A internet está mesmo matando os jornais? Nos EUA, redações encolhem 60%

Silvia Bassi
06/06/2016 - 07h04
Dados sobre demissões e redução de postos de trabalho estavam espalhados. Até agora. O governo norte-americano juntou os números e são assustadores

Imagine uma indústria qualquer encolher 60% seus empregos em 25 anos. Vai sumir, dirá você. Espero que não, porque estamos falando da indústria de jornais. Ou, pelo menos, estamos falando dos jornais nos Estados Unidos, que entre junho de 1990 e março de 2016 despencaram de 458 mil pessoas empregadas para 183 mil, uma redução brutal de 275 mil postos de trabalho, 11 mil demissões ao ano (!).

A indústria de periódicos (revistas) foi um pouco "melhorzinha": saiu de 150 mil empregos em dezembro de 1990 para 93 mil empregos em março de 2016. Queda de 38% em 25 anos, perda de 57 mil postos de trabalho. Cerca de 2,3 mil demissões por ano.

jornais e revistas eua

Até agora, esses dados estavam separados, espalhados por notícias eventuais publicadas em diferentes fontes de informação. O que mudou é que o Departamento de Estatísticas de Trabalho dos EUA (U.S. Bureau of Labor Statistics), juntou todos os dados sobre a indústria de mídia e publishing do país em um só grande (e apavorante) gráfico interativo.

O estudo do governo norte-americano mostra que, em contrapartida, houve aumento dos postos de trabalho na indústria de mídia online Os dados são bem animadores, mas o crescimento ainda não é suficiente para amparar a queda de empregos do outro lado. Segundo o estudo, nesse período os empregos digitais saltaram de 30 mil para 198 mil postos. Crescimento de 6,6 vezes em 25 anos, gerando 168 mil novos empregos. Falta achar vagas ainda para os 164 mil profissionais que ficaram de fora.

Esse é o fim da mídia, como a conhecíamos até agora, não vamos esquecer disso. A fuga da receita de publicidade e assinaturas em mídia tradicional causou um estrago inimaginável em uma indústria que foi arrogante o suficiente para não enxergar o que queriam seus leitores e para onde queriam ir. Bom para Google, Facebook e outros outlets online que se transformaram em empresas de mídia, captando com o paid search inicialmente (busca e links patrocinados) a receita que os jornais perderam com classificados (o primeiro muro a cair).

Mas é possível que a mudança positiva venha nos próximos anos.  A mídia tradicional está mais "safa" e acha seus caminhos de monetização a partir das suas propriedades online que tendem a crescer e gerar receita com publicidade e com assinaturas. Pelo gráfico abaixo, você vê que a curva de queda da mídia tradicional se encontra com a curva ascendente da mídia online por volta de setembro de 2015. E percebe também que a curva de crescimento é bem acentuada, sinalizando aceleração.

MIDIA ONLINE EUA

O gráfico do ministério do trabalho dos EUA é muito detalhado e mapeia as quedas de todas as verticais desse setor afetadas pela internet e a mídia digital. Nada no entanto caiu tanto quanto jornais. Livros reduziram em 35% seus postos de trabalho, e o rádio teve queda de 27%.

Alguém cresceu? Sim, o mercado de produção de vídeos e filmes acelerou, decolando de 92 mil vagas em 1990 para 239 mil em março de 2016, um crescimento de 162%. O mercado de TV a cabo teve ligeiro crescimento, indo de 51 mil postos de trabalho em 1990 para 64 mil em março de 2016.

O crescimento do mercado de publishing online, somado com o crescimento de vídeo e filmes aponta que há um cenário melhor para os profissionais que perderam seus empregos nas redações dos jornais tradicionais nos Estados Unidos, embora a pergunta seja quanto mais ainda essa linha de queda dos newspapers vai continuar. O gráfico será atualizado constantemente, para satisfação da nossa curiosidade mórbida.

Falta agora mapear o Brasil...