AI vai mudar maioria dos empregos, como prosperar em meio a robôs?

Minda Zetlin*
19/02/2018 - 09h29
Cerca de 45% das atividades realizadas já poderiam ser automatizadas; Saiba o que fazer para se manter à frente das mudanças na força de trabalho motivadas pela tecnologia

Em cinco anos, seu local de trabalho estará completamente irreconhecível se comparado com a forma como ele é hoje em dia. Essa é uma previsão fácil de ser feita, levando em conta como as rápidas mudanças na tecnologia e na dinâmica dos mercados estão remodelando as organizações. Mas como serão realmente essas diferenças? E quais das tecnologias emergentes atuais terão maior impacto no futuro?

“A tecnologia vai mudar a força de trabalho”, afirma o VP sênior e CIO de manufatura e supply chain da GE, David Burns. “Como profissionais de TI, nós precisamos descobrir como aplicar essa tecnologia para tornar a vida das pessoas mais eficiente e gerenciar as alterações populacionais e as mudanças nos nossos mercados.”

Confira abaixo as principais mudanças previstas por Burns e outros especialistas.

1 - Suas habilidades vão importar menos do que a capacidade de aprender habilidades novas

Segundo pesquisa da Universidade de Oxford, a chamada “half-life” (meia vida) de uma habilidade profissional caiu de 30 anos para 5 anos, entre 1984 e 2014 – e esse número continua caindo desde então. No futuro, os profissionais mais valiosos em TI (e em qualquer outra área) não serão aqueles que passaram anos adquirindo habilidades complexas, como análise de dados ou desenvolvimento de software, mas sim os profissionais que estão dispostos e ansiosos para se reciclar nas suas carreiras, de modo que sempre terão as habilidades mais necessárias para as suas companhias.

A estrategista e diretora de inovação da IBM, Kim Smith, compara esses profissionais às primeiras funcionárias da Nasa retratadas no filme “Estrelas Além do Tempo”. Naquela época, “computador” (“computer”) era o nome de um cargo e não de um equipamento usado no escritório - e esse, aliás, era o trabalho exercido pelas personagens principais do filme. Então a Nasa adquiriu um mainframe capaz de substituir um prédio cheio desses computadores humanos e “elas aprenderam, sozinhas, a usar o sistema Fortran”, destaca Smith.

Para ser bem-sucedida no futuro, a sua empresa deverá apoiar, encorajar e habilitar uma reciclagem vitalícia. Na IBM, isso significa dar às pessoas acesso a treinamentos e permitir que elas passem por diferentes cargos e departamentos, explica a executiva. “Elas podem passar um tempo em um cargo e depois ir para algo completamente diferente.”

“Penso que as expectativas vão se transformar”, afirma Burns. “Os profissionais de tecnologia precisam pensar mais para frente. Muitos dos que vi eram recebedores de ordens, e precisamos sair desse mundo. Precisamos ajudar a alterar o mercado em vez de permitir que as nossas organizações sejam alteradas dessa forma.” Para isso acontecer, afirma ele, “você verá os especialistas funcionais ficando mais técnicos e os experts em TI ficando mais funcionais.”

Isso também significará tomar algumas decisões difíceis quando você se deparar com funcionários que não conseguem ou não querem aprender novas habilidades ou se adaptar às mudanças necessárias. “Você pode ter alguém de primeiro nível e tecnicamente capaz”, explica Smith. “Mas se essa pessoa é arraigada e inflexível e sua Inteligência Emocional (EQ) não lida bem com mudanças e fracassos, então ela pode ser tóxica para a empresa de forma geral.”

2 - Inteligência artificial e automação vão mudar a maioria dos empregos

Segundo uma pesquisa da PwC, 38% dos empregos nos EUA poderão ser realizados por meio da automação nos próximos 15 anos. Executivos de TI afirmam que o processo de automação poderia afetar milhões de trabalhos atualmente.

“Cerca de 45% das atividades realizadas atualmente poderiam ser automatizadas usando tecnologias que já possuímos”, alerta Smith. “Isso poderia afetar pelo menos 100 milhões de trabalhadores do conhecimento até 2025. Então pensando nessas empresas que são realmente dependentes de processos repetitivos, onde elas vão capturar ganhos de eficiência para continuarem competitivas? E como irão reciclar os seus funcionários para que eles aprendam outras habilidades e capacidades?”

Além da automação, a inteligência artificial e o machine learning também vão reconstruir os locais de trabalho como os conhecemos. E isso pode acontecer antes do que imaginamos. “A IA já está no horizonte de todos há algum tempo. Mas em nossa visão de mundo, 2018 será o primeiro ano em que isso passará a ser uma realidade”, aponta o arquiteto chefe de tecnologia da SPR, Pat Ryan. “Estamos vendo empresas clientes que realmente querem fazer algo a esse respeito.”

“Os radiologistas não estão mais lendo todas as imagens que costumavam”, destaca o codiretor de prática de transações de tecnologia do escritório de advocacia Arent Fox, William Tanenbaum. “A IA pode ler um raio-X melhor do que um médico, ou pelo menos pode ficar lendo por 77 horas sem descanso, e permitir assim que o médico faça coisas melhores de forma mais rápida.”

Ele e outros especialistas insistem que a chegada da IA ao espaço de trabalho vai alterar os empregos – tornando-os mais agradáveis – em vez de eliminá-los. Ryan, por exemplo, sugere que o termo “Inteligência Artificial” deveria ser substituído por “Inteligência Aumentada”, já que é isso que a IA vai fazer, segundo ele – aumentar as capacidades dos trabalhadores do conhecimento.

“Como se parece um funcionário de TI exponencial?”, questiona o diretor de RH da Deloitte Consulting, Jeff Schwartz. “Qual parte do trabalho dele é resolver problemas? Quanto disso é rotina? Qual comunicação é exigida no trabalho? Qual supervisão é exigida?”. Se esse funcionário supervisiona várias pessoas, considere o que essa supervisão pode implicar, afirma. “É um trabalho de arranjar e programar várias pessoas, o que poderia ser feito por um algoritmo, ou algo que envolve as pessoas conversando, interagindo e vendo umas às outras?”

Com a automação, a função de agendamento poderia ser realizada por um chatbot, por exemplo. O nosso funcionário de TI hipotético ainda poderia ter uma reunião diária com a sua equipe, mas agora eles podem passar esse tempo resolvendo problemas do trabalho ou discutindo prioridades.

“Olho para isso e digo que há uma oportunidade para aumentar a produtividade”, alega Burns. “No geral, não acho que as pessoas gostem de realizar tarefas cotidianas. Elas realmente querem focar em adicionar valor e essas máquinas as ajudarão a adicionar mais valor.”

Uma maneira pela qual a IA pode trazer muito valor, aponta, é ajudando os profissionais a decidirem onde focar as suas atenções. “A quantidade de informações disponíveis no local de trabalho está crescendo mais rapidamente do que as pessoas podem administrá-las e elas se sentem sobrecarregadas. Algumas tecnologias da IA e ML vão ajudar a diminuir essa confusão.”

3 - Sua força de trabalho será muito diferente da atual

Uma força óbvia impulsionando a adoção da automação e da inteligência artificial é o mercado apertado de trabalho especializado, especialmente quando o assunto são habilidades muito demandadas em TI como Data Analytics. Mas Schwartz acredita que as empresas que atualmente enfrentam dificuldades para contratar talentos estão tendo esses problemas por causa de ideias arraigadas sobre o que é trabalho.

“Talvez exista uma crise de talentos, talvez não”, diz. “Talvez a crise de talentos seja resultado de uma busca por expertise nos nossos quintais e em nossos próprios escritórios. As empresas estão buscando contratar pessoas para trabalhar nos seus prédios da mesma maneira como trabalhavam antes.” Em vez disso, afirma, o empregador precisa ampliar a visão sobre o que é a sua força de trabalho.

A Deloitte prevê que a força de trabalho do futuro será composta por funcionários trabalhando lado a lado com os seus contratantes, e com a IA e a automação. Cada vez mais, os empregadores irão realizar crowdsourcing de trabalho como parte da mistura, afirma Schwartz.

E como isso funcionará?

“Existem projetos de P&D significativos em que competições estão sendo usadas”, explica. Um dos casos mais famosos foi o chamado Netflix Prize, em 2009. Na época, o Netflix ofereceu um prêmio de 1 milhão de dólares para qualquer um que conseguisse realizar uma melhoria de 10% ou mais no seu software de recomendação de filmes e séries para os assinantes, com base nas avaliações dos conteúdos a que eles tinham assistido. A equipe vencedora, chamada de Bellkor’s Pragmatic Chaos, conseguiu uma melhoria de 10,6%.

Desde então, outras empresas usaram competições parecidas para resolver problemas técnicos difíceis. Em 2013, por exemplo, a GE usou uma abordagem similar para encontrar uma maneira mais leve de fixar as asas nos aviões. “Por uma quantidade razoável de dinheiro, você consegue reunir muita gente ao redor do mundo para resolver o seu problema”, afirma Schwartz. “A nossa percpeção é que você pode usar o crowdsourcing para quase qualquer tipo de trabalho. Você pode ‘pixelar’ o trabalho em pedaços muito pequenos e fazer com que essa multidão trabalhe em pedaços diferentes.”

Uma vantagem: o processo de crowdsourcing te dá acesso a um grupo muito maior de profissionais especializados do que a sua companhia jamais conseguiria contratar. “A maioria dos melhores programadores do mundo não trabalham para você. E há um número significativo deles que não quer trabalhar para ninguém. Por isso, penso que essa é uma perspectiva realmente interessante.”

4 - A computação quântica vai redefinir a produtividade

Questionados sobre quais tecnologias emergentes farão a maior diferença no espaço de trabalho do futuro, muitos especialistas apontaram o dedo para a computação quântica. Os computadores tradicionais, baseados em chips de silício, trabalham com código binário, em que cada valor é 0 ou 1. Já a computação quântica permite um terceiro estado ao combinar esses dois numerais, o que significa que os computadores quânticos são muito mais poderosos do que os computadores que nós temos atualmente.

No ano passado, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, enviaram elétrons por meio de um semicondutor usando pulsos laser ultrarrápidos. Foi um primeiro passo em direção à criação de computadores milhares de vezes mais rápidos do que os modelos atuais. “Estamos provavelmente a pelo menos dois ou três anos de uma adoção significativa, apenas porque usar pulsos de luz curtos é realmente difícil, e o custo não é insiginificante”, aponta o diretor de inovação e digital da Deloitte, Ragu Gurumurthy.

Quando a computação quântica realmente chegar ao seu local de trabalho, espere que ela cause um grande impacto. “No nível mais básico, toda a rede e a Internet podem ser muito mais seguras com computadores quânticos. A cibersegurança é melhorada de forma exponencial.”

Em segundo lugar, afirma, “há muitos problemas hoje que não temos poder computacional suficiente para resolver de forma rápida o bastante em termos de modelagem.”

Mais importante, a computação quântica pode diminuir drasticamente as exigências de energia para a computação corporativa. “Quando você pensa sobre o custo operacional de um data center, por exemplo, a energia é um grande componente desse custo. Como você arquiteta um data center para diminuir esse custo?”.

É uma preocupação que vai além do custo, na verdade. No ano passado, a Semiconductor Industry Association publicou em relatório prevendo que, caso a computação tradicional continuasse em seu ritmo atual de crescimento, em 2040 não conseguiríamos mais gerar energia suficiente para os computadores do mundo. Como ela não é limitada pela física que exige uma quantidade mínima de energia para rodar um computador tradicional, a computação quântica é uma potencial solução para esse problema.

5 - Você nunca pode parar de estudar

Como um líder em TI, você precisa continuar aprendendo constantemente sobre as tecnologias que mais poderão beneficiar a sua empresa – ou os seus rivais – no futuro, apontam os especialistas.

Por exemplo, pegue a realidade aumentada e a realidade virtual, que já são usadas para treinamentos e diagnósticos – tecnologias que você poderá ter de acompanhar de perto nos próximos anos.

“Fiquei surpreso com o quanto a realidade aumentada e a realidade virtual evoluíram nos últimos 12 meses”, afirma Gurumurthy. “Uma vez cheguei a dizer que elas só seriam úteis para gamers, mas essas tecnologias terão impacto no espaço de trabalho nos próximos cinco anos.”

“É importante passar um tempo olhando para os limites externos de algumas coisas novas que estão surgindo”, destaca Burns. “Você precisa da capacidade de olhar para além do trabalho cotidiano que precisa ser feito. É muito melhor passar 5% do seu tempo olhando para o futuro do que passar 100% do seu tempo lidando com o que está na sua caixa de entrada.”

Em um mundo incerto, é importante manter o máximo de opções possíveis. “Algumas dessas tecnologias emergentes parecem estar muito distantes”, diz. “Mas elas estarão aqui antes que você perceba.” 

(*) Minda Zetlin é escritora de tecnologia de negócios, colunista da Inc.com e colaboradora frequente da CIO e Computerworld Brasil.