Planos & Ideias

Analisando pesquisas e estratégias eleitorais a partir das redes

Publicada em 14/10/2014 8:40

As pesquisas eleitorais do IBOPE e Datafolha realmente erraram? Em qualquer roda de conversa, a conclusão praticamente unânime é que sim.

No entanto, culpar a elasticidade da margem de erro pode ser uma atitude precipitada demais. Pesquisas, por natureza, são feitas para retratar uma realidade a partir de dados coletados durante um determinado período de tempo. E, até os últimos anos, com opiniões formadas a partir da impregnação de contato com meios de comunicação de massa, isso funcionava. Pessoas, em geral, não mudavam de ideia da noite para o dia.

Pelo menos até a Web virar o meio de comunicação dominante para os seus mais de 100 milhões de usuários brasileiros.

Com a facilidade de se comunicar além de uma mesa de bar vem uma tempestade de diálogos e contestações, embasados ou não, gerando impactos poderosos na forma com que as pessoas pensam. E, dada a velocidade com a qual a informação trafega na rede, mudar de ideia é algo praticamente instantâneo.

As pesquisas não erraram: as metodologias que as embasam é que ficaram ultrapassadas.

Uma pesquisa típica, por exemplo, inclui dados coletados ao longo de 2 ou 3 dias, em uma amostra relativamente restrita (de 2 ou 2,5 mil pessoas) e sendo analisada em mais um dia. E, até pouco tempo atrás, isso não era um problema.

Ocorre que, hoje, só o tempo de coleta de dados já é o suficiente para que o mesmo entrevistado do dia 1 mude de ideia em quem vai votar no dia 2, principalmente por conta do mar de denúncias, dados e pregações eleitorais sendo feitos em todos os meios e por todas as pessoas. Multiplique isso por uma realidade tão heterodoxa quanto a de um país como o Brasil e se tem um contexto onde margens de erro acabam sendo muito maiores do que o descrito nas próprias pesquisas.

Enxergar isso é fácil: em toda essa série de artigos, baseada em dados coletados online e analisados todos os dias no Monitor Eleitoral, a curva de saudabilidade dos candidatos (relação entre as menções positivas ou neutras versus o total de menções feitas a eles nas redes sociais) mais parece um eletrocardiograma.

Veja, por exemplo, a comparação entre a saudabilidade dos candidatos e as pesquisas Datafolha no primeiro turno:

De acordo com o Datafolha, Marina caiu suavemente enquanto Aécio cresceu também de forma discreta ao longo do mês de setembro. No entanto, tudo começa a fazer sentido quando se encara as pesquisas oficiais como um retrato do passado recente e a análise das redes sociais como tendência.

De acordo com elas, a saudabilidade de Marina estava em queda livre enquanto a de Aécio se mantinha relativamente estável. A de Dilma se mantinha baixa (como sempre esteve) – mas, no caso da Presidente, o altíssimo volume de menções acabava compensando em uma espécie de raciocínio de “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”. Apenas a título de comparação: no dia 29/09, Dilma foi citada nas redes 163 mil vezes; somados, Aécio e Marina chegaram a pouco menos de 36 mil menções.

Resultado: a tendência se concretizou e Aécio chegou ao segundo turno com uma folga impressionante em relação à sua oponente pesebista.

A mudança de alvo
No dia 9 de outubro, menos de uma semana depois do primeiro turno, o Datafolha divulgou uma nova pesquisa mostrando o candidato tucano numericamente à frente da petista.

Até então, o alvo primário da campanha de Dilma era Marina Silva. E, de fato, a desconstrução feita foi tão poderosa que a ex-aliada do governo acabou sendo massacrada enquanto Aécio Neves se manteve quase intocado.

Agora, claro, o foco petista mudou – e o reflexo disso já aparece na saudabilidade do pesedebista. Seus 81% de menções positivas nas redes sociais no dia 09/10 viraram 58% no dia 12, mostrando que os tiros recebidos estão, sem sombra de dúvidas, atingindo a sua campanha.

Por outro lado, a saudabilidade da Dilma permaneceu estável e abaixo da dele, oscilando apenas dois pontos percentuais.

Isso nos leva a uma segunda análise: a de volume de menções.

Sem Marina, a polarização PTxPSDB chegou ao primeiro plano e acabou dando a Aécio o que ele mais precisava: presença nos diálogos entre eleitores.

Não dá para dizer que ele tem o porte social de sua oponente (que, além de candidata, é a Presidente) – mas a curva mostra uma tendência bem clara.

Essa comparação entre presença e saudabilidade aponta para uma única direção: um crescimento, embora ainda moderado, do candidato tucano nas próximas pesquisas.

Como o PT está reagindo?
Internamente, fica difícil imaginar que o PT não esteja sentindo o golpe e buscando uma reação – principalmente depois do caso da Petrobras que, naturalmente, desgastou a imagem do partido.

Basta comparar, aliás, os termos mais associados a ambos os candidatos em levantamento feito entre os dias 9 e 12 de outubro:


Apesar de ambos terem tanto termos positivos quanto negativos, fica claro o quanto a campanha petista no segundo turno está mais preocupada em atacar o Aécio do que em destacar as suas realizações nos últimos anos.

Tanto, aliás, que a própria linha de comunicação do PT sofreu alterações nítidas. Na TV, por exemplo, Dilma aparece diversas vezes vestindo azul em fundos amarelados, cores tradicionalmente utilizadas pelos tucanos:


A até então onipresente sigla PT, por sua vez, tem diminuído ou mesmo desaparecido dos materiais de campanha que, agora, estampam um slogan de renovação (“governo novo, ideias novas”).

A estratégia parece ser a de desvincular, na medida do possível, a candidata do partido, a Presidente da candidata.

Do outro lado da trincheira…
Enquanto isso, a campanha do PSDB tem mantido uma linha quase tediosa de repetição, em baixo tom, do histórico do candidato. Salve lampejos de inovação como o uso do Whatsapp nos últimos dias, a comunicação tem sido de uma discrição incomum para um segundo turno de campanha presidencial.

É como se os tucanos estivessem apostando todas as fichas nos erros do adversário – uma estratégia arriscada mas que, ao menos até o momento, está funcionando.

Se funcionará até o final é outro assunto: ainda há muita campanha pela frente, com tempo de sobra para que ambos os lados cometam acertos e, principalmente, erros.

Acompanhar isso de perto servirá não apenas como uma verdadeira aula de estratégia, como também como argumento incontestável sobre o poder das redes sociais como um dos – senão “o” – principal farol de tendências dos nossos tempos.