas rejeições antes de conseguir o aporte. Você vai estar em boa companhia. Os fundadores do  Google fizeram 350 pitches  e o do Skype 40, antes de conseguirem financiamento de investidores.

Uma sugestão é o pitch deck  proposto pela Sequoia Capital. A sua recomendação de pitch é bem interessante. Basicamente você deve incluir o propósito da empresa (uma única sentença que define o propósito e razão de ser da startup); o problema que será atacado; a solução proposta (alguns exemplos de uso sempre serão bem-vindos); por que agora (porque não existia uma solução antes?); o mercado potencial (qual TAM- Total Addressable Market e como você chegou a ele); a competição (quais são as suas vantagens competitivas); o produto ou serviço (explique as funcionalidades, roadmap e feedback de clientes); como você vai conseguir clientes (qual a estratégia de aquisição de clientes); business model; a equipe (especialidades e responsabilidade de cada um, e se tiver um board, recomendado, indique quem são os seus membros); a motivação do time (que motivou os fundadores e como a equipe encara a ideia como solução para o problema); a situação atual (qual seu status e objetivos de curto prazo); financials (burn rate, captações já efetuadas, etc); a proposta ou deal colocada na mesa; e como o aporte será usado. No final, se tiver uma demo, ótimo!

Recomendações básicas

Nunca leia seus slides para a audiência. As pessoas sabem ler! Não use gráficos complicados, não polua os slides com muita informação e nem crie muitos slides. Quinze slides é um bom número. Em caso de dúvida, use sempre a máxima KISS – Keep it Simple! E, principalmente, seja verdadeiro. Se você está falando com um investidor competente o suficiente para investir na sua startup, ele também será competente o suficiente para identificar as omissões ou informações negativas que você esteja tentando esconder.

Uma outra sugestão: não crie uma startup sozinho. Tenha cofounders com skills complementares, que compartilhem da mesma paixão pelo propósito, que sejam confiáveis e comprometidos. E, importante, que haja respeito mútuo. Lutar uma guerra sozinho é muito mais difícil. Conseguir um bom board de aconselhamento também é uma boa ideia, pois você adquire experiência e passa uma imagem de maior profissionalismo ao mercado. Para obter o máximo de seu board, dê uma olhada no livro “Startup Boards: Getting the Most Out of Your Board of Directors”. 

Relembrando, sua ideia nada mais é que uma hipótese a ser validada. Comece entrevistando potenciais clientes e veja seu interesse. Construa um MVP para ser a prova de conceito de sua hipótese. Modifique-o à medida que obtenha feedbacks, positivos e principalmente, os negativos. Não os ignore. Também não se preocupe em criar um MVP fantástico. MVP significa Minimum Viable Product e não Maximum Viable Product. O fundador do Linkedin, Reid Hoffman, disse “"If You're Not Embarrassed By The First Version Of Your Product, You’ve Launched Too Late"”. É a pura verdade. Timing é importante, se você perder o trem bala, outros terão passado na sua frente.

Criar uma startup dá muito trabalho. A realidade é muito dura e cruel. A sua ideia fantástica pode virar pó rapidamente. Mas, se você tiver resiliência, confiança, eficiência (não gaste dinheiro onde não será absolutamente necessário) e velocidade, suas chances de vencer aumentam exponencialmente. Boa sorte!

 (*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data. Este artigo foi publicado originalmente no site CIO.com.br