Planos & Ideias

SXSW: Project Empire e a reinvenção do conceito de narrativa

Publicada em 10/03/2014 15:54

A maior parte das histórias do mundo, sobre qualquer que seja o tema, é absolutamente tridimensional. Por mais que nos esforcemos para criar uma linha do tempo em nossas mentes, para estabelecer começo, meio e fim, tudo o que vemos tem impactos absolutamente caóticos que gera outras histórias periféricas a cada instante.

Por exemplo: enquanto profissionais de mercado palestram aqui no SXSW, todos os indivíduos da plateia assumem comportamentos diferentes: uns assistem, mudos; outros fazem anotações; outros escrevem artigos; e outros simplesmente pensam na vida. Para cada um dos participantes há um efeito único gerado pela palestra – o que significa que contar a sua história de verdade inclui, de alguma maneira, captar todos esses efeitos.

Embora isso seja um conceito ainda complexo demais para ser adotado por muitas das marcas, um projeto específico – o Empire – fez uma tentativa absolutamente válida,  lançada recentemente.

O tema central era o impacto da colonização holandesa em todo o mundo – desde os locais mais remotos, como o Sri Lanka, até a própria cidade de Amsterdam.

Mas como responder a uma questão tão ampla como os efeitos atuais do imperialismo daquela que foi uma das maiores potências ultramarinas do planeta? E transmitindo isso de maneira adequada, completa, para uma audiência igualmente distribuída pelo globo?

A resposta encontrada pelos diretores foi inusitada: trabalhar as narrativas simultaneamente sob um ponto de vista artístico, efetivamente permitindo que a plateia fosse bombardeada por conteúdo a ponto de forçá-la a mergulhar a fundo no universo cinematográfico.

O “filme” foi dividido em quatro camadas:

1) Instalações artísticas
Nada de cinema: para ver o filme em sua forma originalmente concebida, o usuário precisaria entrar em uma das quatro caixas pretas espalhadas pelo mundo (infelizmente, sem incluir o Brasil no roteiro). Na prática, eram ambientes fechados, com monitores por todos os lados rodando histórias de maneira simultânea, tendo apenas o áudio intercalado para viabilizar o entendimento.

Por exemplo: enquanto um morador de Ghana contava um pouco da sua vida em um monitor, uma pernambucana falava sobre o dia a dia no sertão. O elo entre ambos estava no passado, por serem fruto de ex-colônias holandesas – e esse tipo de narrativa multifacetada acabou permitindo que a própria plateia ligasse um ao outro por meio dos seus hábitos, costumes e crenças, entendendo mais a fundo os detalhes e sutilezas do legado colonial. Do ponto de vista de arte, poucas coisas poderiam ser mais revolucionárias para o cinema.


2) Adaptação online

O problema com instalações físicas, no entanto, é que elas são limitadas, demandando espaço e exigindo que o usuário se locomova para poder assistir. Foi desse problema que nasceu a segunda camada do projeto: a versão online, no www.empireproject.eu. Nele, o próprio usuário consegue reproduzir a sensação das narrativas simultâneas em seu computador por meio de uma UX absolutamente inusitada, inovadora. Vale a pena navegar, nem que seja para passar pela experiência diferenciada em um site feito para contar diversas histórias (que compartilham apenas a base original) simultaneamente.

3) Livro
Todo o projeto, da idealização às histórias, foram registradas em um livro. O objetivo foi claro: documentar o documentário da maneira mais linear possível, deixando um legado mais prático para todos os que quiserem entendê-lo melhor. Nas palavras dos diretores, o livro é a história do projeto deixada à disposição de gerações futuras que quiserem entendê-lo. É curiosa a forma com que diversas tecnologias de última geração foram utilizadas para realizar o projeto – mas que o bom e velho livro foi escolhido como meio para imortalizá-la no tempo.

4) Materiais complementares
Cada vez que um projeto diferente como esse sai, uma tonelada de reportagens, artigos (como esse), fotos e filmes do making-of é gerada. Para os idealizadores, todo esse material também compõe a narrativa por um princípio óbvio mas, não obstante, ignorado por quase todos os diretores de cinema ou autores: uma história inteira só pode ser contada de verdade quando se soma sua linha temática central a todos os efeitos que ela gerou em quem assistiu.

Todo o caos iniciado pela ideia de se criar uma história feita pela soma de narrativas simultâneas, acaba fazendo parte dessa mesma história, fechando um ciclo poderoso que pode ajudar a desenhar as novas fronteiras do storytelling.

E, se storytelling é o grande tema da SXSW, olhar mais atentamente iniciativas que fogem do lugar comum é certamente algo que deve ser feito por todos os profissionais de comunicação. Pode ser que um modelo como o do Empire fracasse no longo prazo pela sua complexidade? Sim, pode. Mas, ainda assim, não se deve esquecer que inovação é também gerada a partir de uma multiplicidade de tentativas e erros – e que apenas conhecê-los já é um grande passo.

O que fazer agora? Abrir uma outra janela no browser e mergulhar no universo do www.empireproject.eu. Boa viagem!

  • Anderson Daniel

    Tudo que tenho lido aqui nos últimos dias sobre a SXSW tem expandido minha consciência sobre o mundo. Gostaria de agradecer sinceramente!

  • ricardoralmeida

    Obrigado pelo comentário Anderson! O evento realmente é MUITO fora de série!