Por que o streaming de vídeo nunca será igual ao streaming de música

PC World / EUA
11 de março de 2016 - 16h31
Enquanto plataformas como Spotify e Apple Music contam com dezenas de milhões de músicas, o mesmo está longe de acontecer com aplicativos como o Netflix.

É sexta-feira à noite, e você quer apenas relaxar após uma longa semana de trabalho. Você liga sua Apple TV e abre o Netflix para encontrar um filme para assistir. Talvez você goste do Denzel Washington e queira ver um dos seus grandes filmes. Busca pelo nome do ator, e o que acha? Quatro filmes, não os seus melhores. Nada de Malcom X, Filadélfia, Hurricane ou Dia de Treinamento. O serviço possui O Voo, mas nada de O Gângster. 

Mas, se por outro lado, você quiser ver os discos mais novos no Spotify ou no Apple Music, basta ver a aba de lançamento. Terá quase todos os grandes sucessos, em todos os principais gêneros, juntamente com os catálogos completos da maioria dos artistas. Quer ouvir um disco antigo dos Rolling Stones? Sem problemas.

Por que essa diferença? Por que há tanta música disponível para streaming e tão poucos filmes e séries?

Quantas músicas e filmes?

Quando você pesquisa sobre um serviço de streaming de música, todos tentam te impressionar com a quantidade de músicas que possuem. O Apple diz ter mais de 30 milhões de faixas, o Spotify afirma o mesmo e o Deezer alega possuir cerca de 40 milhões.

Mas os serviços de streaming de vídeo (aqueles com uma taxa mensal por streaming ilimitado, como Netflix e Amazon Prime Video) não tem tanto orgulho assim de citar o tamanho dos seus catálogos. A Amazon alega ter 15 mil filmes e episódios de TV disponíveis como parte do Amazon Prime Video– mas no lançamento do serviço no Reino Unido foram contabilizados 2.269 filmes e 938 séries – a empresa contabiliza cada episódio de uma série de TV como um dos seus 15 mil títulos. Segundo o FlixList, o Netflix também possui cerca de 15 mil títulos nos EUA – contabilizando da mesma forma que a Amazon.

Claro, os serviços de streaming contam o número de músicas e não de discos – de maneira parecida com que Amazon e Netflix contabilizam as séries de TV – mas se você presumir uma média de 10 faixas por disco, ainda serão três milhões de álbuns em comparação com menos de três mil filmes.

E se a Apple entrasse no segmento com um serviço de assinatura de streaming de vídeo? Será que teria mais títulos disponíveis? Muito provavelmente não.

Janela de lançamentos

A grande diferença entre os dois tipos de streaming é o licenciamento. Enquanto é fácil para uma gravadora (pequena ou grande) lançar um disco para streaming no Apple Music ou Spotify, os lançamentos de filmes obedecem uma lógica que só é compreendida pelos contadores criativos de Hollywood. Os filmes e programas de TV são lançados de uma forma bizantina para se beneficiar do “windowing” (diferentes formas de lançamentos em várias plataformas), que permite aos produtores explorar o seu trabalho da forma mais eficiente possível. Cada passo do cronograma de lançamento possui retornos muito diferentes, e é calculado para gerar o maior lucro possível. 

Com um disco, o cronograma de lançamento costuma ser o seguinte: lançar o CD/vinil, download e streaming ao mesmo tempo.

Existem algumas exceções, mas não muitas. Nem todos os artistas liberam seus discos para streaming, e algumas gravadoras não “jogam o jogo” do streaming. E um artista pode escolher primeiro vender seu disco em CD e download, e só depois de algum tempo liberar para streaming, como a Taylor Swift fez recentemente. Mas com a maioria das músicas, o cronograma de lançamento costuma ser tudo ao mesmo tempo.

A “janela” de lançamento dos filmes, por outro lado, costuma seguir um cronograma muito mais complexo, que é parcialmente baseado na história da distribuição dos filmes.

-Lançamento nos cinemas, que dura cerca de quatro meses

- Lançamento em DVD/Blu-Ray, assim como VOD (vídeo sob demanda); esses são exclusivos por alguns meses

-Disponibilidade na TV paga, geralmente a partir de seis meses após o lançamento, durando potencialmente por quatro anos

-Liberação para a TV aberta

-Serviços de vídeo sob demanda por assinatura/streaming ilimitado

Esse cronograma é diferente para filmes que vão direto para o Netflix, por exemplo, ou filmes e séries produzidas por Netflix, Amazon, Hulu e outros serviços. Além disso, após algum tempo, os filmes e séries de TV são retirados dos serviços de streaming, para (quem sabe) continuar a vender DVDs e Blu-Rays. É por isso que um filme que você adicionou à sua lista de desejos no mês passado pode desaparecer quando você finalmente conseguir sentar para assisti-lo.

E esse sistema de “janela de lançamentos” pode ficar ainda mais complexo já que recentemente tivemos filmes que foram lançados no Netflix antes ou juntamente com a sua chegada aos cinemas. Por isso, esse sistema está passando por mudanças. Mas vai demorar um bom tempo antes que você possa fazer streaming de qualquer filme que quiser. A quantidade de dinheiro envolvida em um filme costuma ser muito mais alta do que a empregada para fazer um disco, e os contadores de Hollywood vão certificar-se de que podem otimizar suas receitas em cada passo.

Enquanto isso, você vai continuar gastando aquela “hora Netflix”, o tempo que você passa buscando um filme para assistir no seu serviço de assinatura, antes de desistir e alugar um filme na iTunes Store.