Planos & Ideias

SXSW: Como prever o futuro sem blablablá

Publicada em 10/03/2014 7:22

Eventos relacionados ao mercado interativo têm sempre a palavra “tendência” permeando praticamente todas as palestras.

Se informação é a moeda mais valiosa que existe, então prevê-la passa a ser uma espécie de bilhete premiado de loteria. E não faltam estudos e esforços para isso, de análises empíricas de casos isolados a avaliações de estatísticas comportamentais com alta densidade.

O curioso, no entanto, é que todos os estudos – alguns demonstrados aprofundadamente aqui no SXSW – parecem mais focados em comprovar uma hipótese pré-formatada do que em chegar a hipóteses novas.

O livro impresso deve acabar? Pergunte a uma gráfica e a resposta será não; pergunte a uma fabricante de tablets e a resposta será sim. Ambas, aliás, devidamente municiadas de pilhas e mais pilhas de pesquisas.

A imprensa tradicional está com os dias contados? Pergunte a um portal de conteúdo – ou mesmo a um jornal – e eles dirão que não. Pergunte a uma das grandes redes sociais, habituadas a ver conteúdo jorrar nas telas por milhões de usuários anônimos, e elas não terão dúvidas. Aqui, também, há evidências para todos os lados (menos para jornais, claro).

Como escolher um caminho, portanto, quando se está preso em um cruzamento com indicações consistentes para ambos os lados?


Preveja o futuro você mesmo

A resposta pode ser mais simples do que parece. Faça um exercício simples: ignore pesquisas, ignore suas próprias crenças semi-religiosas relacionadas a preferências pessoais, e formule a mesma pergunta para qualquer situação: o que não faz sentido na forma com que as coisas estão hoje?

Traduzindo e, exemplificando:

O livro impresso deve acabar? Sim, deve – pelo simples motivo de que não faz sentido algum dependermos de algo físico, frágil de difícil distribuição para absorver conhecimento. Isso não significa que ele acabe amanhã, mas significa que passará por um processo consistente de mutação, digitalizando-se cada vez mais e incorporando pelo caminho outros elementos como vídeos e animações interativas. Por quê? Porque faz sentido.

A imprensa tradicional está com os dias contados? Sim, sem dúvidas – o que não significa que ela deva ser subitamente extinta. O seu papel, no entanto, é que mudará abruptamente: ao invés de produtora de notícias, ela virará agregadora e curadora de conteúdo gerado por usuários. Por quê? Porque há uma abundância de conteúdo na mesma medida que há carência de crivos editoriais, de credibilidade em cada post sendo feito em redes, blogs ou site.

Redes sociais devem acabar? Da forma que estamos acostumados a ver, sim. Não faz sentido irmos a um endereço Web para nos relacionarmos com quem já conhecemos. Ao contrário: é muito mais óbvio montarmos (e desmontarmos) nossas redes sociais próprias com quem quisermos e pelo tempo que desejarmos. E há inclusive uma prova bem concreta de que isso já começou a acontecer: o WhatsApp.

Apps devem acabar? Sim, já que é absolutamente ridícula a mera necessidade de fazer o download de uma versão mais encapsulada de um site. Em uma era conectada, com wi-fi de qualidade em todos os lados como deve ser o futuro próximo, apenas acessar um link e tê-lo funcionando perfeitamente bem (como uma app) deve bastar.

Carros autônomos? Claro. Novos tipos de devices como foram os tablets há alguns anos? Falta necessidade prática. Revistas? Só caso se transformem em agregadores sociais segmentados como, por exemplo, o Flipboard. Longos cursos de especialização como MBAs e pós-graduação? No modelo atual, dificilmente sobreviverão uma vez que o conhecimento de alunos e professores está cada vez mais nivelado – e que há uma abundância muito maior de informação útil fora do que dentro das salas de aula.

E assim, de mercado em mercado, consegue-se arriscar previsões futuristas com uma relativa margem de segurança gerada pelo mais simples raciocínio lógico.

Quer prever o futuro? Basta observar o presente e, despido de qualquer crença cega ou viés pessoal, tirar dele tudo o que não fizer sentido. Simples assim.