Próxima geração de meninas irá mudar imagem da TI no futuro

Natália Kawatoko*
10/03/2018 - 11h32
Há questões que precisam ser resolvidas para tornar o ambiente de trabalho mais plural; lidar com esteriótipos e inspirar as meninas de hoje a considerarem a carreira em TI estão entre elas

Segundo dados apresentados pela CA Technologies, apenas 8% das vagas de desenvolvedores de software de todo o mundo e 11% dos cargos executivos das empresas de tecnologia no Vale do Silício (EUA) são ocupados por mulheres. Ainda segundo o estudo Women in Tech, 74% das meninas demonstram interesse pelas áreas de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), mas só 0,4% delas escolhem estudar ciências da computação.

Atualmente, poucas mulheres se interessam pela área, mas nem sempre foi assim. Mulheres se destacam na área da tecnologia desde o século 19. Ada Lovelace é reconhecida por ter escrito o primeiro algoritmo em 1843. Na segunda guerra mundial, mulheres, plugando cabos e desenvolvendo algoritmos, realizaram um estudo de balística para os aliados. Na segunda metade do século 20 outras mulheres se destacaram junto com o desenvolvimento da informática. Atualmente, temos mulheres em cargos de destaque em grandes empresas do Vale do Silício, como Sheryl Sandberg, COO do Facebook.

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Números indicam que a participação feminina em cursos superiores na área de tecnologia vem caindo desde a segunda metade da década de 90, quando as classes de formandos em áreas da computação tinham cerca de 30% de meninas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Computação (SBC), em 2014, 39.342 pessoas se formaram nos cursos de informática no Brasil. Apenas 6.404 (cerca de 16%) do total de formandos eram mulheres. Isso se confirma também no mercado de trabalho. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada em 2016, dos mais de 580 mil profissionais de TI que atuam no Brasil, apenas 20% são mulheres.

Mas por que poucas mulheres seguem esta carreira? A distinção começa na infância, quando meninos são encorajados a encarar desafios e vencer. Enquanto isso, as meninas aprendem mais características ligadas ao cuidado. O problema é que isso mais tarde influencia na escolha das carreiras.

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Já na época de escolher a carreira, o fato de haver poucas meninas nas salas relacionadas a computação acaba afastando outras candidatas. Um fator percebido no ambiente acadêmico é que elas se sentem acuadas, têm vergonha de fazer perguntas e serem ridicularizadas pelos colegas, ouvindo comentários do tipo “Você não conseguiu fazer?! Para mim foi fácil...”. esse quadro também contribui para a desistência do curso.

Ultrapassados esses obstáculos, a mulher chega ao mercado de trabalho na área de TI. Mas o quadro que encontram é tão ou mais complicado que o de anos anteriores. Como já destacamos, há poucas mulheres no ambiente de trabalho e muito menos em cargos de destaque. Os salários são, como no mercado de trabalho em geral, invariavelmente menores em relação a homens no mesmo cargo ou função. E se não têm em quem se espelhar, a motivação diminui.

Há tempo para mudar. Só quem é criança hoje vai poder mudar a imagem das mulheres na área de TI no futuro. Em primeiro lugar é necessário mudar o estereótipo que limita as atitudes consideradas “corretas” para meninos e meninas. Depois, é preciso inspirá-las para que considerem a carreira de tecnologia. Recomenda-se também investir em capacitação. Se estiverem melhores preparadas podem quebrar a barreira da insegurança frente aos homens.

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A Universidade Estadual de Maringá realiza um projeto de incentivo a participação feminina na área de TI. Profissionais e professores visitam escolas, conversam com alunas sobre o trabalho na área e até oferecem cursos para estudantes de sexto e sétimo anos do ensino fundamental.

Elas precisam se inspirar em outras meninas em áreas tecnológicas para entender que são capazes e competentes. Devem encarar que são minoria e que isto não deve ser um problema. Se na faculdade ou em um ambiente de trabalho tem mais homens que mulheres, este fato não deve fazer com que elas queiram mudar ou desistir.

Acreditamos que o que deve ser levado em consideração são as habilidades em exercer determinadas funções, e não o gênero das pessoas em questão. Um ambiente multicultural e com pluralidade de gênero se torna muito mais acolhedor e propício a criação de novas ideias e resolução de problemas. Afinal de contas, somos melhores juntos.

*Natália Kawatoko é gerente de gestão de pessoas na DB1 Global Software. Este artigo foi publicado originalmente no site Computerworld Brasil