Startups deveriam ter leis e regras diferentes, diz presidente da ABStartups

Por Carla Matsu
08 de fevereiro de 2017 - 18h01
Em entrevista, Amure Pinho avalia o ano de 2016 para as startups e defende a criação de uma identidade jurídica para empresas de tecnologia iniciantes
O ano de 2016 foi um ano difícil para a maioria das empresas no Brasil. Diante de um contexto de instabilidade política e econômica, muitas companhias precisaram rever e enxugar seus orçamentos.
 
Nesse cenário, startups com seus modelos mais enxutos conseguiram despontar como a grande menina dos olhos para o setor público e o setor privado que viram nessas empresas iniciantes uma saída mais econômica e ágil para inovar.

Segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), o Brasil conta com mais de 4 mil jovens empresas, número registrado na StartupBase, banco de dados da associação, que recebe atualização constante.
 
Para Amure Pinho, CEO da startup Blogo, investidor-anjo e presidente da ABStartups, o ano de 2016 foi um ano bom para "separar o joio do trigo". Startups que apresentavam modelo de negócio sólido sobreviveram a crise e poderão, em 2017, aproveitar um ano de maior estabilidade e crescimento. 
 
Na entrevista exclusiva ao IDG Now!, Pinho avalia o ano de 2016 para o segmento de startups, critica as dificuldades de se empreender no Brasil e avança em dizer que 2017 será um "ano de bonança" para as empresas iniciantes.

IDG Now! Como você avalia o ano de 2016 para as startups?
Amure Pinho - Passamos por uma crise política econômica que ficou evidente para todo mundo. E mesmo dentro desse contexto, as startups continuaram crescendo, captando grana, mostrando efetivamente que existia crescimento no segmento. Em momentos de crises, empresas buscam ferramentas e soluções para justamente ter ganho de performance, redução de custo, etc, e as startups são exatamente isso, elas vêm para mudar um modelo padrão, com uma proposta nova e eficiente. Então, foi um ano que mostrou muita validação para esses modelos disruptivos, que é possível investir em modelos de negócios inovadores no Brasil e as startups foram um reflexo disso.
 
IDG Now! As startups brasileiras têm se mostrado mais maduras nos últimos anos?
Acho que 2016 foi um ano para separar o joio do trigo. Aquelas startups que tinham muitas ideias legais, mas pouca entrega de negócio quebraram, porque o mercado não estava bom para ninguém, então não tinha dinheiro para bancar ideia, bancar sonhos. Sobraram aquelas que estavam com modelo de negócio operando. Houve uma participação muito maior do poder privado e do poder público. As empresas começaram a ver nas startups um sinônimo de inovação, o resultado disso é que elas começaram a investir mais em programas próprios, a portar mais investimentos em empresas, a comprar das startups. O mercado público também lançou iniciativas para startups. Então, isso começa a atrair mais mídia e mais gente falando sobre exemplos reais de geração de valor. Isso, de certa forma, trouxe uma sensação de maturidade do mercado e pode-se falar que hoje as startups que nascem são um pouco mais maduras, nascem um pouco mais com o pé no chão. As startups hoje realmente têm potencial para serem um grande motor de geração de novos postos de trabalho, de riqueza e da economia do Brasil, da inovação. 
 
IDG Now! No Brasil, nossas startups têm se despontado para atender mais alguma vertical ou nosso ecossistema está bem horizontal em relação às demandas do mercado tanto corporativo quanto consumidor final? 
Existe um nicho no Brasil que é o de oferta de serviços, que é uma natureza brasileira. Existe um grande número de startups que transforma tecnologia em serviço. De certa forma, o mercado B2B acaba sendo mais escolhido no Brasil para as startups entrantes. Mas existe um certo equilíbrio nisso e isso muda muito ao longo de um ou dois anos. Há quatro anos, startups de educação eram a grande cereja no bolo. E por definição, startups de educação tem um pouco de pegada mais em B2C. Mas passou-se um ou dois anos, e startups da área médica acabaram chamando muita atenção, sendo essas um pouco mais voltadas para o B2B. No ano passado, foi a vez das fintechs e com pegada mais B2C. Esse ano, as startups apresentam uma aproximação da indústria, um setor predominantemente B2B. Isso altera muito, mas eu diria que o Brasil é um país com maior base B2B e que não tem como definir se é um segmento fashion, de tecnologia, industrial, fintech, a cada ano isso muda um pouquinho e esse termômetro acaba sendo dividido. 
 
IDG Now! É difícil fazer a comparação com o Vale do Silício, tendo em vista que nosso ecossistema é mais novo e estamos inseridos em um contexto distinto. É realmente mais difícil empreender no Brasil?
É muito difícil fazer essa comparação [com o Vale do Silício], mas a grande real é que é muito mais difícil empreender, é muito mais burocracia, muito mais difícil fechar uma empresa do que abrir, é muito mais difícil contratar alguém na legalidade devido a carga tributária. É muito mais difícil porque não existe uma classificação do que é uma startup perante ao que é um simples. As startups aqui no Brasil são tão boas quanto em qualquer outro país. Nós temos oportunidades tão boas como temos lá fora? Sim, em alguns casos até maiores. Temos dinheiro tão abundante como lá fora? Não. Aí começamos a ver as diferenças. O cara que consegue empreender aqui é um vitorioso. Mas eu acho também que isso está melhorando, quando a gente consegue criar leis que apoiam investimento anjo, leis que isentam o investidor de possíveis passíveis daquela empresa, quando a gente discute a criação de uma identidade jurídica para startups ou uma S/A diferenciada para ter um simples diferenciado, aí eu acho que você começa a criar coisas que multiplicam esse potencial empreendedor no Brasil.  A gente não quer que fique fácil para gente, só queremos que seja entendido que startups são um organismo diferente de uma padaria, de uma consultoria de advogados. As startups são empresas, por definição, de base tecnológica, que usam tecnologia e novos conceitos de negócio para ganhar escala e conseguir realmente criar um modelo de negócio replicável e escalável. Dado que a natureza é diferente, então startups deveriam ter regras e leis diferentes, possibilidades diferentes, impostos diferentes, facilidades para abrir e fechar empresas. São coisas que estamos lutando para criar um ecossistema que seja mais fértil. 
 
IDG Now! Como você vê as startups em 2017, será um bom ano para startups no Brasil?
Eu acredito que será um ano melhor. Então, se com a crise em 2016, as empresas sobreviveram a isso, 2017 que promete ser um ano de maior estabilidade, acredito que a gente vai poder aproveitar melhor as oportunidades, quem passou por 2016 e está fortalecido, quem passou pela crise, vai conseguir aproveitar a bonança. Se em 2016 foi um ano de provar as coisas, 2017 vai ser um ano de consolidar isso em números e gerar riquezas, gerar capital, gerar crescimento.