Tecnologia por Cezar Taurion

A TI e o paradoxo da inovação

Publicada em 18/08/2014 16:35

Em um dos últimos eventos com CIOs, aproveitei o intervalo para conduzir um animado debate com alguns executivos. O tema principal foi o paradoxo de como fazer o setor de TI ser inovador sem deixar de manter a infraestrutura e seus sistemas operando com o máximo de disponibilidade e o mínimo de custos operacionais. Inovar implica em falhas e custos, pois nem sempre toda inovação corresponde às expectativas. Nenhum dos CIOs presentes à discussão disse que conseguia budget extra para desenvolver inovações, mas eram cobrados por elas. Os CIOs são pressionados a serem extremamente pragmáticos em seu uso dos budgets e recursos, e portanto acabam tornando-se avessos à inovação.

Por outro lado, todos concordavam que precisam inovar. A questão então passou a ser como manter os custos baixos, sem gastos extras e incentivar inovação? Bem, da discussão surgiram alguns insights que gostaria de compartilhar aqui.

A primeira conclusão que chegamos é que o mindset precisa mudar. A questão deixa de ser uma decisão entre manter o que está ou inovar. É preciso substituir o “ou” por “e”. Sim, é preciso inovar e, ao mesmo tempo, manter os custos baixos. Entregar sistemas da mesma maneira que se entregava há cinco ou seis anos atrás já não é mais suficiente. Lembramos que o iPhone surgiu em 2007 e o iPad em 2010 e viraram de cabeça para baixo o conceito de aplicativos ou apps. Interessante que a classificação empresarial para sistemas passou a denotar sistemas pouco amigáveis, não intuitivos e de difícil manuseio enquanto os apps para usuário final são sinônimos de experiência de uso extremamente agradável. Os usuários questionam o porque desta diferença e a resposta simplista “porque empresarial é assim mesmo”  não convence a ninguém. Portanto, é necessário uma mudança.

Nos últimos 20 a 30 anos a TI predominou na empresa como a  fonte geradora e controladora da tecnologia. Implementou complexos sistemas como ERPs e mantinha sob controle quais tecnologias poderiam ou não entrar na empresa. Com o advento dos apps, cloud computing e o resultante fenômeno da consumerização, a TI passou a ser considerada um problema pelos usuários: fica no meio do caminho entre o que eles querem usar e os que lhes é permitido usar. Um entrave! Como resultado em muitas empresas, o fenômeno da “shadow IT” ou bypass do setor de TI começou a proliferar. Aí começa a ser necessário a mudança de mindset.

A TI que ainda acredita que deve dizer se o usuário pode ou não usar iPad está entrando no atoleiro. Além disso, só permitir o uso de iPads não é em absoluto inovação, é apenas entregar uma tecnologia já disponível. É simplesmente render-se ao fatos. A lógica deve mudar de “como devo entregar iPads ao meu pessoal de vendas”  para “como a entrega dos iPads vai mudar nosso modelo de negócios e que novas oportunidades poderão surgir”. Não é ignorar os aspectos de segurança nas política de uso como BYOD (ainda é sua responsabilidade), mas ir bem além disso.

Um ponto importante foi levantado. TI ainda não é vista como área estratégica por muitas empresas, e a prova disso é muitos CIOs continuarem subordinados ao CFO ou diretor administrativo. Realmente, subordinação deste tipo é uma prova inequívoca de que a TI é considerada uma área operacional e centro de custos pela empresa. Em um caso extremo foi dito que ela fica tão distanciada da empresa que ocupa um prédio isolado da gestão e de setores importantes como marketing e vendas. “Meu CEO me disse que não sabe exatamente o que TI faz, mas que custa muito!”, disse o CIO desta empresa. Pois é, se você não sabe o que está comprando como julgar se é caro? Bem, minha explicação para o fato é que aquela TI não estava realmente atendendo às necessidades da empresa. Não gerava impacto palpável nas operações do negócio, apenas mantinha o dia a dia.

A discussão então passou a “ok, mas como inovar?”. Na minha opinião a contribuição da TI passará a ser de possibilitar a criação de novos modelos de negócio para as empresas.

A TI deve sair da defensiva e aproveitar o potencial de, ao mesmo tempo, conhecer os processos da empresa (pela implementação do ERP e demais sistemas) e de tecnologias, e usar este conhecimento para criar novos modelos de negócio. Para isso deve deixar em segundo plano o viés puramente tecnológico e passar a entender mais do negócio e do mercado em si. Gastar menos tempo com os fornecedores de tecnologia e muito mais com executivos de negócios da sua ou de outras empresas. Gastar menos tempo em eventos de tecnologia e mais tempo em eventos de negócios.

Este foi um ponto interessante. Uma rápida enquete mostrou que a maioria dos CIOs presentes à discussão frequentava quase que exclusivamente eventos de tecnologia dos fornecedores e não comparecia a eventos de negócios de seus próprios setores de indústria! Minha sugestão: inverta esta lógica…faça uma mutação genética, substituindo o DNA de viés tecnológico para um DNA de negócios, com visão futurista de uso da tecnologia.  O CIO passa a ser também um evangelista de inovação e uso de novas tecnologias que façam mudanças nas empresas.

A questão é como fazer isso? Afinal é como mudar as turbinas de um avião em pleno voo. Não existem respostas únicas. Mas alguns insights foram gerados. Primeiro, buscar simplificação. Muitas vezes a proliferação de tecnologias de gerações diferentes cria um imenso pântano tecnológico, que demanda muito tempo e recursos apenas para mantê-lo operando. Simplificar isso é o primeiro passo. A computação em nuvem ajuda bastante, tirando das mãos da equipe interna uma grande parte de atividades que pouco ou nada agregam ao negócio. Um exemplo? Qual impacto nas vendas de uma migração de uma versão de sistema operacional ou de software de banco de dados? Uma TI simples é uma TI mais ágil.

Evite também criar sistemas que sejam muito complexos…Não abraçar mundo é uma boa ideia…Simplifique os seus sistemas internos, adotando o paradigma dos apps como modelo de referência. Repense também sua organização de TI. Está adequada às melhores práticas de uso de tecnologias ou são os mesmos modelos organizacionais e de processos de seis ou sete anos atrás, quando o “quente” era implementar um complexo ERP?

Utilize como benchmarks empresas do mundo da Internet que usam processos e modelos operacionais ágeis como DevOps e adotam o princípio da API Economy. E isto não é apenas coisa para empresas do mundo da Internet, serve para bancos, seguradoras e quaisquer outros negócios. Com uso de APIs muita inovação pode fluir pois grande parte dela será gerada e desenvolvida pelos próprios usuários, internos ou externos, retirando da TI toda a carga de pensar em apps inovadores. Os usuários sabem mais que o pessoal de TI o que realmente precisam usar para suas atividades. Com a TI disponibilizando APIs para os seus usuários, estes ficam mais livres para colocarem em prática suas ideias inovadoras.

Outra mudança é levantar a cabeça e olhar o mundo à sua volta. Em vez de se fixar “como entregar o projeto do novo sistema de vendas, pensar em “como identificar os problemas que estão realmente impedindo as vendas de aumentarem”. Foco no negócio. A tecnologia a ser adotada vai sair desta identificação. O pessoal de TI está inserido na empresa ou atua isolado, separado, com pouco contato com o negócio em si? Já passaram algum tempo nas áreas de negócio para ver “o outro lado?”.

Um CIO comentou que sua equipe mantém contato com os usuários apenas nas especificações do sistema e depois na implementação e correção de problemas. Não vive o dia a dia dos usuários. E portanto não é de estranhar que estes usuários não avaliem bem o trabalho de TI. Uma sugestão é criar e incutir uma missão bem clara para TI como “usar tecnologia para manter vantagem competitiva sustentável”  ou algo parecido. Estar no negócio e não apenas ser parte periférica dele. Uma sugestão que apareceu no debate foi de criar “jams” periódicos que envolvam executivos e profissionais de negócios e de TI.

Criar um ambiente propicio à inovação. Porque manter nas instalações de TI o mesmo layout dos outros setores da empresa? Porque não adotar um layout que incentive inovação, como por exemplo fazem as empresas da Internet? Afinal quando se tem um grupo de desenvolvedores por que eles não podem ter o mesmo ambiente que o oferecido por um Google? Ambos não escrevem código?

Enfim, acabou o intervalo e voltamos à conferência. Mas ficou claro que coisas como “alinhamento de TI ao negócio” e PDTI já são coisas passadas. Não existe TI se não existir negócio e portanto estar alinhado deve ser natural, como nosso fígado está tão alinhado ao nosso corpo que só o sentimos quando algum problema de saúde aparece. PDTI significa que TI faz uma estratégia posterior e à parte da estratégia de negócios. Ora, a estratégia de negócios deve ter TI como parte integrante e essencial. Fazer um PDTI como sempre se fez é perpetuar o passado no futuro.

TI está passando por uma quebra de paradigmas. O que a fez chegar até aqui não necessariamente a levará ao futuro.  Os CIOs estão sob pressão. Engraçado que vejo artigos falando do “ fim do CIO”  mas não li nada até agora sobre o “fim do CMO”… Algo está errado. A tecnologia está cada vez mais entranhada nas empresas e que todas elas, em maior ou menor grau, tornar-se-ão empresas digitais. Não atuarão como empresas de tecnologia mas a tecnologia estará em seus processos e produtos de forma natural. E no cerne desta transformação está o setor de TI e os CIOs. Quem souber conduzir a transformação sairá bem na foto. Quem não souber…

  • Nei Grando

    Cezar, excelente artigo! Aqui você mostra a importância da inovação ao mesmo tempo que considera as principais questões da “realidade” enfrentada pelas organizações e pela TI, o papel da TI e dos CIOs, o fazer mais com menos ($$$) usando os recursos disponíveis, conceitos obtidos das inovações tecnológicas (cloud, APIs, APPs, …) existentes e até mesmo aprender um pouco com as startups.

  • Eial Sztejnberg

    Cezar, muito bom como sempre,parabens