Tecnologia & Comunicação

“Leve-me ao seu líder”

Publicada em 15/07/2013 15:48

Em março de 1953, um cartoon produzido por Alex Graham e publicado na revista The New Yorker retratou a chegada de aliens na Terra. Um dos extraterrestres, depois de saltar da sua nave espacial encontrou um cavalo, que estava confuso com a situação, e disse ao equino : “Por favor, leve-me ao seu presidente”.  Segundo algumas fontes, essa frase deu origem ao clichê “Leve-me ao seu líder”, usada em filmes  e até título de músicas.

O confuso “diálogo” entre um alien e um cavalo, demonstrado pelo cartoon de Alex Graham, revela uma faceta interessante sobre o nosso comportamento em situações nas quais não compreendemos como a estrutura funciona. Precisamos, imediatamente, entender a situação. Então, nada melhor que falar com quem comanda.  Pois, quem comanda conhece todo o funcionamento. A sensação de não se entender onde se está possui outra expressão: “cair de paraquedas”.

Durante as manifestações populares ocorridas em todo o Brasil no mês de junho, notei que tanto os políticos quanto a imprensa ficaram desnorteados com os acontecimentos. Para dizer a verdade, acredito que todos nós ficamos sem entender plenamente o que estava acontecendo.  Para exemplificar  essa percepção, outra fase dita na ocasião das manifestações ficou famosa: “quem disser que está entendendo o quê está acontecendo, está mentindo”.

Mas o que todas essas frases e sentimentos, na época das manifestações,  têm a ver com tecnologia?
Acredito que vivemos em uma época bastante singular da história da humanidade no que tange aos relacionamentos humanos. A nossa raça, homo sapiens, convive há quase 100 mil anos em pequenos grupos. Logo, encontrar o líder era bem fácil, tanto por amigos quanto por inimigos.

Evoluímos, nos fixamos territorialmente, aumentamos em número e em complexidade social. Estruturas surgiram: reinados, ditaduras e sistemas democráticos. Todas elas possuem em comum a liderança por alguém.  Assim, crescemos tendo líderes, na família (laços consanguíneos), na comunidade (religião, escola, etc) e na estrutura política. Depois da Revolução Industrial, outro tipo de organização surgiu, as empresas. Nelas, líderes são fundamentais numa estrutura hierárquica de uma organização.

Entretanto, a tecnologia da Internet subverte essa lógica de organização. Com a topologia de rede distribuída e de baixa hierarquia, não existe polo centralizador. No caso da rede, polo que dita o fluxo informativo. A rede é comunicação de muitos para muitos. Como surgimento do www, a camada amigável da Internet, os muitos tornaram-se milhões, bilhões. Dados mostram que 2,7 bilhões de pessoas estão conectadas à Internet, ou seja, quase 40% da população mundial.

Reprodução Internet

Assim, a “emergência” de manifestações, insatisfações que estavam latentes e foram canalizadas para as redes sociais, não tinham “líderes” conforme convencionamos a entender como tal. É lógico que alguns ativistas conseguiram ditar fluxo na rede e se tornaram “clusters”, sendo pontos orientadores dentro da rede. Mas isso não acontece em função de uma hierarquia pré-definida. Vários fatores, impossíveis de detectarmos com precisão, foram decisivos para que milhões de pessoas saíssem às ruas. No meu entender, saiu-se bem quem conseguiu canalizar com velocidade, nas suas conexões, o sentimento latente de indignação com as questões centrais mostradas nos protestos, como saúde e educação, além dos gastos com a Copa do Mundo.

Mas não foi somente uma pessoa que fez isso. Foram centenas de milhares. Assim, o fluxo informativo ganhou direção, credibilidade e fez eclodir um movimento físico, visível, palpável. Mas quem são os líderes de tal grandiosidade? Não dá para saber.

A rede, como pode ser comprovado pelo movimento do software livre, não tem líder. Alguns se arvoram como tais, mas não são.

Se o alien aterrissasse no meio das manifestações e pedisse, “ Leve-me ao seu líder”, talvez ficasse tão confuso como o cavalo do cartoon de Alex Graham.