Planos & Ideias

Vai ter Copa nas eleições?

Publicada em 26/05/2014 14:11

No ano passado, o mês de junho começou relativamente calmo – até que uma manifestação reprimida de maneira mais enérgica pelo governo despertou uma espécie de ira popular que estava adormecida, ao menos com essa intensidade, desde as Diretas Já.

A continuação dessa história todos sabemos: milhões de pessoas foram às ruas em protesto contra uma infinidade de problemas que assolam o Brasil, criando provavelmente o pior pesadelo do Planalto desde o final da ditadura.

A resposta se deu em alguns pronunciamentos presidenciais e em alguns programas, como o “Mais Médicos”, na tentativa de acalmar a ira da população. E, por um tempo, funcionou – até a constatação de que, em um ano, pouca coisa prática foi feita, os problemas permanecem os mesmos e o país como um todo vem apresentando taxas de crescimento constrangedoramente pequenas.

Agora, no entanto, a Copa está prestes a começar em uma espécie de primeiro ato de uma ópera que culminará com eleições em outubro.

O que acontecerá até lá? As manifestações se repetirão, só que em maior intensidade?

Ao menos até o momento, não há sinais nas redes de que junho de 2013 se repita. Há, claro, eventos agendados e algumas convocações via Facebook, catalisadas por movimentos como as greves que assolaram o país nos últimos dias – mas a adesão popular parece incrivelmente menor.

Apenas a título de comparação: na última semana, a expressão #VemPraRua foi citada 1.443 vezes; entre 18 e 24 de junho de 2013, ela já havia sido citada 578.298 vezes.

O uso de hashtags mais relacionadas ao evento em si mostram um cenário menos calmo: #NaoVaiTerCopa foi postado 11.224 vezes na última semana, contra 4.611 citações de #VaiTerCopa. Números grandes? Sim – mas ainda insuficientes para identificar movimentos de proporções realmente dramáticas como os que ocorreram no ano passado.

Seja por conta do medo dos Black Blocs, que fecharam o ciclo de protestos de 2013 com o vandalismo necessário para afastar a população das ruas, ou pela raiva que os cidadãos tem manifestado contra grevistas por atrapalharem seus cotidianos nos últimos dias, o fato é que 2014 parece estar se definindo como um ano menos turbulento – muito embora, ressalve-se, tudo possa mudar de uma hora para outra a depender dos ventos políticos.

Pelas redes, aliás, o teor dos comentários parece mais relevante do que a quantidade. Há uma espécie de formação, mesmo que ainda tímida, de senso de que protestar contra a seleção ou mesmo contra a Copa a esta altura é não apenas inútil, como contraproducente. Ao contrário, começa-se a se falar mais e mais que manifestação agora tem dia certo: 5 de outubro, data das eleições.

Sinal de amadurecimento político-social?

O governo parece estar atento a isso e já começou a sua ofensiva publicitária: não são poucas as propagandas destacando temas como o “legado da Copa”, os investimentos feitos em infra-estrutura e os benefícios que resultarão dele.

A oposição, por sua vez, critica o custo deste legado e começa a martelar em temas como a crise na Petrobras e o baixo crescimento do PIB brasileiro.

Enquanto PT e PSDB colocam munição em armas já tradicionalmente montadas em trincheiras opostas, o PSB de Eduardo Campos busca se aproveitar do fato de não estar na mira direta de nenhum dos partidos, se posicionando como uma terceira via cujo maior trunfo é, ironicamente, a falta de experiência no mais alto cargo executivo brasileiro.

Dará certo? Só o tempo dirá.

Mas, se a verdadeira disputa realmente se der nas urnas – e não nos estádios – com uma população efetivamente debatendo, conhecendo os seus votos e eximindo-se do constrangimento de eleger, por exemplo, um palhaço para o Congresso (algo tão tragicômico quanto fazer um gol contra para protestar em um jogo de futebol), então talvez o gigante realmente esteja acordando.

  • Antonio Carlos

    O descontentamento da população é contra a situação do pais, e não contra o governo Dilma. Os problemas do pais são anteriores à sua gestão, e causados fundamentalmente pelos verdadeiros donos do poder, que até as pedras da rua sabem quem são: um punhado de oligarcas regionais, meia duzia de bancos e empreeiteiras, as redes de comunicação, as montadoras e o agribusines. Há 50 anos essa turma impõe sua agenda ao pais, e essa agenda não contempla saude, educação, transporte, combate ao crime organizado e distribuição de renda.