Planos & Ideias

O SXSW vale a pena?

Publicada em 11/03/2014 17:33

Tenho ouvido muitos brasileiros que estão aqui no SXSW criticarem o festival de maneira quase agressiva.

Em geral, os comentários seguem duas linhas:

a) A falta de “palestras revolucionárias” e o excesso de “mainstream”
b) A cidade de Austin em si

Participei do SXSW de sexta a hoje, terça, assistindo em média a 5 palestras por dia. A maior dificuldade do festival é escolher o que assistir – afinal, são dezenas de eventos acontecendo simultaneamente, das 9:30 às 18:00, de maneira quase ininterrupta.

Em um ambiente como esse, tudo depende da escolha – claro. Mas essa escolha não precisa ser escrita em pedra: afinal, se não gostar de alguma palestra, basta ir à sala ao lado e conferir outra. E outra. E outra.

Se puder deixar uma única dica, aconselharia todos a fugirem do lugar-comum (em vez de buscarem-no e, depois, reclamarem que o encontraram). O que vale no SXSW, afinal, não é ver um conjunto de cases de mídias sociais ou técnicas de usabilidade – tudo isso se pode aprender de casa lendo artigos, livros ou indo a eventos mais acessíveis.

O que vale é se permitir viajar, forçando o cérebro a estruturar uma espécie de colagem em meio ao caos que é um festival com centenas de especialistas, renomados ou não, das mais diversas áreas.

Daqui, vi palestras sobre a teoria do caos; sobre mesclagem de produto e anúncios em modelos de negócio tão transparentes que chegam a ser eticamente questionáveis; sobre maneiras de se ultrapassar a caça esdrúxula por likes e se envolver de verdade com usuários.

Mergulhei em um game que, ao envolver os usuários, está ajudando a NASA a viabilizar uma missão tripulada a um asteróide; vi estudos sobre a evolução do cérebro humano e a relação disso com a estrutura multitarefa das novas gerações; conferi projetos de storytelling mesclando cinema, livros, Web e imprensa em um único caldeirão escaldante de inovação.

Pude ouvir em primeira mão embates de gerações protagonizados por Pete Cashmore (Mashable) e Olivier Fleurot (ex-Financial Times).

E, nos intervalos, pude rodar por uma cidade incrível, remetendo ao Velho Oeste americano, e trocar figurinhas com amigos que aqui estavam e que participaram de outras palestras, incluindo de papos quase metafísicos com gurus espirituais aos bons e velhos cases batidos de mídias sociais.

Esperar que uma palestra, isoladamente, revolucionasse toda a forma de ver o mundo, seria de uma ingenuidade incompatível até mesmo com minha idade. Se fosse simples assim, o próprio SXSW não seria feito de centenas de mini-eventos.

Mas o que muda, mesmo, é simplesmente estar presente no caldeirão caótico de informação no qual Austin se transformou. De uma frase aqui a uma fala ali, de uma experiência diferente de uma empresa a um ritmo alucinante de um palestrante, o cérebro tem tempo de costurar algo que, na somatória, sim, muda a forma de pensar.

Não é que o SXSW tenha – ao menos na minha opinião – apenas valido a pena. Ele foi um dos eventos mais estimulantes pelos quais já passei – principalmente por ter conscientemente fugido dos temas e palestras óbvios que, naturalmente, conteriam apenas obviedades.

E o que dizer da cidade? Pelo que ouvi nas ruas (apenas de alguns brasileiros, diga-se de passagem), havia uma frustração generalizada pela falta de um cenário mais culturalmente pulsante e “24 horas”. Mas esse é também um ponto que tive dificuldade de entender: vir a uma pequena cidade no interior do Texas e esperar encontrar Manhattan me parece algo tão ingênuo que esbarra na arrogância.

Se você pensa em vir para o SXSW em 2015, ignore as críticas e programe-se o quanto antes. Venha preparado para mergulhar no caos de conteúdo, fuja dos palcos principais e busque aqueles papos diferentes, com pessoas diferentes e sobre temas encantadoramente fora do mainstream.

Não espere que uma palestra mude a sua vida: dê mais crédito a si próprio. Em vez disso, exercite os seus próprios neurônios e se engaje em uma corrida de sinapses cerebrais que, no fim, vão te levar a outro patamar pessoal e profissional.

  • ffiggie

    Provavelmente essas críticas vem de gente que adora os cases “dia da marmota- publicitário padrão” destes eventos web/social media que rolam em SP. É tudo tão superficial que encontrar palestras realmente interessantes nestes eventos é como encontrar água no deserto. E quanto a criticar Austin, sem comentários, né?