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Censura: saiba como funciona o 'escudo dourado' do governo chinês na web

Redação do IDG Now!
17/03/2008 - 18h45
São Paulo – Após conflitos no Tibete, China bloqueia YouTube, Google News, BBC e CNN. Confira como funciona o “Grande Firewall" chinês.

china_88A cinco meses do começo das Olimpíadas, a China se encontra em um estado recorrente.

Uma manifestação na região do Tibete organizada por movimentos que apóiam a independência da região para comemorar o aniversário do levante tibetano de 1959 culminou em confrontos de ativistas com oficiais do Governo Chinês.

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Entre dezenas de boatos sobre mortos e feridos, expulsão de jornalistas e incêndios criminosos na região, a internet chinesa foi a primeira a sofrer as conseqüências quase que simultaneamente ao confronto.

Nesta segunda-feira (17/03), autoridades chinesas confirmaram que tanto o YouTube como o Google News estavam na lista de endereços bloqueados pelo programa do Governo Chinês para controlar o que é acessado pelos internautas, colocado em prática em 2003.

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Já controlada pelas autoridades de um governo centralizador contra conteúdos considerados ofensivos ou que possam incitar revoltas populares, a internet chinesa viu suas restrições serem intensificadas, no ápice de um processo de bloqueio e liberação aparentemente sem critério ministrado pelo Ministério de Segurança Pública.

A base está no “Golden Shield”, investimento de cerca de 700 milhões de dólares organizado entre diversos ministérios e agências reguladoras da China que emprega firewalls e gateways para filtrar conteúdo impróprio, bloquear serviços que descumpram leis ou apagar blogs (e levar seus responsáveis pela cadeia) que critiquem a atual administração.

O mercado conhece o conjunto entre hardware que redirecionam tráfego e software que monitora e bloqueia automaticamente conteúdos ofensivos em um “Grande Firewall da China”.

Por meio da plataforma, comprada de fabricantes como a Cisco, o que lhe rendeu protestos do mercado de TI, e desenvolvida por times de engenheiros contratados pelo governo, a China monitora todo o tráfego trocado entre usuários dentro do país ou os estrangeiros que buscam dados em páginas locais.

Tecnicamente, a China conta com um conjunto de servidores abastecidos com as informações acessadas por usuários e copiadas por um sistema de gateways nas fibras ópticas de entrada do sinal de internet no país.

Baseado nas informações analisadas, a China cria uma lista de endereços bloqueados que também serve de base para descobrir novos usuários que serão monitorados especialmente – dada a extensa base de internautas na China, considerada pela consultoria BDA como a maior mundo, o “Golden Shield” não tem capacidade de se concentrar em todos.

São quatro as técnicas usadas pelo “Golden Shield” para prevenir que usuários acessem conteúdos suspeitos. O mais usado, junta problemas de DNS com a incapacidade de conexão, impede uma conexão entre o browser responsável pela requisição e o servidor do site, alegando que determinado IP (correspondente a um site bloqueado) não existe.

Há também a filtragem de palavras dentro do domínio, o que impede o acesso a sites cuja URL tenha termos considerados ofensivos, e a filtragem ativa de conteúdos - método mais efetivo usado pelo “Golden Shield”.

Mesmo que o endereço pedido esteja acessível, a plataforma filtra assuntos considerados ofensivos e amorais e tira o site do ar conforme o conteúdo encontrado em determinado momento, o que confere ao método um dinamismo difícil de ser driblado.

O monitoramento é feito também no mundo real. Após exigir que blogueiros cadastrem-se usando dados pessoais verdadeiros, o projeto tornará obrigatório um cadastro similar feito por donos de cibercafés de todos os clientes que queiram acessar a internet.

O conteúdo copiado pelo “Golden Shield Project” é acesso por um grupo de censores contratados pelos órgãos oficiais, avaliado segundo boatos de mercado em dezenas de milhares de chineses, que analisam as páginas acessadas e os textos, vídeos e áudios publicados pelos usuários, atualizando a lista de sites banidos na internet chinesa.

A instabilidade da lista de serviços bloqueados, acrescida neste fim de semana com YouTube, Google News, CNN e BBC para dificultar o acesso de cidadãos chineses a notícias e vídeos amadores sobre os confrontos, pode ser acompanhada pela Wikipedia.

O “Grande Firewall da China” conta também com o fator imprevisibilidade. Como nenhum órgão do governo chinês se pronuncia oficialmente sobre as restrições online, usuários são obrigados a seguir os passos nem sempre coerentes dos bloqueios para tentar traçar um padrão na estratégia de controle da China.

A falta de informações oficiais, como os Emirados Árabes Unidos fornecem quando um usuário é bloqueado ao tentar acessar conteúdo pornográfico ou contrário ao islamismo online, forçam ativistas que defendem a independência do Tibete ou um regime democrático a viverem em estado constante de tensão digital.

O dinamismo do bloqueio chinês, no entanto, não impediu que imagens e vídeos amadores dos conflitos em Lhasa, com aglomerações de ativistas enfrentando forças policiais chinesas, prédios em chamas na cidade ou corpos de civis, fossem publicados online.

Alguns exemplos estão tanto no Tibetan Centre for Human Rights and Democracy, que vem publicando edições extraordinárias desde sábado, quando o conflito se intensificou, como na comunidade Phayul, onde vídeos feitos por celular e fotos (incluindo dos conflitos e suas vítimas) vêm sendo compartilhadas desde o fim de semana.

Um dos motivos pela publicação de conteúdo dos conflitos mesmo com a intensificação do bloqueio contra serviços de compartilhamento multimídia estão nas falhas do “Golden Shield” exploradas por dissidentes online, blogueiros ou estudantes.

Além dos tradicionais proxys, que direcionam o tráfego online por servidores de outros países, fazendo com que a filtragem não entenda o sinal como vindo de dentro da China, chineses podem recorrer às Redes Privativas Virtuais (da sigla em inglês, VPN), mais seguras pela encriptação e rápidas que os proxys gratuitos.

Uma lista dos proxys mais populares para driblar tanto o “Golden Shield” como ferramentas de restrição online pode ser encontrada no serviço de favoritos online del.icio.us.

Há também truques que não envolvem tecnologia para que internautas não chamem a atenção do projeto, como relata o correspondente na China por sete anos Olivier August em matéria da Wired.

Além dos proxys, August sugere o uso de softwares de encriptação na troca de mensagens, amplamente lidas pelas autoridades para se aproximar de prováveis dissidentes políticos e afirma que fóruns online de estilo de vida e esportes são menos monitorados que os referentes a política ou internet, por exemplo.

O uso de termos controversos que deverão chamar a atenção do “Golden Shield”, como “democracia” ou “Dalai Lama”, é desencorajado por August, que também aconselha o uso do Skype, que faz ligações encriptadas, e o uso de serviços internacionais, como o Google norte-americano ao invés do Google.cn.