Tecnologia & Comunicação

Por que as empresas não deslancham nas redes sociais conectadas

Publicada em 08/11/2010 12:30

As Redes Sociais Conectadas (RSCs) surgiram há cerca de 30 anos, com a criação da Usenet (Unix User Network), em 1979. Eram redes telemáticas utilizadas somente por iniciados na Informática, termo em desuso na atualidade. Apesar de ser mais abrangente, o conceito de Ciências da Computação tomou o seu lugar, tornando-se sinônimo.

Hoje, essas redes adquiriram musculatura, ficaram amigáveis aos usuários com menor conhecimento tecnológico, digitalmente falando, e se disseminam nas formas de Orkut, Facebook, Twitter, entre outras.

A formação de redes sociais é uma característica dos seres humanos desde os tempos mais remotos. Fundamental para a sobrevivência do grupo em ambientes hostis, a criação de comunidades garantia que ações coordenadas e executadas coletivamente com inteligência fossem vencedoras sobre a natureza.

“Software” do comportamento

Assim, a rede social é um aplicativo do ‘software’ do comportamento humano. As redes sociais conectadas, proporcionadas por máquinas computacionais ligadas em redes telemáticas, só puderam emular certas características desse ‘programa’ quando conseguiram se comunicar por protocolos como NNTP (Network News Transfer Protocol), utilizado pela Usenet.

Essas siglas, que sintetizam tecnologias, possibilitaram à conexão através da Internet e delas surgiram conceitos muito pouco entendidos por empresas que desejam utilizar as RSCs com o objetivo de gerar capital social, fator importante para a sua sobrevivência no atual cenário do mundo dos negócios. Esses conceitos são: as redes sociais conectadas são redes distribuídas e de baixa hierarquia.

O que significa isso? Essas redes são formadas por pessoas interagindo, seguindo um padrão de organização. Esse padrão permite o surgimento de conexões através de redes distribuídas, ou seja, elas são mais distribuídas do que centralizadas. Nesse contexto de conexão distribuída, a hierarquia é baixa.

E justamente nesse conceito topológico está o porquê de as empresas não deslancharem na rede. A característica de ser distribuída, conectando milhares de pessoas, consumidores, fornecedores, colaboradores, empregados, admiradores etc é muito bom para qualquer marca, mas a baixa hierarquia (liberdade na troca de informações) que possibilita a formação do capital social, é um temor.

Sem hierarquia rígida

As empresas oriundas da lógica da Revolução Industrial possuem uma organização rígida, hierárquica e centralizada. Estrutura necessária para o controle dos processos e das informações. Essa configuração assegura que tudo que ocorre dentro de uma empresa, no que tange à informação, possa ser monitorado e fiscalizado.

Aliás, o controle sobre a informação é a grande arma para obtenção da eficiência e eficácia empresarial, baseadas nos conceitos oriundos e atualizados da Revolução Industrial.

Dentro desse modo de organização, os sistemas computadorizados interligados através de redes são fundamentais para o cumprimento das diretrizes e metas estabelecidas pelas empresas. O pessoal da Tecnologia de Informação (TI) produz sistemas para que a hierarquia e controle rígidos sejam preservados. As intranets são a materialização dessa lógica.

O grande firewall

Entretanto, ao querer participar do universo das Redes Sociais Conectadas, a grande parte das empresas tenta estabelecer essa mesma lógica: controle sobre a informação. Mas o ambiente estruturado por uma rede descentralizada e de baixa hierarquia (web) possui a lógica da Sociedade da Informação, cujo controle da informação é quase uma utopia. Vide a tentativa da China com o seu “The Great Firewall of China”, com filtros instalados nos servidores de Internet. O governo chinês consegue rastrear, bloquear e deletar conteúdos de fóruns, blogs etc. Twitter, nem pensar.

Mesmo tendo o controle total sobre os backbones da Internet (entrada e saída de dados), a informação livre ainda “flui” com a utilização de estratégias pelos chineses para burlar o firewall, utilizando aparatos como os embaralhadores de IP.

O que as empresas deveriam fazer

Na empresa não é diferente. O pessoal de TI faz de tudo para bloquear os acessos a serviços listados como “indesejados” e que contribuem para a “queda de produtividade”. Aliás, os técnicos gastam grande parte do tempo fazendo isso, mas os empregados conseguem burlar os controles através de diversas formas. É uma briga entre gato e rato, que gasta a energia da empresa em um setor que deveria ser conduzido de forma diferente.

As empresas que desejam participar e se apropriar das Redes Sociais Conectadas para produzir capital social que seja impulsionador, diferencial e aderente à atual Sociedade da Informação, deve ter em mente que precisa mudar certos procedimentos.

No âmbito interno, vejo que muitas empresas cerceiam o acesso de seus funcionários aos programas de Instant Messenger, redes sociais e bloqueiam acesso a websites que julgam ser impróprios. Entretanto, os seus departamentos de comunicação e marketing alardeiam que a empresa está presente na rede social tal, com Twitter tal, no blog tal etc.

Esse anacronismo é sinal dos tempos. Ou seja, estamos passando por uma transição comportamental em relação à utilização do tempo de forma “produtiva” do funcionário (colaborador) e do trato das informações adquiridas e produzidas por ele.

O mundo mudou

O controle desse tempo mudou. Não é mais medido pelo tempo que o funcionário está dentro da empresa, controlado pelo ponto de entrada e de saída. Mas, sim, pela capacidade que ele possui em se apropriar das tecnologias digitais, entre elas, as redes sociais, no tempo que for necessário. Portanto, o momento dessa apropriação pode ser em casa, na volta do trabalho etc. É essa apropriação, às vezes aleatória, fornecerá à empresa o capital social necessário para se conectar com as atuais exigências da Sociedade da Informação.

Mas como ter capital social, produtividade, criatividade e conter a dispersão dos funcionários com os “brinquedinhos” tecnológicos fornecidos em todos os cantos da rede?

Os empresários, através dos seus departamentos responsáveis pela contratação dos profissionais, devem perceber que precisam contratar seres autônomos, que se apropriem de tecnologias, assim tendo a liberdade na troca de informações, não sendo vigiados, controlados ou cerceados.

Devem ser profissionais de confiança, pois informações fundamentais para a sobrevivência da empresa devem ser preservadas da concorrência. Eles devem, então, ser preparados para atuar na Sociedade da Informação e devem se envolver nela com propriedade e com criatividade, produzindo soluções e ações jamais imaginadas.

Essa condição de liberdade não é só uma necessidade momentânea. É um atributo que faz parte da atual sociedade conectada em que vivemos, e a empresa moderna tem um grande desafio pela frente, que é mudar a sua estrutura e cultura organizacional no que tange ao controle da informação. Não será tarefa fácil.

  • Pingback: Por que as empresas não deslancham nas redes sociais conectadas | porta8080

  • http://twitter.com/cutedrop Cutedrop

    Interessante é ver que a rede social é repleta de fontes de inspiração e compartilhamento de ideias que podem beneficiar sim, a produtividade no trabalho.

    Cabe a cada um, lógico, o bom senso.

    Mas não vejo mais sentido em bloquear o acesso a blogs, IM ou redes sociais, pelo contrário, acho que as empresas podem ter nos próprios funcionários a fonte de alimentação do conteúdo corporativo.

  • Cleber Oliveira Carvalho

    O conceito disposto acima é ultra-moderno, porém esbarra em ter todos os funcionários “de confiança”. Afinal quanto maior a empresa, maior a necessidade de pessoal e evidente que nem todos são leais ao negócio. E não têm que ser mesmo, afinal somos leais com que é leal conosco. O ponto é que a liberdade total da informação dentro de uma empresa fere os preceitos de 'estratégia', que é o que faz toda a diferença.

  • http://www.facebook.com/diegosieg Diego Sieg

    Professor, em complemento às suas palavras, gostaria apenas de compartilhar algumas ideias trabalhadas por Jeremy Gutsche, em seu livro Criação e Inovação no Caos:

    - “A fim de adaptar-nos, precisamos, intencionalmente, destruir. É necessário que destruamos a estrutura e a hierarquia que nos impedem de ver a realidade da mudança no mercado”.

    - “A estrutura organizacional direcio a forma como crescemos e pensamos. Para incitar uma revolução, a estrutura precisa ser quebrada”.

    - “Torne-se uma pessoa sem líder”.

    - “Para navegar no caos, as empresas precisam de aptidões e reações rápidas que só existem qunado funcionários têm poder”.

    - “Ao criar um ambiente de inovação, você poderá encorajar as pessoas a saírem da rotina e buscar ideias revolucionárias”.

    - “Destruir valor pode parecer quase impossível, porém a resistência levará sua empresa a ser substituída”.

    Parabéns pelo artigo, como sempre bastante inspirador.

    abraço

  • http://twitter.com/vgcampos Vanderlei Campos

    Interessante notar que os funcionários “bloqueados” em suas mesas de trabalho, utilizam hoje da tecnologia cada vez mais evidente dos celulares que acessam as redes sociais.

    Ou seja, se a empresa simplesmente bloquear acesso por conta de “perda de tempo de trabalho”, corre o risco de ter seus funcionários mais ainda afastados, pois saem com seus celulares em mãos para utilizá-los “onde ninguém os veja”.

    Aliás, as mesmas empresas mandam seus funcionários para fora dos prédios a fim de que possam fumar, o que também torna-se numa improdutividade, e pior, aliada ao desgaste da saúde.

  • Analucia

    interessante, de repente se descobre que o centro da questão continua sendo a paixão humana e é ela que com o apoio da tecnologia vem derrubando estruturas….grande walter!!!!

  • Pedro

    Sinceramente, prezado autor, o uso das redes para a grande maioria das pessoas é para diversão e lazer, passatempo, para trazer o convívio social dos familiares e amigos para o tempo de trabalho na empresa. E não há norma interna, curso, reunião, orientações, que mudem isso. As pessoas inserem até o papagaio do vizinho e os desconhecidos nas redes, é uma ânsia por “amigos” que não tem explicação lógica.

    Na Europa isso não é problema porque as redes pegaram pouco, a cultura daqueles países não é propícia para o “encaixotamento” e fragilidade das relações que as redes sociais virtuais provocam, as pessoas têm coisas mais interessantes a fazer do que ficar xeretando a vida dos outros e no meio do ruído inútil das conversas sem conteúdo.

    Então uma coisa é a estratégia de marketing da empresa e para o relacionamento com clientes, outra muito diferente é o uso de redes sociais por parte dos funcionarios, que geralmente não tem porque se envolver com ações especíicas dos setores citados. Querer unir duas coisas absolutamente diferentes e com isso dar permissão de acesso às redes sociais para os funcionários é um contrasenso.

    Isso vale para o Brasil, claro.

    Aliás, ainda acho que o uso das redes sociais pelas empresas tende ao fracasso. Redes sociais no Brasil, hoje voltada a xeretagem e invasão de privacidade, tende a virar fechado e restrito a “ambiente família”, com o passar do tempo. Uso das redes para comércio e relacionamento com clientes é outra coisa bem diferente. È suporte, é apoio para pós-venda, é informação, coisas que um simples email faria. Mas já não fazia antes das redes, farão as redes, agora?

    Sou um crítico do uso das redes sociais de forma descabida, só por conta de um modismo e mais ainda por um tentativa de forçar o uso para situações não convenientes.

    Com respeito e consideração

    Pedro

  • Twite

    CONCORDO em 100%.

  • Juliano P

    Muito fácil falar… “pessoas de confiança”… e como faz com o resto?

  • Eliane Apolinario

    Dr.Walter,acredita-se que os gestores e as gestoras(RH) possibilitem que os profissionais atuem a partir de 2011,mais proativamente pois que o contexto das relações entre profissionais e sua praxis propriamente dita,aponta um cenário em que tem valor prioritário o binômio tempo-espaço.

  • Eliane Apolinario

    Dr.Walter,acredita-se que os gestores e as gestoras(RH) possibilitem que os profissionais atuem a partir de 2011,mais proativamente pois que o contexto das relações entre profissionais e sua praxis propriamente dita,aponta um cenário em que tem valor prioritário o binômio tempo-espaço.