Planos & Ideias

Está na hora de parar de se enganar e começar a inovar

Publicada em 25/03/2015 9:02

O brasileiro não é inovador por natureza. Nunca foi, a despeito do tanto que se inflam os peitos ufanistas ao bradar, arrogantes e orgulhosos, sobre a criatividade nacional.

Em todas as listas das mais disruptivas invenções da humanidade, do transístor à penicilina, passando pela lâmpada, pelo motor a combustão, pelo computador e pela Internet, apenas uma é creditada ao país: o avião. Ainda assim há ressalvas, como o embate sobre o detentor real da invenção (se os irmãos Wright ou Santos Dumont) e o fato deste último ter se educado e passado boa parte da vida na França (de onde, inclusive, decolou o 14-Bis).

O país das “adaptações”
De genuinamente brasileiras temos poucas criações – mas muitas “adaptações” que nos ajudaram a atravessar tempos mais difíceis. Se não inventamos o motor, inventamos o sistema biocombustível (ou pelo menos uma empresa alemã, a Volkswagen, o fez em nossas terras); se não descobrimos como explorar petróleo, avançamos na tecnologia de exploração em águas profundas; se não inventamos a democracia, sistematizamos o processo eleitoral por meio da urna eletrônica como maneira de minimizar fraudes.

Em outras palavras: se não criamos tantas coisas que mudam a mundo, somos especialistas em adaptar as grandes invenções do planeta para a nossa realidade. E mudar esse foco que há tanto tempo nos caracteriza é justamente maior desafio que temos na caminhada em direção a um horizonte melhor.

Afinal, adaptar invenções a nichos locais significa focar o nosso olhar para dentro, para o mercado brasileiro e todas as suas peculiaridades, dificuldades, regionalidades. Não que isso seja, necessariamente, um problema: temos um mercado indiscutivelmente gigante dentro do Brasil.

Só que esse “olhar para dentro” acaba trazendo, como efeito colateral, uma espécie de cegueira em relação a oportunidades além das nossas fronteiras. Explorar oportunidades no mercado nacional é um desafio tão sui generis, tão complexo e árido, que o empreendedor brasileiro acaba concentrando todas as suas energias em sobreviver localmente, ficando sem tempo de pensar globalmente.

Apenas para ilustrar: fora o casamento catastrófico entre uma carga tributária esdrúxula com uma taxa de juros trágica, há ainda uma inexplicável burocracia que, por exemplo, impõe um prazo médio de concessão de patentes para novas invenções de 9 anos (contra 3,5 nos EUA e 3 na Coreia do Sul).

Ao menos legalmente, é constrangedoramente mais fácil, portanto, exportar os nossos inovadores.

O olhar para dentro e a crise
Ainda assim, enquanto o mercado brasileiro estava crescendo continuamente, mesmo que em percentuais tímidos, essa oferta interna era naturalmente acomodada pela demanda. Só que, quando uma crise de maiores proporções mexe justamente na demanda, acabamos em uma espécie de beco sem saída, à mercê da capacidade do governo em contorná-la com alguma solução cujo horizonte, perdoem-me o pessimismo, parece extremamente distante.

O raciocínio chega a ser óbvio: se a maior parte dos nossos esforços foi focada em desenvolver soluções absolutamente customizadas para a nossa realidade, como sobreviver e crescer em um contexto onde essa mesma realidade deixa de demandar?

De colônia a metrópole
A resposta é igualmente óbvia: deixando de adaptar e passando a inovar. Perde destaque, portanto, o “jeitinho brasileiro”, que faz tanta coisa funcionar bem aqui, e ganha destaque o processo de criação de soluções efetivas, disruptivas, capazes de colocar empresas brasileiras na vanguarda de um mundo externo que, ao menos hoje, cresce (e compra) a ritmos invejáveis.

Pede destaque o investimento em pesquisa: no Brasil, investimento efetivo em Pesquisa & Desenvolvimento ainda gira em torno de 1,2% do PIB – metade da Alemanha, França, Japão e Coreia do Sul. Pede destaque a abertura de frentes mais palpáveis em regiões com grandes mercados como Estados Unidos e Europa, o estreitamento de acordos de transferência de conhecimento e todo o fomento de uma mentalidade de abertura de fronteiras de nossas empresas. Pede destaque a inversão da lógica a que estamos habituados desde sempre, partindo do princípio óbvio de que há mercados mais pulsantes (e muito mais fáceis de serem trabalhados) do que o interno.

Pede destaque a inserção do Brasil no cenário da inovação e empreendedorismo mundial em todos os níveis, das grandes ideias de pequenas empresas às pequenas (porém altamente impactantes) ideias de grandes empresas.

É preciso tirar de cena, já com muito atraso, a mentalidade de colônia (que adapta, de forma impositiva, as empreitadas dos mais desenvolvidos à sua realidade) e trocá-la pela mentalidade de metrópole, ajudando a ditar os rumos efetivos do mundo.

E isso não depende só do governo: depende de cada uma das empresas e de cada um dos profissionais que pulsam dentro delas.