Facebook fez experimentos secretos com emoções de 689 mil usuários

Silvia Bassi
30/06/2014 - 02h52
Cientistas da rede social manipularam o newsfeed de centenas de milhares de usuários para estudar como posts afetariam seu estado emocional coletivo

Já não bastassem as críticas sobre o pouco caso com a privacidade dos seus usuários, agora é público que o Facebook também se acha no direito de, em nome da ciência, mexer secretamente com o estado emocional e psicológico de milhares de frequentadores de suas páginas e fazer de todos nós "ratos de laboratório de cientista maluco".

Segundo reportagem publicada pelo site A.V. Club, os cientistas da rede social manipularam, em janeiro de 2012, o algorítimo que controlava o tipo de posts mostrados no newsfeed de 689 mil usuários do Facebook para verificar se e como o que eles viam na sua linha do tempo afetava seu estado emocional. Isso, claro, em nome da ciência.

Os resultados do estudo foram publicados na forma de um paper com o título de “Experimental evidence of massive-scale emotional contagion through social networks” (Evidência experimental de contágio emocional em massa via redes sociais) na revista científica The Proceedings Of The National Academy Of Sciences. O estudo é assinado por Adam Kramer, cientista de dados do Facebook; Jamie Guillory, do Tobacco Control Research and Education da Universidade da Califórnia; e Jeffrey Hancock, do Departamento de Comunicação e Ciência da Informação da Universidade de Cornell.

Emoções manipuladas

Especificamente o estudo demonstra como os pesquisadores mexeram nos posts regulando o número de termos negativos ou positivos que apareciam na lista de notícias de diferentes grupos de usuários selecionados ao acaso. O Facebook então analisava os posts escritos posteriormente por esses mesmos usuários ao longo de uma semana para ver se as pessoas respondiam emocionalmente a esses estímulos gerando posts mais positivos ou negativos, averiguando portanto se estados emocionais podem ser transmitidos em massa por uma rede social.

O resultado é que podem! Os cientistas malucos do Facebook constataram que as pessoas espelham emoções negativas ou positivas que seus amigos expressam e as refletem em seus posts. Grupos de pessoas que viram mais posts positivos que negativos passavam a se expressar de forma mais positiva, enquanto que o oposto também aconteceu.

Facebook responde

O cientista de dados do Facebook, Adam Kramer ( Danger Muffin), respondeu aos protestos e críticas enfurecidas sobre o estudo publicadas no final de semana com um post oficial declarando que "a razão por termos feito esse estudo é por que nós nos preocupamos com o impacto emocional do Facebook e com as pessoas que usam nosso produto".

Kramer diz que a equipe "sentiu que era importante" investigar a suspeita de que ver amigos publicando coisas boas levaria as pessoas a se sentir bem. Mas também admite que "estávamos preocupados que a exposição ao negativismo de amigos pudesse levar as pessoas a evitar visitar o Facebook".

Pelo menos agora sabemos que todo o yada yada científico era para justificar a preocupação de como o Facebook conseguiria evitar perder usuários se o "social graph" ficasse "meio dark", certo? Bastaria mexer um pouco no newsfeed de todo mundo e colocar uma lente rosa na realidade??

Ao final, Kramer usa no seu post a mesma desculpa infantil que o Facebook adota quando é pego no erro: "Embora tenhamos sempre considerado nossas pesquisas com o maior cuidado, nós (não só eu, mas vários outros pesquisadores do Facebook) temos trabalhado para melhorar e revisar nossas práticas internas. O experimento em questão foi feito no início de 2012 e já andamos bastante desde lá. Mas a revisão de nossas práticas internas vai também incorporar o que aprendemos hoje sobre a reação ao nosso paper".

Com mais de 1 bilhão de usuários, um IPO bilionário e já bem velho para posar de startup inocente, era de se esperar que pelo menos o post do cientista de dados do Facebook fosse um pouco mais adulto nas suas explicações. Se em 2014 ficamos sabendo do que foi feito em 2012, o que vamos saber em 2016 que foi feito em 2014?