Tecnologia & Comunicação

Collective Intelligence não é Inteligência Coletiva

Publicada em 15/03/2012 9:22

O título deste artigo possui uma estranheza proposital. A tradução para o português de Collective Intelligence é Inteligência Coletiva. Entretanto, apesar similaridade dos termos entre os dois idiomas, o conceito no Brasil tem enveredado por caminho, digamos, não tão inteligente.

Percebo que, nós brasileiros, adotamos conceitos e procedimentos oriundos de outras terras e tropicalizamos. Isso é muito comum. Somos assim mesmo, suprimimos o que não nos interessa e aplicamos o que achamos que é melhor para o resultado que pretendemos. Isso não é uma crítica, é uma observação cultural.

No caso de Collective Intelligence não foi diferente. Devido diversos fatores culturais, ideológicos e até de não-compreensão das possibilidades tecnológicas da Web, a concepção original sobre Collective Intelligence se perdeu e virou outra coisa no Brasil.

Vejamos o verbete Inteligência Coletiva, em português,  na Wikipedia. Lá está escrito, “são também características da inteligência coletiva o uso da interatividade, das comunidades virtuais, dos fóruns, dos weblogs e wikis para construir e disseminar os saberes globais, baseados no acesso à informação democratizada e sua constante atualização”.

A descrição coloca a Inteligência Coletiva na Web no campo da ação humana, das intencionalidades. Ela funciona dessa maneira? Sim, funciona, mas para pouquíssimos casos. Vejamos o próprio exemplo do Wikipedia, que é um sistema voltado para construção coletiva de verbetes e funciona muito bem e com grande sucesso social. O uso da ferramenta wiki para outras finalidades, como a construção de notícias de forma coletiva, por exemplo, é #fail.

Homosapiens e a Inteligência Coletiva

A Collective Intelligence parte do princípio antropológico que ela existe desde os primórdios do homosapiens. “Viver em tribos, ser coletivo na caça, formar nações e as modernas corporações são atos coletivos com variação de graus de inteligência”, afirmam os pesquisadores do MIT Center for Collective Intelligence. Mas como emular a Inteligência Coletiva que acontece nas relações humanas mediada pelo mundo natural para um sistema sintético mediado por redes computacionais, apesar de ser produzido e acionado por humanos?

O pessoal da Computational Collective Intelligence entende que é uma forma de inteligência que emerge da colaboração e competição entre muitos indivíduos (no mundo natural ou artificial), mas que no mundo artificial só é possível com a aplicação de múltiplas tecnologias de inteligência computacional, tais como sistemas Fuzzy, computação evolutiva, redes neurais, entre outras.

Entretanto, entendo o por que do termo Inteligência Coletiva na Web assumir outra interpretação no Brasil. Com o advento das tecnologias digitais conectadas, a Web é de longe a mais popular delas, e o seu barateamento (computadores e conexões), além do surgimento de dispositivos móveis, fazem com que uma massa de usuários possam se apropriar delas de modo amigável, sem necessitar de conhecimentos profundos de tecnologia.

Esta convergência de condições proporciona possibilidades infindáveis de conexões e, portanto, conversações, informações e dados são inseridos na rede numa quantidade e velocidade jamais imaginadas. O volume descomunal dos ativos digitais armazenados fornece a dimensão que tudo que é inteligente pode surgir “naturalmente” na rede.

Será?

Mundo de possibilidades…

Mas, convenhamos, são dois termos que juntos formam um belo campo semântico. O conceito de Inteligência é, desde os primórdios da humanidade, elegante, bonito e, principalmente, confere um ar de diferente para melhor, ou seja, algo melhor do que a média. Inteligência envolve habilidade para raciocínio, planejamento, resolução de problemas, pensamento de forma abstrata, compreensão de ideias complexas, aprendizagem rápida e através da experiência. Já o Coletivo, insere o pensamento de ajuda, ou seja, compartilhar, cooperar, colaborar, sempre visando um bem comum, para garantia da sobrevivência.

A partir disso, quando utilizado, o termo Inteligência Coletiva gera mentalmente um mundo de possibilidades positivas, advindas de contribuições coletivas que geram soluções inteligentes. Quem não gosta disso? Muitos! Entretanto, realmente isto acontece na Web? Sim, acontece se suportada por sistemas complexos projetados para essa finalidade.

  • http://twitter.com/pbprado Paulo Braga Prado

    Hum. Sempre entendo “inteligência coletiva” desta forma: “um mundo de possibilidades positivas, advindas de contribuições coletivas que geram soluções inteligentes”…
    Mas sinceramente, retirando do conceito “inteligência” essa áurea de que “ela” deve ter elegância e beleza, penso que as soluções advindas da colaboração, do compartilhamento podem sim atingir níveis acima da média.
    A questão creio é que ainda existe um certo estranhamento com o que é construído dessa forma. Um certo “olhar torto”…
    Sistemas complexos?… creio que ferramentas comuns, como um fórum por exemplo, podem gerar soluções inteligentes. Podem gerar analises inteligentes…
    Imagino que a “qualidade” da inteligencia gerada, está mais associada a organização da coletividade. Ao comprometimento dos seus indivíduos.

  • http://www.facebook.com/rafa.moret Rafael Moret

    Conseguir capturar a inteligência coletiva de maneira adequada exige que sistemas sejam construídos para essa finalidade.

    Fóruns foram um começo, mas extrair a informação relevante deles muitas vezes é um trabalho super difícil, justamente por não terem sido projetados para isso.

    Concordo com Ray Kurzweil quando ele diz que “interfaces that allow exponential growth of human knowledge with easy access to it are the very basis of the next paradigm of evolution” e tenho convicção que a inteligência coletiva tem que fazer parte disso.

    O conceito de inteligência coletiva começou há pouco a ser explorado no Brasil e, como se pode ver, são pouquíssimos os experts que temos no país, dessa maneira, faz sentido a maneira como ele é interpretado no momento. Porém acredito que este conceito irá evoluir e se tornar igual tanto aqui quanto na Europa e EUA onde já são termos mais populares.

    O mercado está acordando agora para isso e algumas iniciativas estão nascendo que conscientizarão as pessoas sobre isso. Um grande estudioso da área no Brasil é o prof. Leandro de Castro do Mackenzie, e outras duas empresas estão começando suas operações por aqui, uma delas, a Ledface que é brasileira, e outra, Spigit que é americana.

    Em breve essa percepção que muitos tem sobre inteligencia coletiva ira mudar…

  • http://twitter.com/aferrari Alexandre Ferrari

    Gerar colaboração e interação e assim desenvolver inteligencias coletivamente está muito mais nas pessoas e no engajamento dessa comunidade do que nas ferramentas usadas. É claro que as ferramentas fazem parte importante dos resultados. :)

  • http://twitter.com/aferrari Alexandre Ferrari

    Gerar colaboração e interação e assim desenvolver inteligencias coletivamente está muito mais nas pessoas e no engajamento dessa comunidade do que nas ferramentas usadas. É claro que as ferramentas fazem parte importante dos resultados. :)

  • Ferramenteiro Silva

    o autor não descontruiu o que já é senso comum no Brasil. Criticou sim o mecanicismo das adaptações mas fez o mesmo…bem….acrescentou que é necessário “ferramentas” adequadas, Isso é o novo?

  • http://twitter.com/mauroccm Mauro Cafundó Morais

    Penso que a tradução adequada para Collective Intelligence seja Inteligência Coletora, uma vez que pode se tratar de um sistema ou algoritmo que coleta dados de um outro sistema que depende de contribuições coletivas (por ex. Wikipedia, Twitter, etc.) gerando uma grande quantidade de dados que serão depois analisados por um cientista de dados.

  • Dyllon Duarte Tergilene

    quando a gent olha e vê pergunta ai vem aquela musiquinha sert…tem que ver pra crer ….