Tecnologia & Comunicação

O guru das redes sociais é uma espécie de Paulo Coelho conectado

Publicada em 13/12/2010 15:57

Vivemos uma era interessante do ponto de vista do entendimento humano de como se estruturam e funcionam os sistemas complexos. Para Hermann Haken, “de uma maneira ingênua nós podemos descrevê-los como sistemas que são compostos por muitas partes, elementos, ou componentes que podem ser do mesmo ou de diferentes tipos.

Os componentes ou partes podem ser conectados de modo mais ou menos complicado”, sendo percebidos como coerentes no seu todo e possuindo todos os seus componentes relacionados em diversos níveis.

A partir desse conceito básico, pode-se afirmar que as redes computacionais estão na categoria dos sistemas complexos, pois proporcionam ambiente de numerosas conexões para troca de dados e informações, sendo elas produzidas, distribuídas e apropriadas pelo ser humano por diversas maneiras.

A Web é um sistema complexo. Para analisar o ‘comportamento da Web’, é necessário entender quais são os seus componentes, as relações, as conexões, os laços, as tecnologias, as formas de apropriação, os tipos de dados etc.

Longo percurso

Dificil? Sim, muito difícil, mas não impossível. Estamos no início de uma tecnologia que ainda não completou duas décadas de existência. O entendimento sobre sistemas complexos na Biologia, por exemplo, o funcionamento de um determinado vírus, demanda muitos anos de pesquisa e a invenção de tecnologias apropriadas para entender aquele fenômeno.

Mas entre o espaço de tempo do não-entendimento sobre o funcionamento dos sistemas complexos (Web) e o surgimento de tecnologias eficientes que revelam o universo escondido da estrutura de funcionamento deles, emerge um tipo de ser humano “importante” para que os ‘leigos’ sejam levados ao ‘verdadeiro conhecimento’: o guru das redes sociais.

No livro “O Império do efêmero”, Gilles Lipovetsky discorre sobre o mundo da moda e do luxo, no qual as grandes estruturas determinaram a organização social das aparências. Nesse universo existe um exército de consultores, mas poucos profissionais compreendem como se configura a organização social das aparências.

O vácuo entre o que achamos que acontece com os sistemas complexos e o seu entendimento científico pode demorar dezenas de anos. Nesse período, acontece o que o astrônomo e pesquisador no campo da astrobiologia Carl Sagan denominou de “O mundo assombrado pelos demônios”, título de um dos livros mais importantes do divulgador científico. O que não conseguimos explicar racionalmente, encontramos justificativas no ‘mundo mágico’.

Mundo mágico da web

É nesse “mundo mágico” que emerge no campo da Web o guru das redes sociais. Ele possui um grande área de atuação, um Império. Transita tranquilamente demonstrando todo o seu “conhecimento” sobre a Web e como as empresas podem tirar proveito da rede.

Como ainda não sabemos como funcionam e se estabelecem os fluxos informativos nas redes sociais, pois não temos tecnologia que possam captar com segurança e alguma precisão esses movimentos informativos, o guru das redes sociais é uma alternativa bastante procurada pelas empresas ávidas a entender o funcionamento da rede e como utilizá-la empresarialmente.

Demonstrando cases de sucesso, com apresentações pirotécnicas, profusões de dados que verificados minimamente sucumbem, linguajar com vários termos hypes e em inglês, o guru das redes sociais desfila pelo mundo das corporações como se fosse o Paulo Coelho conectado.

O ponto de encontro sinérgico acontece quando os responsáveis pelas áreas de redes sociais das empresas, profissionais bastante cobrados por resultados, pois cases clássicos (repetidos a exaustão) se espalham pela rede como erva daninha, necessitam justificar o investimento no setor.

Nessa relação, se nada der certo, os dois lados não perdem. Não perde o guru, pois ele não tem compromisso nenhum com os resultados, e também não perde o responsável pelas redes sociais na empresa, pois chamou o que existe de “melhor” no mercado. Mas quem perde é a empresa. Ela gasta tempo, dinheiro e se desgasta perante aos seus clientes.

A melhor solução

Então, qual a solução? As empresas necessitam criar núcleos de desenvolvimento com pesquisadores, profissionais de comunicação e de tecnologia. Precisam desenvolver tecnologias específicas, ou seja, coadunadas com o ramo da empresa, com a sua cultura, com o seu tipo de público e com a sua estratégia de desenvolvimento.

A formação desse tipo de configuração de inteligência demora certo tempo e os bons resultados também. Cito o caso de pesquisa aplicada nessa área, que consumirá dois anos e já guardou cerca de 20 milhões de dados com o objetivo de entender os fluxos informativos nas mídias sociais nas eleições presidenciais.

O projeto apoiado pelo CNPq chama-se Neofluxo, que reúne pesquisadores em comunicação, cientistas da computação e profissionais do mercado de redes sociais, alguns com formação híbrida.

Como no mundo corporativo atual tudo é para ontem e o imediato é mais importante do que o conhecimento, os gurus das redes sociais terão vida longa.

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  • http://twitter.com/CALANGOBIT Dirceu Barquette

    Estaríamos diante de uma rede neural? #newral

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  • Walter Lima

    Olá, Dirceu

    A rede neural é fruto de um processo de evolução natural. Apesar das redes telemáticas serem frutos do pensamento humano, portanto de um ser da natureza, elas foram pensadas pela lógica humana, que no meu entender, tem muitas limitações em relação as “lógicas” que estruturam a natureza. Mas só a complexidade das redes telemáticas já dá um grande trabalho para entender.

  • http://twitter.com/CALANGOBIT Dirceu Barquette

    Olá, Walter,
    Vejo cada nó de rede não apenas como um host enquanto hardware, mas como um instrumento de conexão entre humanos diversos em seus pensamentos.
    Se equipararmos os pensamentos a forças vetoriais e se tivéssemos como mensurá-los chegaríamos a “pontos de entendimentos” determinando direções ou tendências.
    Creio, enfim, na constituição de um organismo multifuncional virtual com todas as complexidades inerentes. Me agrada a idéia de um “ser” virtual…

  • Walter Lima

    Olá, Dirceu

    Pelo que entendi do seu post, você acredita na Noosfera. Enfim, tem um livro que achei muito interessante e possui argumentos consistentes que confrontam esse “sentimento”. É do cientista Jahon Lainer, “Gadget voce nao é um aplicativo”

  • Walter Lima

    Olá, Dirceu

    Pelo que entendi do seu post, você acredita na Noosfera. Enfim, tem um livro que achei muito interessante e possui argumentos consistentes que confrontam esse “sentimento”. É do cientista Jahon Lainer, “Gadget voce nao é um aplicativo”