Após manifesto anti-diversidade, CEO do Google convoca mulheres à tecnologia

Carla Matsu
11 de agosto de 2017 - 12h28
'Nós precisamos de vocês', disse Sundar Pichai em evento dedicado a programadoras. Fala do executivo acontece uma semana após polêmica envolvendo ex-funcionário

Sundar Pichai, CEO do Google, convocou mais mulheres a se dedicarem ao setor da tecnologia quando participou nessa quinta-feira (10) de um evento dedicado a jovens programadoras. Coorganizado pela fundação Iridescent Learning, a mesma por trás da competição Technovation, a sessão integrou o programa Made with Code, do Google, cuja vocação é incentivar a participação de mulheres no mercado de tecnologia.

"Eu sei que a jornada nem sempre será fácil, mas às garotas que sonham em se tornarem uma engenheira ou uma empreendedora, e àquelas que sonham em criar coisas incríveis: eu quero que vocês saibam que há um lugar para vocês nesta indústria, há um lugar para vocês no Google. Não deixe que ninguém pense o contrário. Vocês pertencem a este lugar. Nós precisamos de você", disse.

A fala de Pichai acontece dias após a controvérsia envolvendo um funcionário da gigante de Mountain View. Em um memorando interno, o engenheiro de software James Damore critica a política de diversidade do Google e argumenta que a divisão de gêneros na indústria seria justificada por diferenças biológicas. O autor questiona a aptidão de mulheres para a área e chega a escrever que o Google não deveria oferecer programas que ajudem minorias. O texto viralizou internamente e, após ganhar repercussão na mídia, Damore foi demitido. Agora, o ex-Googler preencheu uma queixa trabalhista contra a companhia.

O CEO do Google interviu e escreveu, também em comunicado interno: "sugerir que um grupo de nossos colegas possuem traços que fazem deles biologicamente menos capazes para o trabalho é ofensivo e não está certo."

A última aparição pública do executivo acontece após o Google cancelar outra reunião com funcionários, também marcada para a quinta-feira. Segundo o Recode, a ação foi desmarcada após algumas das perguntas de funcionários vazarem, incluindo suas identidades, suas orientações sexuais e inclinações políticas. "Funcionários escreveram, preocupados sobre sua segurança e de que pudessem ser criticados publicamente por suas perguntas", escreveu o CEO explicando os motivos do cancelamento. 

Há anos, gigantes do setor de tecnologia têm trabalhado para endereçar a diferença entre gêneros em suas equipes a medida que a pauta se torna cada vez mais pública. 

Apesar das companhias salientarem seus esforços para criar políticas e programas de diversidade entre seus contratados, mulheres ainda são subrepresentadas no setor, incluindo aí no próprio Google, e especialmente em cargos técnicos. Não faz muito tempo - em abril deste ano para ser mais específico - que o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos alegou que o Google discriminou suas funcionárias ao oferecer uma remuneração a um nível ainda pior do que toda a indústria de tecnologia.  

O caso James Damore "contra a diversidade" tem escalado e, mais uma vez, ressalta o porquê é preciso exaurir o tema. O engenheiro recebeu apoio de muitas pessoas, incluindo empreendedores do Vale do Silício, e muitos dos funcionários do Google disseram que ele não deveria ter sido demitido. À Bloomberg News, Damore disse que se sentiu, de alguma forma, traído pela companhia. 

Em artigo escrito para a Fortune, Susan Wojcicki, CEO do YouTube (que é de propriedade do Google), criticou o memorando de Damore. A executiva questiona: "e se substituíssemos a palavra "mulheres" por outro grupo? E se o memorando dissesse que as diferenças biológicas entre os funcionários negros, hispânicos ou LGBTQ explicassem sua subrepresentação em cargos de tecnologia e de liderança? Algumas pessoas ainda estariam discutindo o mérito dos argumentos do memorando ou haveria um apelo universal para uma ação rápida contra seu autor? Eu não digo isso para comparar um grupo a outro, mas sim para apontar que o idioma da discriminação pode assumir muitas formas diferentes e nenhum é aceitável ou produtivo", argumentou.