Suzana Herculano-Houzel deixa o Brasil para ser pesquisadora nos EUA

Da Redação
04/05/2016 - 13h28
Em artigo na revista Piauí, renomada neurocientista brasileira expõe deficiências e obstáculos para condução da pesquisa científica no País

Uma das cientistas mais renomadas do País, Suzana Herculano-Houzel, anunciou que está para deixar o Brasil para assumir o posto de professora dos departamentos de Psicologia e Ciências Biológicas da Universidade Vanderbilt, em Nashville, Tennessee (EUA).

Em artigo à revista Piauí, Suzana se diz frustrada com as condições para a prática da ciência no Brasil e elenca os motivos que a levaram deixar o país. Assinantes do veículo podem ler o artigo na íntegra publicado na edição de maio.

Como pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, ao qual até então estava vinculada, Suzana coordenou estudos responsáveis pela compreensão dos cérebros de dezenas de espécies de mamíferos, além de método que simplificou a contagem do número de neurônios do cérebro humano. 

Recentemente, a pesquisadora comemorou a publicação de um estudo 100% brasileiro na revista Science, onde detalha fórmula que explica as dobras no córtex cerebral de mamíferos, questão que se encontrava ainda aberta na neurociência.

Em outro artigo para a Piauí, no ano passado, a pesquisadora reclamou de obstáculos para o estudo, como a burocracia para a importação de reagentes e financiamentos prometidos e não honrados. A cientista explicou que, apesar de seus projetos terem financiamento aprovado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado Rio de Janeiro), a verba não foi liberada de fato. 

Como saída, Suzana chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para continuar com a pesquisa, para depois encabeçar campanha de financiamento coletivo para levantar recursos para seu laboratório na UFRJ. Em dois meses, a cientista conseguiu levantar R$ 113 mil, recursos que permitiram bancar o laboratório por cinco meses. 

“Além do lado do prático do crowdfunding - levantar recursos para não ter de interromper a pesquisa - tem o lado da mensagem ao Governo de que as pessoas não só se importam com a ciência feita no Brasil, que têm orgulho em contribuir, mas que também querem ver a ciência valorizada”, ressaltou em entrevista ao IDG Now na ocasião da campanha de crowdfunding.

No recente artigo para a Piauí, Suzana escreve: “Salvo raras exceções, financiadas pela riqueza do estado de São Paulo ou por instituições privadas como o hospital paulista Albert Einstein ou o Instituto D’Or, no Rio, a ciência no Brasil é apenas suficiente para criarmos jovens minimamente preparados para manter vivo o espírito científico e transferir conhecimento para as próximas gerações, na esperança de que um dia elas possam ter recursos para desabrochar e finalmente competir de igual para igual com os estrangeiros – porque competência, vontade e capacidade de inovação não nos faltam; só faltam condições”.

Suana tem sete livros publicados e o mais recente deles, "The Human Advantage" – acaba de sair pela MIT Press e não tem data prevista de publicação no Brasil.

No ano passado, a neurocientista foi convidada para se tornar pesquisadora da Universidade Vanderbilt, oferta que incluía salário "confortável", estabilidade, laboratório maior que tinha na UFRJ e apoio de máquina administrativa eficaz, segundo informações da Piauí. Seu contrato com a universidade americana começa a valer no dia 16 de maio.